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14/06/2018



Peporine: "Ciência ainda é um conceito distante do povo brasileiro"


Para o novo presidente da SBQ, universidades devem dialogar mais com público em geral, em prol da valorização da ciência

Há quase duas décadas o professor Norberto Peporine Lopes (FCFRP-USP) dedica seus esforços pelo fortalecimento da ciência brasileira na SBQ. Ele já ocupou diversos cargos, em diversas gestões, desde o final dos anos 90, e agora assume a presidência da Sociedade para os próximos dois anos. Farmacêutico, com mestrado e doutorado em Química, Peporine coordena o Núcleo de Pesquisa em Produtos Naturais e Sintéticos e a Central de Espectrometria de Massas de Micromoléculas Orgânicas, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, em Ribeirão Preto. Suas pesquisas nos últimos anos alcançaram impacto dentro e fora do meio científico principalmente em duas ocasiões: quando isolou, caracterizou a neurotoxina da carambola, problema grave de saúde pública, e quando elucidou a primeira fluorescência de um anfíbio conhecida pelo homem (veja artigos abaixo).

Professor Norberto Peporine Lopes (FCFRP-USP), presidente da SBQ: "Não percebo nenhum compromisso maior com a ciência por parte de nenhum candidato. Estou desiludido – acredito que o sistema político como um todo precisa ser repensado. Mesmo assim não vou deixar de ser otimista e acreditar que podemos alcançar um país melhor."

"Betão", como ele se apresenta quando estende a mão às pessoas, tem o costume de chegar ao laboratório por volta das 7:45h para um café com funcionários e alunos, onde conversam de tudo menos química. Filho de cientista, casado com cientista e empreendedora, pai de duas crianças que "respiram" ciência, Peporine entende que há um obstáculo cultural para a ciência no Brasil. "O brasileiro ainda não sabe o que é ciência; é algo muito distante das pessoas comuns", observa, com a perspectiva de quem viveu (e pesquisou) em países como Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. "As universidades e sociedades científicas têm um papel importante para mudar isso. Precisamos aprender a escrever também em outras linguagens para permear mais os conceitos científicos pela sociedade. Até porque, como é que vamos provar para um cidadão comum a importância de se investir nas universidades quando ele não sabe o que acontece aqui dentro? Para a maioria dos brasileiros a universidade é uma escola onde o aluno vai estudar e pronto."

Peporine tem 350 trabalhos publicados, com mais de 4,8 mil citações. Ele concedeu a seguinte entrevista ao Boletim SBQ:

Como o sr. avalia o momento para a pesquisa científica no Brasil?
Momento da pesquisa brasileira é muito complicado. Tivemos uma década anterior de muito incentivo e hoje estamos passando por um processo de sucateamento, principalmente em função dos cortes que estamos tendo. A perspectiva não é boa, todos estão sentindo, e o impacto do corte que cresce como uma bola de neve. Você corta o dinheiro para pesquisa hoje, amanhã um equipamento quebra, não tem dinheiro para consertar, fica parado, vai estragando, não tem dinheiro para repor... Ao mesmo esse corte não possibilita o pesquisador captar pessoas na Pós... Ou seja, lentamente o sistema começa a ruir.

Podemos até acreditar que para tudo existe saída – existem pesquisadores buscando dinheiro no exterior, dinheiro em empresas –, mas a realidade é que estamos com perspectivas muito ruins para a ciência brasileira devido ao sucateamento do MCTI.

É possível fazer ciência sem dinheiro público?
Não. Alguns grupos, com algumas estratégias, conseguem dinheiro privado, mas a ciência é muito maior que isso. Não é possível manter a estrutura só com dinheiro privado. E se fosse seria ruim, porque se começamos a ter o driving force vindo só da iniciativa privada irá ocorrer seleção de áreas e temas, o que não é bom para a ciência em geral. Além disso existem áreas que não temos como você discutir com o mercado porque Brasil não tem competência em todas as áreas em seu parque industrial. De repente o que temos mais carência hoje, e que precisaria de mais pesquisa financiada pelo governo para um dia criarmos independência, passa a não ser mais desenvolvido. Isso não poderá ocorrer porque não teremos demanda do setor produtivo e com isso aumenta o abismo.

Todo país forte tem um incentivo à pesquisa. O Brasil pode melhorar na questão de transferência de tecnologia entre universidades e indústria, mas isso não pode ser o único fator determinante.

Países como Japão, Alemanha, Estados Unidos tem ajuda governamental e muito mais ajuda do setor produtivo. Mas nesses países as demandas são outras. Aqui, historicamente tivemos quase que uma proibição da inovação dentro da Universidade. Por muitos anos seguimos a escola clássica francesa, a ciência pela ciência. Diferentemente da Inglaterra, Alemanha, EUA...

Temos que ter em mente que gerar descoberta é diferente de gerar inovação. No Brasil por muitos anos quem buscava interações com empresas era mal-visto pelos seus pares – e antes era até mesmo proibido. Agora, nos últimos cinco anos, estamos mudando para valer. Alguns grupos vão buscar isso cada vez mais. Mas a solução do problema é continuar tendo investimento público. Não terá ciência aplicada hoje se não houve ciência básica ontem.

As eleições trazem alguma esperança?
Ainda não percebo nenhum compromisso maior com a ciência por parte de nenhum candidato, mas posso estar enganado. A ABC está promovendo um ciclo de discussões com os candidatos a presidência para tentar aprofundar mais essa questão. Estou desiludido com o sistema político vigente e acredito que como um todo precisa ser repensado. Por outro lado, não deixo nunca de ser um otimista e acredito que esse período complicado de nossa história irá passar e podemos esperar algo melhor no futuro.

Quais os planos para sua gestão?
Estamos passando por um momento interessante, ficamos de 10 a 15 anos em um processo de internacionalização muito forte. Entramos da FLAQ, trouxemos o congresso latino-americano para o Brasil e culminou com a realização da IUPAC no país. Hoje a SBQ precisa olhar para dentro, cuidar da parte interna. Não vamos parar nada que está sendo feito, mas precisamos cuidar da casa: acertos fiscais, reformular estatuto, repensar estratégia com jovens professores... Também precisamos discutir as questões de inovação dentro da SBQ. Será um mandato caseiro, com muita lição de casa para fazer.

Sua carreira é marcada por conquistas científicas importantes. O que significa presidir a SBQ?
Minha história profissional se mistura com a história da SBQ. No ano que fui contratado como docente, fui para um evento em São Paulo, a professora Vanderlan Bolzani estava organizando sua candidatura para a Divisão de Produtos Naturais e, por uma mudança recente no estatuto, havia a necessidade que a chapa fosse composta por três membros. Era último dia da inscrição e aconteceu de eu estar ali. Como eu era muito ativo na pós, fui apresentado a ela por uma colega, dei a mão para cumprimenta-la e na outra ela me deu a caneta para assinar o formulário de inscrição, porque precisava de alguém para completar a chapa. Isso foi em 98, mais ou menos. De lá pra cá quase sempre estive em cargos diretivos na Sociedade. Tenho uma grande paixão pela SBQ.

Como surgiu seu encanto pela Química?
Foi dentro de casa. Na realidade eu cresci na ciência. Nasci em Ribeirão Preto (SP), meu pai era professor de química orgânica – começou com síntese – mas não havia infra-estrutura suficiente para isso na extinta FOF. Ele começou a trabalhar mais com química de produtos naturais e teve ligação forte com o NPPN do Rio de Janeiro junto com outros jovens professores alunos dele. A partir desse momento o grupo de PN nasceu e se desenvolveu em Ribeirão Preto. Nesse contexto eu comecei a fazer coleta com esse grupo com 11 ou 12 anos de idade e sempre em parceria com botânicos da Unicamp. Eu ia carregar saco de planta, literalmente como mão de obra, pois sempre gostei muito de biologia. Ajudava a secar, a moer, depois passei a ajudar a fazer extratos. Quando fui para a graduação achava que ia ser biólogo. Na véspera do vestibular acabei mudando, e fui para a bioquímica/genética. No final da minha graduação ganhei uma bolsa do governo alemão e fui concluir a graduação nesse país. Estava trabalhando com cultura de células vegetais, o que era um grande boom na época, quando percebi que não podia mesmo fugir da química, e no fundo era o que eu gostava. Comecei a trabalhar com metabolismo de produtos naturais, voltei ao Brasil, comecei mestrado na Esalq, transferi para a Farmácia de São Paulo, fiz meu doutorado em Química, pelo IQ-USP sob orientação dos Professores Massayoshi Yoshida e Massuo Jorge Kato, fiz doutorado sanduíche e culminou com pós-doutorado, em Cambridge, em reação em fase gasosa. Por incrível que pareça ao final todas foram áreas complementares.

Gosto de lembrar que estive na Alemanha antes da queda do Muro de Berlim. Foi interessante, mas não foi fácil. Tive a chance de ver Pink Floyd, The Wall. Após a queda do Muro o que também lembro com muita paixão. Em termos de formação humana foi fantástico esse período.

Como é seu grupo de pesquisa?
É ainda dos antigos, tem mais de 45 anos, um modelo que não existe mais. O Núcleo de Pesquisa em Produtos Naturais e Sintéticos, conta com seis docentes, mais um Professor aposentado, sendo que os recursos captados funcionam como um fundo comum. O pessoal capta projetos, mas tudo é de uso comum, logo nunca um colega fica descoberto. Temos pessoas fazendo síntese, trabalhando com organismos marinhos, com fitoquímica clássica, em estratégias ômicas e em ecologia química.

Hoje trabalho com muita coisa diferente. Tento sempre aplicar estratégias analíticas para analisar problemas em maior escala de dados. Temos um núcleo que trabalha com toxicologia de xenobióticos em modelos que mimetizam humanos, tanto para medicamentos como para alimentos. E temos outra vertente que trabalha basicamente com ecologia química, mas o experimental das duas vertentes é mais ou menos ou mesmo. Nós usamos abordagens em espectrometria de massas, criando modelos e estratégias.

A caramboxina, toxina isolada dos frutos de carambola, e a rã fluorescente, que ficou popularmente conhecida como perereca luminosa, ficaram famosas. A toxina devido ao impacto em saúde pública e no caso da rã pelo impacto na biológica, mas temos publicados outros artigos interessantes e alguns temos conseguido alcançar jornais de alto impacto. Entre estes acho que nossa colaboração na rede social GNPS (Global Natural Products Social Molecular Network) também tem um gostinho especial de publicarmos algo mais voltado a auxiliar colegas o que é muito gratificante.

Cinco artigos relevantes:

“Elucidating the Neurotoxicity of the Star Fruit”, N. Garcia-Cairasco, M. Moyses-Neto, F. Del Vecchio, J.A.C. Oliveira, F.L. dos Santos, O.W. Castro, G.M. Arisi, M. Dantas, R.O.G. Carolino, J. Coutinho-Netto, A.L.A. Dagostin, M.C.A. Rodrigues, R.M. Leão, S.A.P. Quintiliano, L.F. Silva, L. Gobbo-Neto, N.P. Lopes, Angewandte Chemie (International ed. Print) 2013, 52, 13067-13070.

“Sharing and community curation of mass spectrometry data with Global Natural Products Social Molecular Networking”, M. Wang, et al., Nature Biotecnology (Print) 2016, 34, 828-837.

“Naturally occurring fluorescence in frogs”, C. Taboada, A.E. Brunetti, F.N. Pedron, F. Carnevale-Neto, D.A. Estrin, S.E. Bari, L.B. Chemes, N.P. Lopes, M.G. Lagorio, J. Faivovich,

PNAS, Procedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 2017, 114.

“Evolution of queen cuticular hydrocarbons and worker reproduction in stingless bees”, T.M. Nunes, B.P. Oldroyd, L.G. Elias, S. Mateus, I.C.C. Turatti, N.P. Lopes, Nature Ecology & Evolution 2017, 1, 0185.

“Mass Spectrometry of Flavonoid Vicenin-2, Based Sunlight Barriers in Lychnophora species”, D.M. Silva, I.C.C. Turatti, D.R. Gouveia, M. Ernest, S.P. Teixeira, N.P. Lopes, Scientific Reports 2014, 4, 1-8.


Veja a relação completa da nova diretoria e conselho da SBQ aqui.


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)








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