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15/03/2018



41ª RA: Francisco Krug fará a conferência de abertura


Professor do CENA tem mais de 40 anos de contribuições expressivas à química analítica

"Um sanduíche, um café, e depois podemos ir ao mundo dos violinos, onde tudo é doce, delicado e harmônico", escreveu o britânico Arthur Conan Doyle, em As aventuras de Sherlock Holmes. Na vida do professor Francisco José Krug (CENA), referência nacional e internacional em química analítica, tudo parece ser doce, delicado e harmônico, a começar pela sua conversa. Ativo na sala de aula e em grupos de pesquisa aos 70 anos, o professor Krug é tão acostumado com a espectrometria atômica, quanto com a frequência das notas musicais. Ele é casado com Maria Lúcia, violinista, pai de três filhos (Maria Graziela, cientista, e Maria Fernanda e Chiquinho, violinistas) e, por seus próprios méritos foi, durante a graduação e mestrado, contrabaixista da orquestra sinfônica de Piracicaba.

Criado no arborizado bairro do Brooklin, em São Paulo, Krug aprendeu os minuetos de Bach antes de fazer sua primeira síntese de ácido nítrico, em uma feira de ciências no ginásio. "Meus amigos gostavam muito de música e de fazer bombinhas. Um deles tinha um livro de reações químicas. Naquela época tinha uma loja na Brigadeiro Luiz Antônio que vendia os reagentes, e não tínhamos muita supervisão dos professores", lembra o professor. "Foi uma experiência e tanto."

Professor Francisco Krug (CENA): "Sinto-me muitíssimo honrado e feliz por esta homenagem. Será uma oportunidade para relembrar e refletir sobre a importância de nossas contribuições para a academia visando à solução de problemas analíticos."

Ao chegar em Piracicaba para cursar Engenharia Agronômica na Esalq, em 1968, Krug se interessou por um curso novo, denominado CIENA-Curso de Introdução à Energia Nuclear na Agricultura. Resolveu fazer os dois simultaneamente e depois emendou um mestrado em Energia Nuclear na Agricultura Nuclear. Em 1976 deixou a orquestra sinfônica e o contrabaixo, casou-se com Maria Lúcia Ayres Guidetti Zagatto, e mudou-se para a Dinamarca onde fez especialização em FIA com Jaromir Ruzicka. Desde seu retorno leciona e orienta no CENA, tendo obtido uma série de conquistas para a ciência nas últimas décadas.

Será do professor Francisco Krug a conferência de abertura da 41ª Reunião Anual da SBQ, a ser realizada em Foz do Iguaçu, de 21 a 24 de maio. Ele tem cerca de 130 artigos, com mais de 4.600 citações índice h43.

"Em seus mais de 40 anos de profissão o professor Krug contribuiu de forma inestimável para o desenvolvimento científico brasileiro, com trabalhos pioneiros em análises por injeção em fluxo, espectrometria atômica e preparo de amostras. Suas pesquisas nessas áreas foram responsáveis pela formação de mestres e doutores que difundiram o conhecimento e nuclearam grupos de pesquisa em diversas universidades brasileiras", avalia a professora Clésia Nascentes (UFMG), diretora da divisão de Química Analítica da SBQ, divisão à qual pertence o professor Krug. "Ele possui liderança nata, carisma ímpar e é fonte de inspiração para muitos dos químicos analíticos brasileiros."

Segundo a professora Rossimiram Freitas (UFMG), secretária-geral da SBQ, o nome do conferencista de abertura é uma escolha muito importante e difícil da Diretoria e Conselho da SBQ, pois é o reconhecimento da Sociedade a uma pessoa que se destacou com contribuições relevantes para o desenvolvimento da Química do país e no mundo e para o fortalecimento da SBQ. Além disso, o conferencista de abertura recebe a medalha Simão Mathias, a maior honraria concedida por nossa Sociedade. "Entre tantos nomes merecedores desse reconhecimento, foi com grande entusiasmo que chegamos ao nome do Chico, uma pessoa que reúne qualidades absolutamente admiráveis como cientista e ser humano", declara.

Em sua conferência "Uma visão crítica sobre a espectrometria de emissão óptica com plasma induzido por laser (LIBS)", Krug falará sobre essa técnica que vem sendo utilizada com muito sucesso para a análise direta de materiais de interesse industrial, ambiental, farmacêutico, agronômico, geológico, entre outros, e que tem despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica. "Aproveitarei, também, para contar alguns fatos que contribuíram para o sucesso dos trabalhos pioneiros sobre FIA, antes de abordar o tema principal que terá como foco a análise direta de sólidos por (LIBS) para a determinação de elementos", adianta o professor.

A professora Clésia destaca a participação de Krug no comitê organizador das primeiras edições do Rio Symposium on Atomic Spectrometry, idealizado por Adilson Curtius e Bernhard Welz, e na idealização e organização do Workshop sobre Preparo de Amostras, ambos hoje consolidados e atualmente em suas 14ª e 12ª edição, respectivamente.

"Ele foi ativo desde a primeira edição do Encontro Nacional de Química Analítica (ENQA), o mais importante evento brasileiro da área. No 18º ENQA (2016), ele e outros autores lançaram pela editora da Sociedade Brasileira de Química o livro 'Métodos de Preparo de Amostras para Análise Elementar' que foi recorde de vendas", lembra.

O professor Francisco Krug concedeu a seguinte entrevista ao Boletim SBQ:

O senhor tem quase 50 anos de vivência na academia. O que mudou no perfil, nas ambições e no desempenho do estudante nesse tempo?
Até hoje costumo comentar como foi gratificante ter orientado e feito tantos amigos. Grande parte de minha produção científica em periódicos especializados deve-se à qualidade dos estudantes que me procuraram, muitos dos quais por indicação de ex-alunos que hoje também são docentes. Sempre tive a felicidade de conviver com bons estudantes, particularmente nos programas de Pós-Graduação em Química do IQSC-USP, do DQ-UFSCar, e do PPG em Ciências do CENA, cuja maior ambição era e ainda é o ingresso na academia. Se eu focar minha resposta nos mestrandos e doutorandos com os quais convivi no passado e mais recentemente, o desempenho da grande maioria foi muito bom, e muitos se encontram em universidades de ponta ou em institutos de pesquisa do país.

Por outro lado, se pensarmos na formação dos estudantes 4, 5 décadas atrás, exigia-se muito mais nos programas de pós-graduação. Para a titulação no mestrado eram necessários, no mínimo, 3 anos e para o doutorado, de 5 a 6 anos, sendo que era necessário cursar de 8 a 10 disciplinas no mestrado e 16 a 20 no doutorado direto para cumprir os créditos. Eram raras as publicações oriundas das dissertações e/ou teses em periódicos especializados de circulação internacional. Nos últimos 15-20 anos, houve uma mudança de paradigma, ditada pela CAPES, recomendando-se concluir o mestrado em 2 anos e o doutorado em 4 anos. Isto tem sido possível exigindo-se um número bem menor de créditos em disciplinas, de tal forma que o estudante tenha como foco a dissertação e/ou tese e, se possível, em uma ou mais publicações.

Neste modelo com poucas disciplinas, o que observamos é que o sucesso depende não somente da vocação para a ciência, mas principalmente dos conhecimentos adquiridos em disciplinas fundamentais oferecidas na graduação. Por outro lado, apesar de existirem processos bastante seletivos, observa-se, com frequência, mestrandos e doutorandos com deficiências em gramática e, consequentemente, dificuldades para a redação de textos em português que dispensem a revisão dos orientadores.

Poderia comentar brevemente a evolução recente da Química Analítica, considerando as suas contribuições em espectrometria, análise por injeção de fluxo, e outros?
Há cerca de 40 anos, em nossas apresentações sobre FIA (acrônimo até hoje utilizado para Análises por Injeção em Fluxo), eu pedia para que as pessoas imaginassem a possibilidade de fazer análises espectrofotométricas utilizando-se reatores de apenas 0,5 mL (em geral utilizavam-se balões volumétricos de 25 a 100 mL). Caso isso fosse possível, o consumo de amostras e reagentes seria 50 a 200 vezes menor que nos métodos denominados "convencionais". Aí nós perguntávamos: imaginem agora fazermos 400 determinações por hora com maior precisão, e a seguir mostrávamos um reator tubular helicoidal de 0,5 mL de polietileno (em geral, 1 técnico costumava fazer, no máximo, 100 determinações por dia, fora o tempo gasto na lavagem da vidraria). Isto gerava um impacto enorme e o interesse cada vez maior em conhecer o método. Participei de várias publicações com Henrique Bergamin, Elias Ayres Guidetti Zagatto, Boaventura Freire dos Reis, Maria Fernanda Giné, algumas destacadas no final desta entrevista. Hoje o número de métodos de análise em fluxo descritos na literatura especializada em química analítica é muito expressivo e, em relação à evolução recente, convido os leitores para ler o artigo de revisão de Fábio Rodrigo Piovezani Rocha, "Flow Analysis: Looking Back and Forward", disponível on line em: http://jbcs.sbq.org.br/Forthcoming_Papers_Special_Issue_IUPAC.

O momento para a pesquisa científica no Brasil é de redução de investimento. Como o senhor vê essa situação, e o que diria aos jovens pesquisadores?
Estou no CENA desde dezembro de 1968 e o Laboratório de Química Analítica foi criado em 1972, denominado originalmente Seção de Radioquímica. Em 1974, quando eu ainda era mestrando, recebemos o primeiro aporte de recursos para mobiliar e equipar um espaço de 24 m2 no prédio principal do CENA. Hoje, ocupamos 1300 m2 em um prédio próprio, equipado com vários equipamentos de excelente desempenho, mas passamos por vários momentos de total falta de recursos.

O pior período foi de 1986 a 1990, quando as principais fontes de financiamento limitavam os recursos, quase que exclusivamente para custeio (materiais de consumo e manutenção de equipamentos), e nenhuma possibilidade de investimentos. Acho importante mencionar que, no passado, a maioria dos laboratórios sempre passou por momentos difíceis, muito mais do que hoje.

No passado não tínhamos um parque instrumental como temos atualmente em muitos laboratórios do Brasil, em que jovens pesquisadores têm acesso, seja por meio de um equipamento multiusuário formal (FAPESP, por exemplo), seja naqueles onde o conceito de laboratório multiusuário faz parte da política institucional. Neste último caso, o equipamento não é visto como propriedade do pesquisador ou do docente. Estes são apenas os responsáveis pelo bom uso deste patrimônio, e oferecem treinamento e acompanhamento técnico aos estudantes para a realização de experimentos e, inclusive, análises químicas.

Hoje, há vários grupos de excelência no Brasil, que disponibilizam equipamentos de última geração para estudantes e jovens pesquisadores. Isto não era possível em outros tempos, devido à carência de laboratórios com infraestrutura de ponta. Nesta situação, muitos dependiam do apoio de órgãos de fomento para a utilização de equipamentos no exterior.

O que significa fazer a conferência de abertura da RASBQ neste momento de sua carreira? Em linhas gerais, o que será abordado?

Primeiramente, não posso deixar de agradecer a indicação de meu nome. Sinto-me muitíssimo honrado e feliz por esta homenagem. Será uma oportunidade para relembrar e refletir sobre a importância de nossas contribuições para a academia visando à solução de problemas analíticos. O tema de minha apresentação será "Uma visão crítica sobre a espectrometria de emissão óptica com plasma induzido por laser (LIBS)". Esta é uma técnica de espectrometria atômica que vem sendo utilizada com muito sucesso para a análise direta de materiais de interesse industrial, ambiental, farmacêutico, agronômico, geológico, entre outros, e que tem despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica. Aproveitarei, também, para contar alguns fatos que contribuíram para o sucesso dos trabalhos pioneiros sobre FIA, antes de abordar o tema principal que terá como foco a análise direta de sólidos por (LIBS) para a determinação de elementos.


Seis artigos relevantes:

“Rapid determination of sulphate in natural waters and plant digests by continuous flow injection turbidimetry”, F.J. Krug, H. Bergamin Filho, E.A.G. Zagatto, S.S. Jorgensen, Analyst 1977, 102, 503-508.

“Merging zones in flow injection analysis. Part II. Determination of calcium, magnesium and potassium in plant material by continuous flow injection atomic absorption and flame emission spectrometry”, E.A.G. Zagatto, F.J. Krug, H. Bergamin Filho, S.S. Jorgensen, B.F. Reis, Anal. Chim. Acta 1979, 104, 279-284.

“Commutation in flow injection analysis”, F.J. Krug, H. Bergamin Filho, E.A.G. Zagatto, Anal. Chim. Acta 1986, 179, 103-118.

“Evaluation of laser induced breakdown spectroscopy for the determination of macronutrients in plant materials”, L.C. Trevizan, D. Santos Jr, R.E. Samad, N.D. Vieira Jr, C.S. Nomura, L.C. Nunes, I.A. Rufini, F.J. Krug, Spectrochim Acta Part B 2008, 63, 1151-1158.

“Laser-induced breakdown spectroscopy for analysis of plant materials: a review”, D. Santos Jr, L.C. Nunes, G.G.A. De Carvalho, M.S. Gomes, F.O. Leme, P.F. Souza, L.G.C. Santos, F.J. Krug, Spectrochim Acta Part B 2012, 71, 3-13.

“In situ determination of K, Ca, S and Si in fresh sugar cane leaves by handheld energy dispersive X-ray fluorescence spectrometry”, M.B.B. Guerra, A. Adame, E. Almeida, M.A.S. Brasil, C.E.G. R. Schaefer, F.J. Krug, http://jbcs.sbq.org.br/Forthcoming_Papers_Special_Issue_IUPAC.


Texto: Mario Henrique Viana (Assessor de Imprensa da SBQ)








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