.: Notícias :.
Boletim Eletrônico Nº 1241

DESTAQUES:



Siga o
da SBQ


Logotipo

Visite a QNInt





capaJBCS



capaQN



capaQnesc



capaRVQ





   Notícias | Eventos | Oportunidades | Receba o Boletim | Faça a sua divulgação | Twitter | Home BE | SBQ



13/10/2016



No PPG-Q/UFPE, a Química dialoga intimamente com a física e outras ciências


Programa tem a diretriz: Formação de recursos humanos com um sólido embasamento químico para a solução de desafios científicos em áreas de fronteira entre a Química e Física, Biomedicina e Engenharias

O Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal de Pernambuco é marcado por uma forte interação da química teórica com as demais áreas e tem conseguido produzir forte impacto social desde sua fundação em 1989. Como todos os demais programas do País, sofre com o pesado corte de financiamento público e tem buscado formas criativas para manter o volume e o ritmo das pesquisas.

A síntese é feita pela coordenadora do programa, Professora Thereza Soares, ela mesma dependente de recursos externos para conduzir seu trabalho em química computacional.

Professora Thereza conversou com o Boletim da SBQ por "Skype", diretamente da Universidade de Umea, no nordeste da Suécia, onde está em licença capacitação de três meses desenvolvendo seu trabalho em um regime financiado pelo governo sueco. "No governo anterior houve um grande investimento no envio de estudantes para o exterior e o início de uma série de cooperações de intercâmbio e pesquisa científica. Eu me inscrevi em uma chamada do governo sueco, fui aprovada e iniciamos esta colaboração em 2011", conta a professora.

Os recursos cobrem viagens de intercâmbio dos vários integrantes do grupo e uma conferência anual com químicos de diversos países e áreas diferentes envolvidos na mesma pesquisa. "Existem várias chamadas de vários países, algumas específicas para brasileiros, outros não. É preciso correr atrás dessas oportunidades porque a situação do ensino no Brasil nunca esteve tão ruim. Estudei em escola pública e posso dizer que nunca vi nada igual em termos de falta de recursos", lamenta Thereza.

Em sua opinião a situação é um choque porque o Brasil saiu de um período recente em que houve investimento maciço em ciência. "Tenho três pós-doutores que submeteram projetos, todos avaliados com méritos, mas não há recursos." Thereza supervisiona o trabalho de três pós-doutorandos e coordena o Grupo de Modelagem de Biomateriais, com três doutorandos, um mestrando e quatro alunos de iniciação científica.

"O orçamento do nosso Programa para custeio em 2015 foi de aproximadamente 31 mil reais", conta a Professora Thereza. "Na gestão anterior criamos uma tradição de alocarmos 30% do orçamento para os orientadores recém-contratados. Mas na atual crise, não temos tido recursos nem mesmo para atividades básicas, como pagar participação de discentes em conferências, etc...", descreve.

Um dos poucos programas de pós-graduação no País a nascer com os cursos de mestrado e doutorado, o PPGQ/UFPE foi criado dentro de um departamento recentemente desmembrado do grupo de física atômica e molecular, coordenador pelos professores Ricardo Ferreira (fundador e segundo presidente da SBQ, precedido por Simão Mathias e sucedido por Fernando Galembeck) e Gilberto Sá. O Programa avaliado com conceito 6 pela Capes desde a criação deste índice, caiu para 5 em 2010 e um triênio depois voltou para 6.

"O Programa surgiu com uma base muito forte na química teórica e na espectroscopia", conta a Professora Thereza. "Desde o início foi muito aberto à interdisciplinaridade, característica presente até hoje, com grupos teóricos e experimentais trabalhando em conjunto", explica a coordenadora.

Este ano estão matriculados 76 doutorandos e 24 mestrandos, que realizam pesquisa em áreas clássicas da química (orgânica, inorgânica, físico-química e analítica) assim como nas áreas de materiais, bioquímica computacional, farmacêutica, ecologia química. "Temos publicado, não só em revistas de química, mas também de áreas correlatas", observa Thereza.

O PPGQ/UFPE tem uma estrutura enxuta. São apenas 32 docentes permanentes e cinco colaboradores. "A Capes espera que os PPGQs tenham um número maior de professores. O nosso sempre foi pequeno. Ainda assim sempre tivemos um número de publicações bastante alto. Mas não estávamos publicando tanto quanto a Capes desejava com discentes. Parte do problema é que estávamos aceitando alunos sem muita seleção. Mudamos nosso processo de seleção. Temos prova de conhecimento em química geral, e prova de conhecimentos da língua inglesa. Este foi nosso primeiro passo para retornar ao conceito 6", relata a coordenadora. "Mas no momento, sem recursos, será difícil uma transição para o conceito 7. No entanto, temos uma longa tradição de engajamento dos discentes no Programa, e iremos continuar produzindo da melhora forma possível."

O professor Roberto Lins é outro orientador do Programa que conduz suas pesquisas graças a recursos externos. Com um doutorando e um pós-doutorando, ele trabalha no desenvolvimento de moléculas para diagnósticos e vacinas contra o vírus da zika, na FIOCRUZ, com recursos do Cura Zika Foundation, dos EUA, e da FACEPE. Em uma descrição básica, seu grupo concebe proteínas que não existem na natureza para uma cumprir uma função, e testa em modelos computacionais como essas proteínas interagem com proteínas virais e/ou anticorpos. Essas proteínas são posteriormente validadas experimentalmente. Para isso utiliza os serviços do supercomputador do Laboratório Nacional de Computação Científica, em Petrópolis. "É um trabalho robusto, mas de alta demanda de recursos computacionais, onde o computador analisa todas as possibilidades para nossos modelos", descreve.

Lins é biólogo por formação, doutor em química teórica e tem uma experiência de 14 anos nos EUA e na Suíça. Em 2010 voltou a Pernambuco e passou a orientar no PPGQ. Simultaneamente à pesquisa, mantém a orientação de três alunos ligados a outros projetos na mesma área.

 
 Professor Roberto Lins (3º a partir da esquerda) com integrantes do seu grupo de pesquisa: desenvolvimento de moléculas para diagnósticos e vacinas contra o vírus da zika
A Professora Joanna Kulesza é a mais jovem orientadora do Programa. Nascida na Polônia, ela chegou ao Brasil em 2011 para fazer pós-doutorado conjunto na UFPE e na UFRN. Em 2014 tornou-se professora adjunta na UFPE, e no ano seguinte entrou do PPG-Q como membro permanente. Ela coordena o Laboratório de Química Supramolecular e Materiais Avançados, do qual fazem parte um doutorando, um mestrando e dois alunos de iniciação científica, além mais dois de IC voluntários. "Estudamos MOFs para diversas aplicações, por exemplo como plataformas para carregamento de fármacos. É uma área nova da Química, com muita gente envolvida no mundo inteiro. Há três meses conseguimos um espaço físico para o laboratório, e a pesquisa agora vai acelerar", explica Joanna.

 
 Professora Joanna Kulesza (4ª a partir da direita) com seus alunos de Química Supramolecular e Materiais Avançados
A UFPE foi a sede do encontro regional da SBQ-NE neste ano, um encontro que reuniu mais gente do que no ano anterior. "Tivemos 416 participantes, com 266 trabalhos inscritos", afirma a Professora Ana Paula Paim, secretária regional de Pernambuco da SBQ. Segundo ela, a regional tem se esforçado para atrair mais associados, e engajar mais os pós-graduandos na Sociedade. "Atualmente somos cerca de 30 associados em Pernambuco, e temos a expectativa de aumentar este número, sobretudo levando em conta o Congresso da IUPAC 2017, que será no Brasil."

Cinco publicações recentes que ilustram linhas de pesquisa em cada uma das áreas da Química:

O PPG-Q/UFPE conta com um número médio de 35 pesquisadores integrando seu corpo docente. O Programa possui um índice h = 50 e "h2" = 15 (conforme definido pela CAPES e incluindo apenas os índices H dos membros permanentes). Por esta razão, a escolha de 5 publicações que representem o PPG-Química é infactível. Como alternativa, foram selecionadas publicações recentes i. de autoria de discentes do Programa, ii. cujo autor correspondente é docente permanente do Programa, e iii. sendo cada uma das publicações listadas representativa de uma das quatro áreas da Química, em adição à Química de Materiais.

Química Teórica

"Selectivity and Mechanisms Driven by Reaction Dynamics: The Case of the Gas-Phase OH– + CH3ONO2 Reaction", M.A.F. Souza, T. Correra, J.M. Riveros, R.L. Longo, J. Am. Chem. Soc. 2012, 134, 19004-19010.

Química Inorgânica

"A Comprehensive Strategy to Boost the Quantum Yield of Luminescence of Europium Complexes", N.B.D. Lima, S.M. Gonçalves, S. Alves Jr., A.M. Simas, Scientific Reports 2013, 3, 2395.

Química de Materiais

"Inkjet Printing of Lanthanide-Organic Frameworks for Anti-Counterfeiting Applications", L.L. da Luz, R. Milani, J.F. Felix, I.R.B. Ribeiro, M. Talhavini, B.A. Neto, J. Chojnacki, M.O. Oliveira, S. Alves-Jr., ACS Appl. Mater. Interfaces 2015, 49, 27115-27123.

Química Orgânica

"Electrochemical synthesis of organochalcogenides in aqueous médium", P.B.Ribeiro-Neto, S.O. Santana, G. Levitre, D. Galdino, J.L. Oliveira, R.T. Ribeiro, M.E.S.B. Barros, L.W. Bieber, P.H. Menezes, M. Navarro, Green Chemistry 2016, 18, 657-661.

Química Analítica

"Determination of detergent and dispensant additives in gasoline by ring-oven and near infrared hypespectral imaging", L.R. Brito, M.P.F. da Silva, J.J.R. Rohwedder, C. Pasquini, F.A. Honorato, M.F. Pimentel, Anal. Chim. Acta 2015, 863, 9-19.

Leia a íntegra da entrevista concedida pela Professora Thereza Soares

Quando foi criado o PPG em Química da UFPE?

O PPG-Química, modalidades de Mestrado e Doutorado, foi criado em 1989 como parte do esforço do então recém fundado Departamento de Química Fundamental. Ao emergir do grupo de Física Atômica e Molecular do Departamento de Física da UFPE em 1982, o DQF já apresentava uma vocação interdisciplinar com inúmeros docentes atuando na interface entre a Física e a Química, em especial nas áreas de Química Teórica e Espectroscopia. Esta característica moldou o PPG-Química onde são formados pós-graduandos vindos de áreas tão diversas como Física, Engenharias e Biologia.

Quais os cursos disponíveis? Como é o processo de seleção?

Desde a sua criação, o PPG-Química é composto por cursos de mestrado acadêmico e de doutorado em Química nas quatro áreas (Físico-Química, Química Analítica, Química Inorgânica e Química Orgânica).

O processo de seleção acontece semestralmente nos meses de Maio e Novembro. Os candidatos são avaliados em duas etapas. A primeira etapa que é eliminatória consiste de um exame de conhecimento em Química Geral e de um exame de conhecimento da língua inglesa dentro do contexto de textos científicos. A segunda etapa que é classificatória consiste da avaliação do curriculum vitae dos candidatos aprovados na primeira fase. O processo de seleção é realizado por um Comissão de Seleção constituída por um coordenador e professores do PPG-Química atuando em cada uma das quatro áreas da Química. A composição da Comissão de Seleção é alternada anualmente. Além disso, O exame de seleção para a PPG-Química é aplicado em Recife assim como em diferentes locais no país e no exterior (versão em língua inglesa), contando com a colaboração de docentes locais vinculados à instituições de ensino superior reconhecidas.

A atribuição das bolsas de mestrado e doutorado disponíveis no Programa é feita em função da nota final obtida pelos candidatos no processo seletivo.

Quantas vagas são abertas anualmente?

Não há limite de vagas anuais. Até a seleção de 2016.1, o PPG-Química conseguiu absorver todos os candidatos aprovados nos processos de seleção para mestrado assim como doutorado. Atualmente existem 76 doutorandos e 24 mestrandos matriculados no Programa. Existem também um número significativo de graduandos envolvidos em atividades de iniciação científica em grupos de pesquisa associados ao PPG-Química. Devido ao requerimento de que todos os docentes do Programa ofertem ao menos uma disciplina semestralmente para os cursos de Graduação, graduandos são despertados no primeiro ano de Universidade para a pesquisa científica e a possibilidade de participarem do programa de iniciação científica. Adicionalmente, contamos com o Programa PET-Química, coordenado por docentes ligados ao PPG-Química.

Quantos discentes foram titulados até hoje?

Um total de 387 pós-graduandos foram titulados pelo PPG-Química. Desde a primeira defesa de tese em 1996 até setembro de 2016, um total de 185 doutores foram titulados. Ao nível do mestrado, desde a primeira defesa de dissertação em 1991 até o momento, foram titulados 202 mestrandos.

Qual o destino dos egressos?

O PPG-Química não possui números exatos sobre o destino dos discentes egressos do mesmo. No entanto, a grande maioria dos egressos do PPG-Química atuam como docentes em instituições de ensino superior no país e como pesquisadores em instituições nacionais e internacionais, um menor número de egressos atuam como professores no ensino médio e na indústria ou serviços de consultoria. Uma parcela significativa dos egressos no último triênio estão em estágio de pós-doutoramento no Brasil ou no exterior. Adicionalmente, o PPG-Química teve um papel importante na criação de novos Campi no interior dos estados nordestinos, tanto da universidades como de institutos federais e no fortalecimento de Programa de Pós-Graduação em Química, particularmente da UFS, da UFRPE e da UFPB, neste a maioria do corpo docente foi titulada pelo PPG-Química da UFPE.

Quantas publicações foram geradas até hoje?

O número de total artigos produzidos pelo PPG-Química desde a sua criação em 1989 e indexados no Web of Science (ISI) é de 1293 com um total de 18543 citações e um index H de 50. É interessante mencionar que entre as publicações do PPG-Química consta o artigo de autores brasileiros na área de Química com o maior número de citações no ISI, notando-se também que à exceção de um dos autores, todos os demais são docentes no Programa.

Gilberto F. de Sá, Oscar L. Malta, Celso M. Donegá, Alfredo M. Simas, Ricardo L. Longo, Petrus A. Santa-Cruz, Eronides F. da Silva Jr. Spectroscopic Properties and Design of Highly Luminescent Lanthanide Coordination Complexes. Coordination Chemistry Reviews 196(1): 165-195 (2000). Citações: 1041.

Nos últimos 12 meses foram publicados aproximadamente 143 trabalhos indexados no Web of Science (ISI).

Quantos e quais laboratórios?

O PPG-Química conta com uma Central Analítica Multi-Usuário em adição a um total de 21 unidades laboratoriais compartilhada entre diferentes grupos de pesquisa como listado a seguir: Laboratório de Instrumentação e Automação em Análise Química, Laboratório de Arquitetura Molecular, Laboratório de Cátalise Orgânica, Laboratório de Compostos Híbridos, Interfaces e Colóides, Laboratório de Ecologia Química, Laboratório de Eletroanalítica, Laboratório de Eletroquímica Edson Mororó Moura, Laboratório de Eletrossíntese Orgânica, Laboratório de Ensino em Química, Laboratório de Espectroscopia (BSTR), Laboratório de Química Teórica e Computacional (LQTC), Laboratório de Química do Estado Sólido, Laboratório de Química Orgânica Aplicada, Laboratório de Materiais Vítreos e Dispositivos Fotônicos, Laboratório de Metodologia e Síntese, Laboratório de Organometálicos, Laboratório de Síntese de Polímeros, Laboratório de Síntese Orgânica, Laboratório de Produtos Naturais, Laboratório de Terras Raras e Laboratório de RMN.

Quais as principais linhas de pesquisa em andamento?

O PPG-Química possui linhas de pesquisas em todas as áreas tradicionais da Química. As áreas de Química Inorgânica (espectroscopia de terras raras) e Química Teórica constituíram a base da pesquisa desenvolvida no Programa durante a sua primeira década de existência. Ao longo dos anos seguintes, linhas de pesquisa associadas à Química Orgânica e Química Analítica foram estabelecidas. Atualmente, vários docentes do Programa atuam em linhas de pesquisa na interface entre a Química e outras áreas como é o caso da ecologia química, química biológica, biologia molecular e ciências de materiais. Uma descrição mais detalhada das diferentes linhas de pesquisa desenvolvidas por docentes do PPG-Química pode ser encontrada em www.ufpe.br/dqf/.

Quais os principais desafios enfrentados atualmente?

O PPG-Química enfrenta atualmente duas categorias de desafios. O primeiro desafio parece ser comum à todos os Programas de Pós-Graduação no país, e refere-se aos cortes no orçamento federal dedicado à educação, ciência e tecnologia. Por exemplo, em 2016 o PPG-Química que possui conceito 6 da CAPES manteve-se com um orçamento de aproximadamente R$ 31.000,00. É claro que torna-se impossível manter condições mínimas de funcionamento de laboratórios, despesas com participação de membros em bancas de defesa, seminários e participação de discentes em conferências. O corte das bolsas do Programa pela CAPES no início de 2016 terá um grande impacto no próxima processo de seleção do Programa já que no momento não temos bolsas disponíveis para novos ingressos.

A segunda categoria de desafios reflete dificuldades inerentes ao contexto institucional-regional do nosso Programa. Por exemplo, a ausência de infraestrutura predial adequada, a instabilidade da rede internet, constantes quedas ou picos de energia, inundações de laboratórios de pesquisa resultam em interrupções de inúmeros projetos de pesquisa e resultam em gastos adicionais com conserto de equipamentos em um momento em que os recursos são extremamente escassos. Um outro desafio é a falta de espaço físico devido ao atraso em vários anos na construção da expansão física do prédio do Dept. de Química Fundamental. Como resultado, aproximadamente 5 docentes recém-contratados e participando do Programa não possuem laboratórios, e trabalham em vários laboratórios na UFPE.

Qual a vocação da química na região?

A tradição de Pernambuco é a cana de açúcar. A indústria mais avançada que daí evoluiu foi a fábrica de borracha sintética. Como uma iniciativa isolada surgiu a bem sucedida fábrica de baterias, a Moura. Nos últimos anos surgiram muitas novas indústrias, em petroquímica, alimentos e bebidas. Havia a poucos anos uma expectativa, não concretizada de indústria farmacêutica. Enfim, não se pode identificar uma vocação química na região, sendo o esforço de formação canalizado para a atividade acadêmica e docência.

Qual o perfil dos discentes?

Os discentes do PPG-Química devem cumprir pelo menos 16 créditos atribuídos à 4 disciplinas em cada uma das áreas de concentração do Programa (Físico-Química, Química Inorgânica, Química Analítica e Química Orgânica) de um total de 48 (Doutorado) e 28 (Mestrado) créditos. Os demais créditos devem ser atribuídos às disciplinas de Colóquios, Seminários e disciplinas eletivas na área de interesse do discente. Estas últimas podem ser cursadas em qualquer outro departamento ou instituições de ensino superior nacional ou internacional reconhecidas.

Este modelo tem resultado na formação de discentes com uma fundamentação sólida em Química, e com capacidade para expandir e aplicar estes conhecimentos à solução de problemas em áreas de fronteira científica assim com na interface entre a Química e outras ciências. Adicionalmente, a forte tradição de interação entre grupos de pesquisa experimentais e teóricos no Programa tem moldado em nossos discentes a habilidade de integrar conhecimentos da Química experimental e teórica.

Os alunos e orientadores costumam participar de eventos regionais ou nacionais científicos, da SBQ por exemplo?

Sim. No entanto devido aos recursos limitados não tem sido possível ao Programa oferecer auxílio aos discentes para a participação em eventos científicos.

Apesar das dificuldades orçamentárias, a coordenação e os docentes do PPG-Química tem buscado estimular a participação de todos em eventos da SBQ. Adicionalmente, o Departamento de Química Fundamental da UFPE, com o apoio da PPG-Química, sediou o VII SBQ Nordeste (para maiores informações visitar www.ufpe.br/sbqrecife/). É importante ressaltar que os docentes do PPG-Química possuem uma relação histórica com a SBQ a qual teve início desde a sua criação liderada pelos Profs. Ricardo Ferreira e Gilberto Sá, ambos Sócios Fundadores da SBQ. De fato, o Prof. Ferreira em 1997 foi agraciado pela SBQ com o título de Presidente de Honra da sociedade.

Quais os pontos fortes do Programa?

O ponto forte do programa é a sólida base teórica e a cooperação entre teóricos e experimentais em todas as áreas. A área mais tradicional, de compostos de íons lantanídeos, por exemplo, novos compostos são sintetizados, incluindo a síntese dos ligantes atendendo direcionamento para otimização das propriedades com base nos estudos teóricos e medidas espectroscópicas. A área de desenvolvimento mais recente, a química analítica, foi iniciada por pesquisadores reconhecidos nas áreas de espectroscopia e quimiometria em colaboração com especialistas em química analítica.

Reminiscências do Professor Arnóbio Gama, um dos criadores do PPG-Q/UFPE:

 
 Professor Arnóbio Gama.
Participei da criação do programa de pós-graduação em química na UFPE junto com outros colegas, na verdade participei ainda mais ativamente da criação do Departamento de Química Fundamental (1982), e no início priorizamos elevar o padrão da graduação, para só depois começar a pós-graduação. Como na época tínhamos boa massa crítica e uma produção científica bem consolidada, além da presença de dois pesquisadores mais experientes, Ricardo de Carvalho Ferreira e Gilberto Fernandes de Sá, pedimos a abertura do programa já nos níveis de mestrado e de doutorado e fomos atendidos. Na época também contávamos com financiamentos da FINEP e do PADCT.

Nosso referencial foi sempre Ricardo Ferreira, que permaneceu todo tempo vinculado à UFPE embora, para se manter ativo em pesquisa, tivesse que passar períodos em outras instituições, no exterior (CALTECH, Columbia, Indiana, Earlham College) e no país (CBPF, USP e UFSCAR). A biografia científica de Ricardo é por demais conhecida, mas o que mais nos impressionava era

seu amplo interesse científico, suas fortes convicções político-ideológicas, particularmente a respeito do papel da educação e da pesquisa científica no desenvolvimento do país, e seu conhecimento a respeito de grandes personalidades da ciência do século XX, Pauling, Bohr, Oppenheimer entre muitos outros. Além de formar e influenciar vários membros da equipe que fundou o departamento e em seguida a pós-graduação, atraiu jovens pesquisadores, não somente talentosos, mas também diferenciados em vários aspectos, como, por exemplo, Antônio Carlos Pavão, que havia então concluído o primeiro doutorado com trabalho em química quântica pela USP.

Na UFPE Ricardo havia migrado em 1970 do antigo Departamento de Química para o Departamento de Física, onde Sérgio Rezende começava a organizar um grupo de pesquisa em física o estado sólido e ele trazendo do Ceará Gilberto Fernandes de Sá contribuiria com a formação de um grupo de pesquisa em física atômica e molecular. O programa de pós-graduação em física foi logo muito bem sucedido, recebendo conceito máximo na CAPES, e conquistou financiamentos vultosos na época, quando a FINEP concedia forte apoio institucional. Mas, permanecendo na física o grupo tinha limitada influência na formação de novos químicos, uma vez que tinha que atender o perfil que se esperava de um doutor em física, inclusive publicando sempre em bons periódicos de física. O grupo de física atômica e molecular teve uma contribuição importante no programa de física formando mestres e doutores que obtiveram grande destaque, alguns permanecendo na física até o presente, e outros que vieram a fundar um novo departamento, que recebeu esse nome Departamento de Química Fundamental. Curiosamente foi deste grupo, e particularmente dos que fundaram o novo departamento (Oscar Loureiro Malta e Gilberto F. de Sá), o primeiro trabalho publicado no Physical Review Letters, o periódico de maior impacto da área de física.

No início da década de 80 o CNPq cogitou estabelecer no país um centro de pesquisa nacional na área de química, que poderia se tornar destino de alguns membros do nosso grupo. Mas a necessidade de fortalecer a pesquisa em química no país terminou sendo direcionada para a criação de um programa nacional para apoiar o fortalecimento de grupos de pesquisa em química. Em dezembro de 1982 criamos o novo departamento, formado pelo grupo já consolidado no departamento de física, atuando em química quântica e espectroscopia de terras raras, e jovens doutores contratados pelo antigo departamento de química. Além de buscar novos pesquisadores de fora do estado e do país, o novo departamento incorporou dois pesquisadores já experientes em química orgânica que se encontravam na UFPE, Rajendra Mohan Srivastava e Lothar Bieber.

O Programa Nacional de Química não chegou a ter o esperado impacto, mas logo em seguida foi criado o PADCT, com um subprograma de química e engenharia química, reconhecidamente a ação mais impactante na pesquisa química brasileira. Apoiados por projetos para cursos de graduação, programas de pós-graduação, bibliotecas, grupos de pesquisa em consolidação e grupos de pesquisa consolidados, obtivemos vários financiamentos em diversas etapas do PADCT. No início o programa não desenvolvia pesquisas em química analítica, mas um dos membros da equipe, Benício de Barros Neto, já era um dos mais importantes especialistas em quimiometria no país. Então, em parceria com Mário Ugulino de Araújo, químico analítico vinculado à UFPB, foram orientados os primeiros mestres e doutores em química analítica. Uma característica que marcou o novo departamento e se mantem no programa de pós-graduação é a cooperação entre pesquisadores de diferentes subáreas, particularmente a cooperação entre aqueles que desenvolvem teoria, os que preparam e caracterizam novos compostos ou materiais e os que realizam medidas experimentais, de uma forma tal que torna possível o planejamento de novos compostos ou materiais de maneira a maximizar as propriedades de interesse. Atualmente grande parte dos pesquisadores atua com nanomateriais e vêm recebendo seguidamente financiamentos importantes, como o instituto do milênio de materiais complexos, a rede de nanotecnologia molecular e interfaces (Renami) e o instituto nacional de nanotecnologia para marcadores integrados (Inami). Embora inovação e empreendedorismo não possa ser considerado um esforço maior da equipe, tem havido registros de patentes (32), particularmente por Petrus Santa Cruz e Walter Azevedo. O primeiro criou, em 2000, a Ponto Quântico, considerada a primeira empresa em nanotecnologia no país.

Assim conseguimos contribuir significativamente para a formação de professores e orientadores para outros programas de pós-graduação da região. Temos ex-alunos compondo corpo docente de várias instituições no sul, no sudeste, no centro-oeste, mas, principalmente na região nordeste, destacando-se a UFPB, e a UFRPE, pela elevada quantidade de docentes da pós-graduação formados no programa da UFPE.

Em termos de impacto social o maior destaque pode ser considerado a contribuição do grupo de eletroquímica, liderado por Flamarion Diniz, para a indústria de baterias Moura. Foram muitos anos de parceria desde que a indústria, sediada em Belo Jardim, no agreste pernambucano, sofreu com a concorrência das baterias secas importadas do exterior até o momento em que se tornou líder no mercado de baterias no país, com presença no mercado externo. No período entre 1994 e 1996, Flamarion chegou a reduzir o regime de trabalho para atuar como assessor da diretoria técnica da empresa, sem deixar de lecionar na graduação e na pós-graduação e orientar mestres e doutores, inclusive em uma tese diretamente relacionada com o tema. O nosso laboratório de eletroquímica passou a ser denominado Edson Mororó Moura em reconhecimento ao fundador da empresa. Em novembro de 2012 o Grupo Moura criou o Instituto de Tecnologia Edson Mororó Moura, entidade sem fins lucrativos dedicada a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em acumuladores de energia.

Os docentes do programa também tiveram sempre um envolvimento com projetos para melhoria do ensino básico, desde os projetos financiados pelo PADCT, subprograma de educação para a ciência, que apoiaram laboratórios em várias escolas estaduais em todo o estado, na época denominadas de centros de referência, até a criação do Espaço Ciências, dirigido desde então pelo Professor Antonio Carlos Pavão. O Espaço Ciências é um museu de Ciências reconhecido internacionalmente, assim como seu diretor, mas faz muito mais que um museu de ciências, organizando feiras de ciências, exposições e cursos, com participação de diversos docentes do programa de pós-graduação em química da UFPE.

Vale ainda mencionar o Grupo PET, criado a partir do programa da CAPES em 1988, atualmente vinculado à SESu/MEC, que tem intensa atuação junto às escolas, tanto promovendo visitas de estudantes como realizando atividades nas próprias escolas.

Em 2004 uma colaboração entre Pavão e Paulo Barros levou o laureado com o Nobel de Química, Roald Hoffmann, a desfilar na Sapucaí, como uma ação de popularização da ciência e interação ciência cultura, como diz o próprio Hoffmann (http://www.roaldhoffmann.com/sites/all/files/will_we_stop_at_nothing.pdf). Muitas dessas ações foram resultado do engajamento político-educacional do núcleo docente, certamente influenciados pelo nosso líder, Ricardo Ferreira e pelas oportunidades políticas ofertadas pela participação do professor Sérgio Rezende nos governos estadual e federal.

Ainda no capítulo da popularização da ciência, Petrus Santa Cruz com o Maracatu Várzea do Capibaribe, criou o "Bloco f", que desfila pelo campus da UFPE e faz homenagens a pesquisadores que trabalham com a série de lantanídeos, em prévia carnavalesca. Em 2014 homenageou os 70 anos de Gilberto Sá, em 2015 os 60 anos de Oscar Malta, e em 2016 os 60 anos de Walter Azevedo e os 70 anos de Cid Araújo (http://blocofdqf.blogspot.com.br).

Acho relevante citar a contribuição que docentes do programa têm dado na ocupação de cargos e funções de natureza acadêmica, a exemplo de comitê assessor do CNPQ (Ricardo Ferreira, Gilberto Sá, Arnóbio Gama, Oscar Malta, Alfredo Simas e Severino Alves Júnior), coordenação de área e conselho técnico científico da CAPES (Arnóbio Gama), diretoria científica da FACEPE (Arnóbio Gama), coordenação do CETENE (André Galembek), reitoria (Mozart Ramos) e pró-reitorias de ensino (Mozart Ramos e Arnóbio Gama) e de extensão da UFPE (Benício de Barros Neto, secretaria estadual de educação, conselho nacional de educação e presidência do movimento todos pela educação (Mozart Ramos), além da direção do espeço ciências, já citada. Particularmente, Mozart Neves Ramos enquanto ainda orientador do programa foi agraciado com três significativos prêmios internacionais pela atuação como educador (Personalidade das Artes, Ciências e Letras da França, Academia de Artes, Ciências e Letras da França - 2006, Educador Internacional do Ano, International Biographical Center - Cambridge – Inglaterra – 2005, Cavaleiro da Ordem do Mérito da República Italiana, Presidência da República da Itália - 2002).

Em Pernambuco foram criados dois instrumentos de reconhecimento aos cientistas que se notabilizam pela contribuição em suas áreas: o memorial dos notáveis cientistas pernambucanos, criado pela Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, que a cada ano presta homenagem a um cientista já falecido em cada uma das três grandes áreas do conhecimento, e o Prêmio Ricardo Ferreira, concedido pela Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia de Pernambuco a cada dois anos, em uma das três grandes áreas, a um pesquisador que tenha se destacado por sua contribuição à ciência. O primeiro Prêmio Ricardo Ferreira foi concedido em 2015, ao nosso colega Oscar Malta.

O momento para a pesquisa científica no Brasil é péssimo. No final de 2010 vivíamos o auge do entusiasmo, havia regularidade de financiamento a projetos, bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado atendendo a demanda qualificada e expansão das universidades e institutos federais oferecendo oportunidade para fixação dos recém-formados. Crescia o incentivo à inovação que se considerava nossa maior carência. Em Pernambuco, particularmente, cresceu o financiamento a projetos de pesquisa e oferta de bolsas de formação e fixação, inclusive com valores diferenciados, a partir de 2007 e foram criados mecanismos institucionais e legais para sua estabilidade. Mas atualmente não estamos tendo a nível federal oferta adequada de financiamentos para a pesquisa nem de bolsas de formação e de fixação de pesquisadores e no estado houve uma queda de investimentos em consequência da queda na arrecadação.




Texto: Mario Henrique Viana (assessor de imprensa da SBQ)








Contador de visitas
Visitas

SBQ: Av. Prof. Lineu Prestes, 748 - Bloco 3 superior, sala 371 - CEP 05508-000 - Cidade Universitária - São Paulo, Brasil | Fone: +55 (11) 3032-2299