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28/07/2016



O berço esplêndido de uma das caçulas das pós-graduações em Química


Por seus biomas, Mato Grosso tem condições naturais invejáveis para a pesquisa científica. Com apenas seis anos, PPGQ da UFMT luta para criar também condições materiais

Poucas regiões do mundo têm condições naturais tão privilegiadas como o estado do Mato Grosso. Cercado pelos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal, guarda uma biodiversidade incrível e incontáveis oportunidades para cientistas que queiram entender melhor as propriedades de espécies vegetais e animais. Por outro lado, poucas regiões do mundo têm uma presença tão forte da agropecuária – 10% da área do Mato Grosso é coberta de soja, mais uma boa parte é pasto. Ao mesmo tempo que a atividade agrícola possibilita a geração de riquezas impensáveis há 30 anos, quando o Mato Grosso era marcado pela pobreza, coloca desafios ambientais que exigem compreensão e atuação científica maior.

 
Pantanal mato-grossense, maior planície alagável do mundo, Patrimônio Natural da Humanidade, fonte de inspiração e conhecimento  

É nesse cenário que está um dos mais novos programas de pós-graduação em Química das universidades federais. O PPGQ da UFMT foi criado em 2010, conta com 34 alunos matriculados e 20 docentes permanentes. Já formou 57 mestres nas áreas de Química de Produtos Naturais, Química Analítica Ambiental, Físico-Química e Química Inorgânica. Tem conceito 3 da CAPES e muitos desafios, seja no sentido de ampliar a infra-estrutura, aumentar a qualidade da produção científica e mesmo criar condições de estabelecer o doutorado.

"Destaco o apoio institucional que PPGQ tem recebido da Pró-reitoria de Pós-Graduação, com apoio no custeio de passagens e diárias em bancas, congressos e missões tanto de docentes como discentes através do PROAP livre ao PPG, do INCT Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal e do projeto Centro Interdisciplinar de Estudos em Biocombustíveis, que nos apoiam com bolsas, aquisição de equipamentos de grande porte e consumíveis. Com isso a produção científica dos docentes do programa vem crescendo gradativamente", afirma a coordenadora do programa, professora Virgínia Silva. Segundo ela, nos últimos 12 meses o PPGQ gerou 15 artigos em publicações diversificadas.

 
Professora Virgínia Silva (2ª à esquerda) com a professora Tereza Ribeiro (1ª à esquerda) e alunos de IC e mestrandos do LPQPN (Laboratório de Pesquisa em Química de Produtos Naturais). 

O professor Evandro Dall'Oglio, primeiro coordenador do programa e atual chefe do departamento de Química da UFMT, trocou o Sul do País pelo Mato Grosso em 1995. Ele conta que antes de 2002 havia uma pós-graduação em Saúde Coletiva, que permitia aos doutores em química manterem-se produtivos, ainda que em uma área restrita. "Não sabemos por que motivos o programa foi extinto pela CAPES e ficamos oitos anos sem possibilidade de participarmos de pós-graduações", explica.

 

Professor Evandro Dall'Oglio: "Precisamos implementar o doutorado para que os mestres não precisem buscar a continuidade de suas formações em outras regiões e também para suprir a carência de doutores em Química na região."

 

Então, quando os doutores da UFMT anos mais tarde conseguiram implementar o PPGQ, foi uma grande vitória, que serviu para estimular os próprios graduandos. "Com a implementação do mestrado, a evasão na graduação diminuiu, pois os alunos passaram a ter uma perspectiva de carreira acadêmica", conta Dall'Oglio. "Agora vivemos a mesma situação em relação ao doutorado. Nós precisamos implementá-lo para que os mestres não precisem buscar a continuidade de suas formações em outras regiões e também para suprir a carência de doutores em Química na região."

Texto elaborado com a participação dos docentes do PPGQ e da Coordenadora do PPGQ-UFMT, Virgínia Silva, sobre a vocação química da região:

O estado de Mato Grosso é hoje a locomotiva do desenvolvimento nacional. Enquanto o País como um todo amargou, nos últimos anos, taxas medíocres de crescimento econômico, Mato Grosso vem apresentando números que impressionam. Ano a ano são batidos recordes de produção, principalmente de soja, algodão, madeira e carne bovina, onde o estado destaca-se dentre os maiores produtores nacionais, produzindo superávits crescentes em sua balança comercial e contribuindo para a redução da dívida externa brasileira. Esta pujança econômica impressiona ainda mais quando se considera que, há apenas cerca de trinta anos, a região era considerada inóspita, vivendo em quase completo abandono.

Em uma área aproximada de um milhão de quilômetros quadrados, encontra-se uma das maiores diversidades sócio-culturais e ambientais do planeta. Aqui temos três grandes biomas: a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal, além de uma unidade paisagística de beleza ímpar, que é a região do Araguaia. O estado abriga, ainda, mais de trinta etnias indígenas, além de imigrantes de todas as regiões do País que, juntamente com os mato-grossenses, respondem pelo grande progresso econômico observado nos últimos anos.

O esforço e pioneirismo humano, no entanto, por si só não seriam suficientes para fazer de Mato Grosso o que o estado é hoje: não fossem os avanços tecnológicos observados nas últimas décadas, destacando-se aqueles que possibilitaram o plantio de soja e outras leguminosas nos solos ácidos do cerrado, viabilizando a assimilação de nitrogênio por estas cultivares, ainda estaríamos entre os últimos estados da federação sob o ponto de vista do desenvolvimento econômico.

Como em todo caso de sucesso, há, no entanto, problemas a serem resolvidos. A produção agrícola no cerrado só é viável, com as tecnologias usuais, para a grande escala, o que acaba por excluir o pequeno produtor deste processo. Além disso, o uso intensivo de pesticidas e insumos agrícolas acarreta problemas de poluição ambiental, podendo afetar os rios, contaminando peixes e outras fontes de alimento, além dos lençóis subterrâneos. Acrescente-se aí a degradação dos solos, ocasionando o assoreamento de rios para que esteja configurado um quadro ameaçador, requerendo cuidados para que a principal atividade econômica do estado se dê de maneira sustentável, garantindo a sobrevivência, com qualidade, desta e de outras gerações.

Aliado aos cuidados com o meio ambiente e as questões sociais, há que se continuarem os esforços para o aumento da produtividade da agricultura/pecuária local, maximizando os lucros ao produtor, barateando os alimentos para a população, evitando desmatamentos desnecessários e contribuindo, cada vez mais, para o esforço nacional para a manutenção das reservas em moeda estrangeira. Tendo em vista que 70% do agronegócio se dá fora da porteira, se faz necessário otimizar as cadeias produtivas, diversificando a pauta econômica do estado, além de agregar valor às commodities aqui produzidas, já que a exportação de grãos e carnes in natura deixa poucas divisas no estado.

Considerando o aproveitamento da biodiversidade, há que se buscar alternativas sustentáveis, via produtos não-madeireiros, de exploração dos produtos da floresta. A imensa riqueza da flora e da fauna de Mato Grosso, presente em seus três ecossistemas, deve ser explorada de maneira sustentável, como forma de gerar emprego e renda para a população, demonstrando assim a viabilidade de se tirar sustento com a floresta em pé.

Faz-se, portanto, importante a busca de novas tecnologias de extração e aproveitamento econômicos dos produtos naturais (e seus derivados) existentes no estado. O desenvolvimento destas novas tecnologias poderá também servir como base para o desenvolvimento de novas agroindústrias e a organização de arranjos produtivos locais (APLs) em diversas regiões do estado.

Desde a sua criação, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), dada sua privilegiada situação geográfica, tem direcionado suas atividades na resolução de problemas regionais e no estudo da diversidade sócio-cultural e da biodiversidade do Cerrado, da Floresta Amazônica e do Pantanal Mato-grossense, visando o desenvolvimento equilibrado da região, que tem na agricultura o seu pilar mestre. Esta vocação natural, já no início da década de 1970, tornou a UFMT conhecida como a Universidade da Selva (UNISELVA).

A UFMT tem claro o seu papel estratégico em dar apoio à sociedade mato-grossense, seja na busca de melhorias nos processos produtivos que geram emprego e renda, seja na produção de novos conhecimentos e tecnologias, no desenvolvimento de métodos para o monitoramento da saúde ambiental e da mitigação dos impactos resultantes das intervenções humanas, no estudo da rica diversidade biológica e sócio-cultural do estado, na busca de melhores soluções para a saúde da população e na melhoria da qualidade do ensino, em todos os níveis. É papel da Universidade a atenção à problemática local, sem perder de vista a visão macro da sociedade globalizada do século XXI. Há, portanto, quatro grandes questões que se colocam como janelas de oportunidade para o nosso estado e que necessitam especial atenção por parte da universidade:

1. A água: esta é uma questão estratégica para a geopolítica do século XXI, tomando dimensão especial após a recente divulgação do último relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change. Mato Grosso é um estado abundante em recursos hídricos. A conservação e o uso sustentável deste recurso garantirão o bem estar da população e o desenvolvimento do estado;

2. Sustentabilidade na agricultura: a revolução verde teve o mérito de enterrar de vez o pesadelo Malthusiano. Entretanto, as práticas agrícolas adotadas em função deste modelo mostram claros sinais de esgotamento, seja devido ao uso excessivo de água para a irrigação, seja devido ao abuso no uso de biocidas e insumos agrícolas, seja ainda, pelo equívoco na prática de monoculturas. É, portanto, de fundamental importância que se busque alternativas ao modelo existente, buscando, ao mesmo tempo, dar-lhe sustentabilidade.

3. A biodiversidade: Nenhum país do mundo conta com a abundância de recursos genéticos presentes no Brasil. Mato Grosso, como já dito acima, foi presenteado com três grandes biomas: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado. Escondido sob esta biodiversidade há um tesouro incomensurável, podendo dar origem a novos fármacos e medicamentos (destaca-se que mais de 40% dos medicamentos vendidos no mundo tem origem em produtos naturais), óleos fixos essenciais, resinas, biocidas naturais, corantes e etc.. A produção de conhecimentos visando à exploração sustentável destes recursos deve estar entre os objetivos permanentes da universidade;

4. Os biocombustíveis: A busca de alternativas para a substituição dos combustíveis fósseis é uma das grandes questões da atualidade. Mato Grosso é um dos maiores produtores nacionais de biodiesel e etanol, devendo ocupar em breve a posição de primeiro produtor de biodiesel, tendo em vista o grande número de empresas que vem se instalando no estado.

5. Industrialização: com o desenvolvimento recente do setor industrial no Mato Grosso, cresce cada vez mais a importância de se agregar valor à produção. Como as indústrias geram uma grande quantidade de resíduos, que por sua vez são mal aproveitados, faz se necessário à associação de catalisadores inorgânicos para reciclar e aproveitar a matéria orgânica gerada pela indústria alimentícia, de polímeros e/ou farmacêutica.

6. Nanotecnologia: Síntese de materiais híbridos orgânico-inorânico nanoestruturados baseados em sólidos inorgânicos e nanopartículas de metais nobres (Au, Ag, Pt e Cu) para o emprego na área de catálise, sensores e medicina (bioinorgânica).

A criação do Programa de Pós-Graduação em Química é, portanto, um importante passo dado pela UFMT, reunindo grupos de pesquisa que já vêm atuando nas quatro grandes questões acima citadas. Grande parte destes grupos já atua colaborativamente em diversos projetos de pesquisa, o que torna a atual proposta não apenas oportuna, mas necessária para a consolidação, a evolução e o amadurecimento de tais grupos, ampliando a capacidade de formação de recursos humanos qualificados para a promoção do desenvolvimento econômico sustentável.

Neste contexto, o curso de mestrado tem os seguintes objetivos específicos:

- Contribuir para a agregação de valor à produção agropecuária regional, através do desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de biodiesel e o aproveitamento dos co-produtos como ração animal e gerando produtos de maior valor agregado;

- Contribuir para a agregação de valor e a preservação dos produtos naturais da região, através do desenvolvimento de novos bioinseticidas e fitoterápicos;

- Contribuir para a preservação ambiental e a agregação de valor à produção agropecuária regional, através do desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de biodiesel a partir de resíduos;

- Contribuir para a melhoria da qualidade dos cursos básicos de formação da instituição (graduação);

- Contribuir para a consolidação de grupos de pesquisa já existentes que desenvolvem projetos na área e aglutinação de novos grupos que atuam em ciências dos materiais e nanotecnologia;

- Desenvolver novas tecnologias para a produção de álcoois a partir da celulose;

- Estudar as reações de transesterificação/esterificação via catálise heterogênea e homogênea usando radiação de micro-ondas e ultrassom;

- Estudar métodos de síntese de materiais catalíticos usando radiação micro-ondas e ultrassom;

- Desenvolver métodos analíticos de determinação de constituintes orgânicos e inorgânicos em biocombustíveis, para o monitoramento de contaminantes ambientais; - Formar professores e pesquisadores que atendam quantitativa e qualitativamente às necessidades do ensino superior e do mercado de trabalho na área.

Desta forma, a meta do curso de mestrado em Química é a formação de mestres com sólidos conhecimentos que os capacitem a atuar no desenvolvimento de fitoterápicos, bioinseticidas e nas diversas cadeias produtivas da agroindústria, aperfeiçoando os processos produtivos e desenvolvendo novas tecnologias para o aproveitamento dos produtos e co-produtos, além do aproveitamento de resíduos. A preocupação com o meio-ambiente ocupa lugar destacado, sendo encarada como parte indissociável dos processos produtivos. Os mestres formados por esse programa conviverão em um ambiente multidisciplinar, envolvendo as áreas de Química e Meio Ambiente e poderão atuar em órgãos públicos, instituições de ensino e/ou pesquisa e empresas públicas e privadas, contribuindo para o desenvolvimento científico e a inovação tecnológica na região e no País.

Site do PPGQ-UFMT: www.ufmt.br/ppgq


Alguns artigos publicados

“[1-8-NαC]-Zanriorb A1, a Proapoptotic Orbitide from Leaves of Zanthoxylum riedelianum”, P.J.S. Beirigo, H.F.V. Torquato, C.H.C. Santos, M.G. Carvalho, R.N. Castro, E.J. Gamero-Paredes, P.T. Sousa, M.J. Jacinto, V.C. Silva, Journal of Natural Products 2016, 79, 1454-1458.

“Investigation of dielectric properties of the reaction mixture during the acid-catalyzed transesterification of Brazil nut oil for biodiesel production”, E.L. Dall’Oglio, C.A. Kuhnen, C.C. Deibnasser, P.T. S. Júnior, L.G. Vasconcellos, Fuel 2014, 117, 957-965.

“Electrochemical biosensor for carbofuran pesticide based on esterases from Eupenicillium shearii FREI-39 endophytic fungus”, G.F. Grawe, T.R. Oliveira, A.J. Terezo, M.A. Soares, S.K. Moccelini, M. Castilho, Biosensors & Bioelectronics  2015, 15, 407-413.

“DFT study of the acid-catalyzed ethanolysis of butyric acid monoglyceride: Solvent effects”, A.C.H. Silva, E.L. Dall’Oglio, P.T.S. Júnior, S.C. Silva, C.A. Kuhnen, Fuel 2014, 119,  1-5.

“Platinum-supported mesoporous silica of facile recovery as a catalyst for hydrogenation of polyaromatic hydrocarbons under ultra-mild conditions”, M.J. Jacinto, M. Wizbiki, L.C. Justino, V.C. Silva,  Journal of Sol-Gel Science and Technology 2015, 77, 398-405.


Texto: Mario Henrique Viana (assessor de imprensa da SBQ)








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