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27/06/2019



Sobre café, cigarros e seus aromas


Do setor produtivo para a academia e a divulgação científica, a trajetória da professora Claudia Rezende (UFRJ) é uma sucessão de conquistas para a Química

Quando a pediatra Joana Rezende quer fazer uma gentileza à sua mãe, sabe que é melhor convidá-la para um passeio no sítio da família, do que aparecer perfumada para uma refeição rica em condimentos. Coisas de quem tem um olfato privilegiado (e ultrassensível), uma curiosidade científica inesgotável e energia de sobra depois de mais de 35 anos entre laboratórios e salas de aula, na indústria e na academia. Em seu percurso a professora Claudia Moraes de Rezende (UFRJ) fez-se talvez a maior especialista brasileira em Química do Aroma.

Joana se lembra bem da mãe amassando folhas de manjericão, alecrim e alfazema na horta do sítio, e mostrando para ela e sua irmã, Paula, os vários cheiros da natureza. "Até hoje, quando eu como uma laranja antes de dormir, na manhã seguinte ela detecta as notas olfativas. Cheguei a ficar preocupada se ela iria fazer alguma observação científica na primeira vez que trouxe meu namorado para casa, mas correu tudo bem."

Bem-humorada, Professora Claudia costumava ir a campo com botânicos do Museu Nacional, na Serra de São José, em Tiradentes (MG). Enquanto eles iam coletando espécies, ela ia quebrando caules e raspando folhas que levava ao nariz para proferir o diagnóstico: "Aqui tem moléculas disso e daquilo", química analítica de raiz. Mas quando cientistas se juntam o nível das piadas costuma subir. E um dia ela recebeu no laboratório uma flor que não conhecia, com um cartão do botânico amigo. "Quero ver você cheirar essa!"

A flor, Claudia soube depois, era uma espécie do gênero Ziziphus. O que ela percebeu imediatamente, é que "aquilo tinha cheiro de cocô". E a curiosidade científica entrou em campo. "Achei o maior barato. Juntei alunos, preparei a solução, fiz a cromatografia gasosa, a espectrometria de massas, observei que na região onde o cheiro era mais intenso, não havia o sinal. Era um dilema. Fomos entender que essa flor tem essa comunicação química com insetos polinizadores que gostam de matéria em putrefação, e acabamos publicando um artigo sobre o aroma de Ziziphus", conta a professora.

Um dos muitos cheiros que ela não suporta é o do cigarro. Mas quis a vida, que fosse na Souza Cruz, maior empresa brasileira do setor tabagista, que ela ascendesse na carreira de pesquisadora. "Eu tinha bolsa no NPPN com o professor Paulo Roberto Costa, onde estudávamos uma rota brasileira de síntese de um fármaco. Quando a bolsa terminou outro professor meu, o Octávio Augusto Ceva Antunes, me convidou para trabalhar com ele", recorda.

Foram oito anos imersa em pesquisa em química de produtos naturais, síntese orgânica e química analítica. A empresa tinha equipamentos para cromatografia líquida, ressonância nuclear magnética e espectrometria de massas que a universidade não tinha, e o corpo de pesquisadores era oriundo dos programas de pós-graduação em química. "O tabaco é uma matriz muito rica e minha passagem na Souza Cruz foi uma escola para mim. Trabalhei com profissionais maravilhosos e tive a oportunidade de cursar meu doutorado inteiro enquanto trabalhei lá. Se hoje milito em diversas áreas da química, isso se deve à minha passagem pela Souza Cruz", afirma a professora Claudia.

Seu espírito científico brotou no Colégio Santa Úrsula, no Rio, onde fez o ensino fundamental e científico. E foi cultivado pelo pai, o dentista Roberto Moraes, um aficionado das novidades tecnológicas, sobretudo dos novos materiais para o tratamento dentário, que surgiram nos anos 60 e 70. "Cada vez que papai ia tratar dos meus dentes, falava bastante sobre as ligas metálicas, abria gavetas e me mostrava as novidades."

Em sentido horário: Professora Claudia Moraes de Rezende; seu pai, o dentista Roberto; um livro que marcou a adolescência; as filhas Paula (e) e Joana; a equipe do Laroma; na noite do casamento com Raul, entre o pai Roberto e a mãe Helena.

Esporte é outro tema marcante na vida da Professora Claudia. Por muito tempo foi frequentadora assídua das águas da Baía de Guanabara, onde praticava o windsurfe. "Desde criança eu gostava de subir nas pedras de Copacabana e pular no mar para pegar jacarés. Mas nessa época, antes de iniciar o doutorado, eu sentia que precisava de algo que me desafiasse sozinha, porque eu tinha que vencer muitas barreiras sendo mulher. Então o windsurfe me ajudou muito."

Dentro do esporte, uma de suas predileções é o futebol de salão. Em 1989 foi emocionantemente homenageada com o gol do título mundial brasileiro, conquistado nos Países Baixos, e marcado pelo seu marido, o beque Raul Rezende. Era o segundo título mundial com a Seleção – o primeiro foi conquistado em 1985, ainda com as regras antigas do esporte – e mais dois mundiais viriam pelo time do Bradesco.

"Mamãe e papai sempre foram muito apaixonados pelo que fazem, e isso se refletiu em nossa criação", conta Joana. "Tanto minha irmã Paula quanto eu sempre fomos incentivadas a encontrar caminhos que nos encantassem. Isso sempre foi mais importante que as notas na escola."

Foi em 1995, quando Joana tinha dois anos, que professora Claudia largou o cigarro. A legislação colocou alguns limites à indústria, o que acabou direcionando a pesquisa para uma área que não me interessava", conta a professora. "Então o professor Angelo da Cunha Pinto, meu orientador, me abriu os olhos para uma série de matrizes que eu poderia estudar na universidade, fiz a prova, passei e fui efetivada na UFRJ em 1996."

Sua experiência no setor privado produtivo contribuiu para que dois anos depois de contratada assumisse a coordenação da pós-graduação em Química Orgânica. Foi nessa época também que ela criou o Laboratório de Análise de Aromas (Laroma), onde passou a explorar os potenciais benefícios não mais do tabaco, mas de frutas e óleos tropicais brasileiros. "Na Souza Cruz fui muito treinada em química de aroma, sempre tive olfato muito apurado e fiz parte de um painel olfativo. Desenvolvi e aprendi muitas técnicas de olfatometria, coisa que praticamente ninguém fazia na universidade." Professora Claudia titulou 77 alunos nas diversas categorias, e ainda hoje o Grupo de Cromatografia Olfatométrica é muito procurado por químicos de olfato apurado.

"A professora Cláudia tem uma trajetória de lutas e grandes conquistas, uma orientadora que te faz se reinventar e buscar mudanças que contribuam para a nossa sociedade. Ela é apaixonada pelo que faz; é determinada, tem claros os seus objetivos e vibra com todas as nossas vitórias", declara o químico Fabio Junior Moreira Novaes, que foi orientado pela professora Claudia em seu doutorado em Ciência dos Alimentos e segue no grupo como pós-doc.

Enquanto dava seus primeiros passos na carreira acadêmica, professora Claudia aproximou-se da SBQ, e desde então tem atuado fortemente em prol da química, também no âmbito da divulgação científica. Ela exerceu diversos cargos na diretoria da Sociedade – hoje é integrante do Conselho Consultivo – e foi a grande responsável pelas celebrações do Ano Internacional da Química (2011) no Brasil.

"Seu trabalho naquela ocasião foi fantástico", observa o colega Humberto Bizzo, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos. "A Claudia é uma pessoa muito dedicada, convicta, compromissada com a formação de recursos humanos. É um prazer trabalhar em projetos com ela." Bizzo é um dos amigos feitos na época da Souza Cruz, onde trabalharam juntos por pouco mais de dois anos. Depois voltaram a cooperar no âmbito da Embrapa, e nos últimos 15 anos têm mantido colaborações regulares.

Hoje a professora Claudia milita muito na química do café. "Fui atraída pelo aroma. Uso técnicas de espectrometria de massas aplicadas ao grão para estudar sua qualidade. Quando você passa um café no filtro, você segura várias moléculas, que você não segura quando faz o café expresso. É preciso entender melhor o papel do café na saúde humana. E também estudo a matriz de café como fornecedora de novas moléculas para outros fins, por exemplo, com potencial farmacológico", explica.

Claudia adora cozinhar e ler um bom livro, mas como além da pesquisa e das salas de aula, ela participa ativamente da SBQ, da Sociedade Brasileira de Espectrometria de Massas, coordena o portal QUID+ de química para crianças, produz livros e neste ano está coordenando as atividades ligadas ao Ano Internacional da Tabela Periódica, os hobbies têm ficado em segundo plano. Chega cedo em seu laboratório na Ilha do Fundão, volta para casa no final da tarde para evitar o trânsito e encarar o turno de correções, leituras e avaliações no início da noite. "Não sei dizer qual é a minha carga horária. Todos os finais de semana eu trabalho. Não tem jeito. Sobretudo nesse momento em que as universidades estão sob ataque, temos que brigar ainda mais por universidades fortes. É neste espaço, que as pessoas que vêm de um mundo protegido que é o colégio, vão descobrir o mundo real, se tornar seres sociais, para que possamos progredir."


Cinco artigos relevantes

“Screening of the odour-activity and bioactivity of the essential oils of leaves and flowers of Hyptis Passerina Mart. from the Brazilian Cerrado”, B.D. Zellner, A.C.L. Amorim, A.L.P. Miranda, R.J.V. Alves, C.M. Rezende, Journal of the Brazilian Chemical Society 2009, 20, 322-332. 

“Arabica and Robusta Coffees: Identification of Major Polar Compounds and Quantification of Blends by Direct-Infusion Electrospray Ionization Mass Spectrometry”, R. Garrett, B.G. Vaz, A.M.C. Hovell, M.N. Eberlin, C.M. Rezende, Journal of Agricultural and Food Chemistry 2012, 60, 4253-4258.

“Electrospray ionization tandem mass spectrometry analysis of isopimarane diterpenes from Velloziaceae”, A.C. Pinto, A.C.L. Amorim, H.M. Santos Junior, M.J.C. Rezende, N.P. Lopes, C. Gomes, R. Vessechi, C.M. Rezende, RCM. Rapid Communications in Mass Spectrometry 2016, 30, 61-68.

“Ionic liquid capillary columns for analysis of multi-component volatiles by gas chromatography-mass spectrometry: performance, selectivity, activity and retention indices”, M.S.S. Amaral, P.J. Marriott, H.R. Bizzo, C.M. Rezende, Analytical and Bioanalytical Chemistry 2017, 10, 1-18.

“New approaches to monitor semi-volatile organic compounds released during coffee roasting using flow-through/active sampling and comprehensive two-dimensional gas chromatography”, F.J.M. Novaes, A.I. da Silva Junior, C. Kulsing, Y. Nolvachai, H.R. Bizzo, F.R.A. Neto, C.M. Rezende, P.J. Marriott, Food Research International 2019, 119, 349-358.


Para conhecer melhor:

LAROMA: https://www.iq.ufrj.br/laboratorios/laboratorio-de-analise-de-aromas/
QUID+: http://quid.sbq.org.br/
Divulgação Científica: https://www.youtube.com/watch?v=RyqYFQi5a78


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)








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