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Terras Raras e a Tragédia do Abandono Nacional: Da Liderança Global à Dependência Estrangeira
Muito antes da chegada dos portugueses e da ocupação indígena destas terras, antes mesmo da primeira árvore ser derrubada, a natureza já havia reservado ao solo brasileiro uma riqueza mineral extraordinária — elementos que, séculos depois, se tornariam fundamentais para as revoluções tecnológicas do mundo contemporâneo: terras raras, tório, urânio, nióbio, etc.
E, ainda assim, muito antes de os brasileiros compreenderem seu valor, os estrangeiros já haviam começado a levá-los embora.
No século XIX, navios americanos e europeus atracavam em nosso litoral, extraíam areia monazítica sob o pretexto de "lastro" e a levavam embora para iluminar a Europa e os Estados Unidos com os mantos de gás alimentados por tório (e geralmente cério). Era o Brasil iluminando a Europa e os Estados Unidos com minerais retirados de graça do nosso País. Após 5 anos de usar nossos minérios como "lastro", passaram a pagar pela nossa monazita, mas a preços muito baixos (com certeza mais barato que banana!!). Foi então que Getúlio Vargas, em um raro gesto de lucidez e soberania, proibiu a exportação de monazita bruta durante a Segunda Guerra Mundial, resistindo às pressões americanas por urânio e tório para seus programas nucleares. Essa atitude corajosa lançou as bases do que poderia ter sido um projeto nacional robusto em terras raras.
Na década de 1950, surgiu a ORQUIMA, empresa privada sediada em São Paulo, liderada por um time brilhante de químicos e engenheiros sob a orientação de Pawel Krumholz. A partir da remoção da monazita na região do Rio de Janeiro (na região de Buena, em São Francisco de Itabapoana), o Brasil passou a processar monazita com técnicas de digestão alcalina e troca 2.
iônica (resina). Tornamo-nos líderes mundiais na produção de óxidos de terras raras de alta pureza — incluindo 200 kg de Eu₂O₃ com 97% de pureza (que foi enviado aos EUA para uso no reator nuclear do submarino Nautilus. Estávamos à frente do nosso tempo!
Mas não durou. O governo incorporou a ORQUIMA à NUCLEBRÁS nos anos de 1960, decidiu que apenas o urânio e o tório importavam, e encerrou toda a estrutura de pesquisa e processamento de terras raras no país. Vale a pena ressaltar que até os dias atuais não se sabe o que será feito com U e Th, que eram os resíduos da monazita. A Torta II, atualmente armazenada na Unidade de Descomissionamento de Caldas (UDC), em Minas Gerais, consiste em um resíduo sólido altamente radioativo oriundo do processamento químico da monazita realizado na antiga planta da NUCLEMON. Transferida entre as décadas de 1990 e 2000, essa torta representa cerca de 12.500 toneladas de material contendo elevadas concentrações de tório-232 (em alguns casos até 20–30%), além de urânio (aproximadamente 2%, sendo U238=99% e U235=1%), rádio-228, chumbo-210 e uma fração significativa de elementos de terras raras leves, como lantânio, cério e neodímio. Trata-se de um passivo ambiental de alta periculosidade e embora contenha elementos estratégicos de alto valor industrial, o resíduo segue sem plano de reaproveitamento ou destinação definitiva, sendo mantido em galpões provisórios sob vigilância da INB, em um cenário marcado por incertezas regulatórias e preocupações crescentes com os impactos ambientais e à saúde pública.
Décadas se passaram e, em 2011, o Brasil parecia prestes a reescrever essa história. O Prof. Osvaldo Antonio Serra, participou de uma reunião com o então Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e representantes da Vale, maior mineradora brasileira. O objetivo era convencer a empresa a investir na extração e separação de terras raras no 3
Brasil, criando uma cadeia nacional de valor. A resposta da Vale foi a apatia. A proposta foi ignorada. E tudo morreu ali.
Mais uma vez, o Brasil escolheu a dependência. Mais uma vez, quem levou adiante o projeto foram outros países — em especial, a China.
Desde então, diversas iniciativas de mineração foram abertas em território brasileiro, mas nenhuma é 100% nacional. Atualmente, os Países que controlam essa mineração em nosso território são principalmente da Australia e Canada. Apenas a Serra Verde é Brasileira, porém, possui controle acionário de investidores americanos. E que eles fazem? Nada mais do que cavar, usar sulfato de amônio, extrair o concentrado e enviar tudo para a China ou os Estados Unidos. Qualquer um pode perfurar o solo. O que importa é o que fazemos depois. E o Brasil não faz nada. Onde está nossa cadeia produtiva? Nossa capacidade industrial? Nossa dignidade tecnológica?
Um ponto ainda mais grave é que muitas dessas operações são financiadas com dinheiro público do BNDES, e mesmo assim exportam 100% do concentrado bruto (algumas vezes fazem separação entre Terras Raras leves e pesadas apenas), sem qualquer agregação de valor no país. O Estado brasileiro subsidia a degradação ambiental, o consumo excessivo de água e a produção de rejeitos radioativos — apenas para mandar tudo embora a preço de banana (atualmente menor que banana).
E o que compramos de volta? Ímãs. Lasers. Smartphones. Turbinas eólicas.
Até catalisadores para nossas refinarias de petróleo — produzidos com as terras raras brasileiras — são importados da China. Até a água brasileira é vendida em garrafa pela Coca-Cola!!!! Isso não é cadeia produtiva. É submissão financiada pelo próprio país.
E ainda assim, veja, este pode ser o nosso momento de virada! O que a China fez nos anos 1980, o Brasil pode fazer agora. Investir em ciência. Criar políticas que obriguem a agregação de valor. Financiar tecnologias de separação. Reconstruir plantas-piloto. Fortalecer empresas brasileiras para inovar. Ligar a mineração à metalurgia, à química, à ciência de materiais e à indústria de ponta.
Nós possuímos as reservas. Possuímos o conhecimento (inúmeros grupos de TR no Brasil, embora poucas patentes!). Possuímos excelentes universidades. O que nos falta é visão estratégica e coragem política. Se o Brasil não agir agora, ficará preso — mais uma vez — como um país que exporta o que é precioso e importa o que é vital.
Não podemos repetir o erro de 2011. Não podemos olhar para trás, daqui a vinte anos, e perceber que entregamos tudo de novo — e ficamos com as mãos vazias. As terras raras não são apenas recursos econômicos. São estratégicas. São soberania. Este é o momento de mudar o rumo da história e não podemos perdê-lo de novo.
Fonte: Prof. Osvaldo Antonio Serra (Laboratório de Terras Raras – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP ), 2 de Agosto de 2025
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