8/12/2011
Saiu a Química Nova na Escola número 4 - Volume 33

EDITORIAL
Temos acompanhado atentamente as mudanças ocorridas na área 46 da CAPES, agora denominada Ensino, mas estabelecida desde 2000 como Ensino de
Ciências e Matemática (ECM). A alteração de nome já adianta uma das consequências dessas mudanças, que têm sido implementadas para acolher outros campos
de conhecimento ligados ao ensino. O principal argumento para a mudança é ela
ser resultado de uma "política nacional de desenvolvimento", visando impactar os
diversos segmentos da sociedade. Entre outras ações dessa política, destaca-se
a criação das Diretorias de Educação Básica e de Educação a Distância no âmbito
da CAPES. Retratadas nesse contexto, essas ações podem ser vistas como uma
"clara perspectiva de impactar na melhoria do ensino no país", o que confere um
sentido específico àquilo que se queira denominar Ensino.
No entanto, esse argumento não se sustenta quando analisamos as justificativas
expostas no primeiro comunicado da nova área. Quando se pretende transferir as
competências desenvolvidas pelos programas de pós-graduação no ECM (PPGECM), dever-se-ia pensar inicialmente em adaptar princípios, critérios e metas da
avaliação, estabelecidos na extinta área de ECM, em outros campos da pesquisa
em ensino. Esta deveria ser a primeira justificativa, pois é sobre esse conhecimento
que a diretoria de avaliação tem competência para arbitrar. Quando se vincula a
transferência dessas competências à suposta melhoria do ensino, desconsidera-se
um longo caminho entre a pós-graduação e a sala de aula ou mesmo os sistemas
de ensino, duas outras formas de atribuir sentido ao Ensino.
Seguramente, há um vínculo real entre essas ações da política nacional de
desenvolvimento e as mudanças que vêm ocorrendo no âmbito dessa importante
agência de avaliação da pós-graduação, mas que não pode ser confundida com a
avaliação do ensino, seja este relativo a qualquer campo de conhecimento, à sala
de aula ou aos sistemas de ensino, para ampliarmos os sentidos sobre o Ensino. O
que parece justificar a iniciativa é a crença de que os mestrados profissionalizantes
devem ser priorizados quando as questões de ensino são tratadas dentro da agência. É também fato que a área desenvolveu competência para avaliar PPGECM de
mestrados profissionalizantes e, nesse sentido, reunir essas competências poderia
ser honestamente defendida como uma justificativa para as mudanças. No entanto,
não é tão simples relacionar a presença de mestrados profissionalizantes em uma
região geográfica, por exemplo, com a melhoria do ensino. Talvez, por isso, seja
mais fácil propor a criação de bancos de dados sobre a produção em ensino, o que
concretamente está longe de impactar na melhoria do ensino no país.
Há ainda uma segunda crença na exposição de justificativas que antecede a
apresentação das metas da nova área: a "necessidade de saber fazer ciência para
poder bem ensinar ciência". Essa assertiva acentua nossa preocupação a respeito
dos sentidos que se queira atribuir ao Ensino, principalmente quando se confunde
o sujeito pesquisador, com o professor e com o educador, como faz o documento.
Nossos pós-graduandos, sejam eles professores da educação básica em mestrados profissionalizantes ou recém-licenciados em mestrados acadêmicos, terão
provavelmente melhores condições de formação se forem orientados por quem sabe
fazer Ensino de Ciências, o que implica saber fazer pesquisa e, portanto, ciência
nos campos específicos do Ensino e não nos campos específicos das ciências.
Afinal, se queremos formar especialistas em uma área de conhecimento, devemos
atribuir essa formação àqueles que têm competência nessa área. Nesse quesito de
formação, não há dúvidas que a área de ECM tem contribuído efetivamente para a
melhoria da qualidade de ensino quando relaciona programas de formação inicial
ou continuada com pesquisas na área.
A pesquisa no campo é um sentido importante que se deve atribuir ao Ensino.
Não se pode desconsiderar décadas de pesquisa, centenas de periódicos indexados, linhas editoriais de um campo internacionalmente consolidado, quando
se pretende definir as bases de avaliação da produção no campo, muito menos
quando se pretende impactar na melhoria do ensino no país. Há muitos avanços
reconhecidos nos resultados alcançados pela área de ECM. É urgente rever a
condução desse importante processo de mudança nos rumos da Educação em
Ciências e Matemática no país, de modo a não se desperdiçar a experiência consolidada na área.
Os Editores
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A revista Química Nova na Escola pode ser acessada através do site http://qnesc.sbq.org.br/.
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