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Boletim Eletrônico Nº 1472

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05/08/2021



In Memoriam – Eduardo Motta Alves Peixoto


 

Conheci o Professor Eduardo Peixoto – que mais tarde passei a chamar apenas Peixoto, como os demais colegas de laboratório – no segundo semestre de 1971, numa visita minha à USP. A visita fazia parte de uma investigação para a escolha do melhor lugar para fazer meu doutorado. Tinha convicção do meu interesse pela Físico-Química experimental e já havia, inclusive, iniciado uma troca de correspondências com algumas universidades norte-americanas. Um dia, entretanto, no decorrer de um curso sobre Difração de Raios X, ministrado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, por um professor estadunidense, comentei sobre meus interesses profissionais. O professor fez então comentários muito positivos sobre um pesquisador brasileiro, do IQ-USP e que estava iniciando uma linha experimental promissora em Físico-Química, no IQ-USP. O professor mencionado, claro, era o Eduardo Peixoto e, para conhecê-lo pessoalmente e saber de seus planos científicos, desloquei-me do Rio de Janeiro para São Paulo.

Naquela época estava em vigência um convênio CNPq/NAS (National Academy of Sciences), com o objetivo básico de fortalecer a pesquisa em Química no Brasil, com ênfase nas áreas de Físico-Química, Química Inorgânica e Fotoquímica. Além do financiamento de equipamento científico, o convênio previa um grande fluxo internacional de pesquisadores do mais alto nível, para lecionar e estabelecer vínculos de pesquisa com laboratórios brasileiros. Foi no IQ-USP que o Convênio CNPq/NAS apresentou seus melhores resultados. No meu caso, por exemplo, ao lado de disciplinas lecionadas por professores nascidos ou radicados no Brasil (Quântica I, Eduardo Peixoto; Quântica II, José Riveros, Espectroscopia Vibracional, Oswaldo Sala), tive a oportunidade de cursar Espectroscopia Eletrônica de Moléculas Poliatômicas com o Prof. Ramsay (Canadá), Colisão de elétrons com o Prof. R. A. Bonham (EUA) e Fotoquímica com o Prof. Richard Weiss (EUA).

Voltando à visita no IQ-USP, fiquei bastante impressionado com a ambição, otimismo e seriedade científicas do Prof. Peixoto. Ele já havia iniciado, partindo do zero, a montagem de um laboratório dedicado à investigação experimental de colisões elásticas e inelásticas de elétrons com gases atômicos e moleculares. Em paralelo, trabalhava ainda na montagem de um sistema voltado para a determinação da estrutura de moléculas, utilizando a técnica de Difração de Elétrons. No primeiro caso, – colisões de elétrons com gases – todos os equipamentos seriam projetados e construídos na própria USP; no caso da Difração de Elétrons, seria adquirido um difratômetro Balzers. Nos dois casos a ambição científica e os desafios técnicos eram enormes. Vale a pena observar que uma das primeiras iniciativas do professor havia sido a montagem de uma oficina mecânica e a contratação de um técnico em mecânica de precisão, para a fabricação, no próprio laboratório, de parte dos componentes dos espectrômetros.

Como resultado daquela visita, voltei no ano seguinte para iniciar meu doutorado sob a orientação de Eduardo Peixoto. Fui o primeiro aluno a ser admitido oficialmente para o doutorado. Em pouco tempo, passei a ter como colegas de laboratório, outros alunos de doutorado: Ione Iga e Lee Mu-Tao (ambos alunos do IQ-USP e que haviam feito estágios de Iniciação Científica sob a supervisão do Peixoto), José Carlos Nogueira, egresso da UnB , Maria do Carmo e Luiz Carlos Gomide Freitas.

Eduardo Peixoto fez seu doutorado na Universidade de Indiana, em Bloomington, sob a supervisão do Prof. Russell A. Bonham, na época o Editor do Journal of Chemical Physics, revista muito respeitada internacionalmente por pesquisadores das áreas de Físico-Química e Física Atômica e Molecular. O tema da sua tese foi o estudo teórico da colisão de elétrons com íons negativos. Trabalhando num dos principais laboratórios do mundo nas áreas de colisão de elétrons de alta energia e difração de elétrons, Peixoto também adquiriu sólidos conhecimentos sobre a parte experimental dessas linhas de pesquisa. Vale ressaltar que, ao tomar a decisão de iniciar uma linha experimental complexa, Peixoto demonstrou a ousadia e a coragem profissional que sempre o caracterizaram. Optou, por exemplo, em trabalhar num intervalo de energia de elétrons intermediário (0,5 a 3,0 keV) para o qual as aproximações teóricas de alta energia (tipicamente 40-60 keV) e de baixa energia (abaixo de 100 eV) não funcionavam bem. Tornou-se, portanto, necessário o desenvolvimentos de modelos teóricos e programas computacionais de grande complexidade. No caso da difração de elétrons, operar a máquina nas suas melhores condições e escrever os programas para o tratamento de dados revelaram-se tarefas de alto grau de dificuldade, realizadas, entretanto, com pleno sucesso pela equipe do laboratório.

De forma geral, os trabalhos de doutorado do grupo exigiam forte dose de iniciativa e independência, sendo conduzidos num clima amistoso e de grande entusiasmo científico, graças à orientação segura e amiga de Eduardo Peixoto. Os doutores formados no laboratório deram origem a novos grupos de pesquisa em instituições como a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cinco dos egressos tornaram-se professores titulares, e por sua vez formaram um número expressivo de jovens pesquisadores doutores.

Por volta de 1975, Peixoto passou a manifestar forte preocupação com o desenvolvimento geral da pesquisa em Química no Brasil. Acreditava na absoluta necessidade de criação de uma sociedade científica que apoiasse e incentivasse a pesquisa de alta qualidade. Esse foi o embrião da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), criada em 1977, tendo como Presidente o Prof. Simão Mathias e como Secretário Geral Eduardo Peixoto. A SBQ desempenha um papel absolutamente essencial para a comunidade química brasileira de hoje. Faz-se mister, entretanto, manter viva a lembrança do papel essencial desenvolvido por Eduardo Peixoto na sua criação. Lembro, além disso, nitidamente, das palavras dele dizendo e repetindo que nenhuma nação poderia atingir um padrão científico elevado sem dispor de seus próprios veículos de divulgação científica. A partir desse raciocínio e com um esforço fora do comum, Peixoto tornou-se o principal artífice e responsável direto pela criação e lançamento das revistas Química Nova (QN) e Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS). Quem se der ao trabalho de consultar os primeiros exemplares da Química Nova perceberá claramente a intensa participação de Eduardo Peixoto, tanto como Editor como autor de vários artigos. Em relação ao JBCS, lembro com prazer a alegria dele, salientando que era a única revista científica do mundo com quatro prêmios Nobel no seu corpo Editorial!

Ao atingirmos o volume 44 da Química Nova e o volume 32 do JBCS, não podemos deixar de ser gratos ao imenso esforço coletivo que isso representa: editores, membros da Secretaria, pesquisadores que submeteram artigos para publicação, etc. Sobressai, entretanto, o papel desempenhado por Eduardo Peixoto, um pesquisador alegre, inteligente e com grande capacidade de sonhar um futuro sempre melhor para a comunidade química brasileira.

Eduardo Motta Alves Peixoto deixa muitos admiradores e amigos, particularmente entre seus ex-orientandos. Fez-se uma grande lacuna na Química de nosso país.


Gerardo Gerson Bezerra de Souza (UFRJ)








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