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Boletim Eletrônico Nº 1662 - 21/08/2025




DESTAQUE

Química inova ao incluir saberes originários em pesquisa sobre contaminação na Amazônia


Cassiana Montagner (IQ-Unicamp) está pesquisando a vulnerabilidade da bacia do rio Iriri, onde vivem cerca de 750 remanescentes da etnia Panará

Uma pesquisa coordenada pela química Cassiana Carolina Montagner (Unicamp) está inovando ao envolver os saberes do povo originário Panará em um trabalho que tem o objetivo de determinar o grau de vulnerabilidade da bacia do Alto Iriri, na divisa do Mato Grosso e do Pará. O rio, afluente do Xingu, passa pela terra indígena Panará logo depois de deixar uma área de grande e crescente atividade agrícola, e é fundamental para a vida dos cerca de 750 remanescentes desta etnia, tanto pela água fornecida quanto pela importância da bacia na garantia da biodiversidade da floresta.

O trabalho começou em 2023, a convite da Associação Iakiô, com financiamento por meio do projeto Legado Integrado da Região Amazônica (LIRA), mas cresceu e agregou recursos da Fapesp - um projeto temático vigente coordenado pela professora Montagner - e da ONG Conservação Internacional, que conheceu o projeto em sua fase inicial, e passou a custear toda a logística da pesquisa pelos próximos três anos. O Instituto Sócio Ambiental também é um parceiro da pesquisa.

Cenas de uma pesquisa interdisciplinar e transcultural: preparo para coleta de amostras de água do rio; medição de peixes e seminário da Unicamp com a presença dos Panará Kiaransy e Karapow.

Nos últimos meses, tanto estudantes do grupo da Professora Montagner têm ido à Terra Indígena Panará, quanto jovens Panarás têm vindo a Campinas para serem treinados para ajudar na pesquisa. O trabalho teve um impacto de tal forma positivo junto aos Panarás, que novas perspectivas de ampliação do projeto visam o fortalecimento da autonomia dos Panarás no entendimento sobre o monitoramento da bacia e a construção de centros de pesquisa e educação dentro da TI.

"É uma região que nunca foi estudada, então rapidamente percebi que seria impossível avaliar a vulnerabilidade da bacia do Alto Iriri sem contar com os saberes originários, por exemplo, indicando os locais mais adequados (críticos) para as coletas de amostras de água do rio, ou relatando mudanças de curto e longo prazo na fauna local", conta a docente.

Os Panarás viviam naquela região sem contato com não indígenas até o início dos anos 70, quando o regime militar os removeu dali para abrir a BR 163 (cruzando o Mato Grosso até Santarém). Uma história bastante documentada pela mídia na época que culminou na remoção deles para o Parque do Xingu. Não adaptados à nova morada, quando finalmente voltaram para sua região de origem décadas depois, haviam perdido cerca de 80% de sua população e de suas terras.

Em 2017 os Panarás vivenciaram uma grande mortandade de peixes no rio Iriri, que os deixou sem água e pesca por várias semanas. Anos depois, a geógrafa Zaíra Moutinho, iniciou o seu doutorado na Unicamp avaliando o avanço das monoculturas sobre a TI Panará. Pesquisa que foi logo complementada com a Química Ambiental e o trabalho da professora Montagner, que vem trazendo os primeiros resultados da presença de agrotóxicos no rio Iriri. Em uma pesquisa interdisciplinar, hoje Zaíra está em vias de concluir seu doutorado sob a co-orientação da professora Montagner.

Ainda em 2023 a docente da Unicamp realizou as primeiras análises químicas da água do rio, por meio de uma parceria estabelecida com a Eurofins que coletou amostras de 10 pontos, na estação de seca e na estação de cheia. "Analisamos todos os parâmetros que constam na legislação brasileira sobre potabilidade (Portaria MS 888/2021). E embora a água do rio ainda esteja com a grande maioria dos parâmetros dentro dos padrões nacionais para consumo, já observamos diversos contaminantes relacionados ao uso de agrotóxicos nas proximidades, como a atrazina, 2,4-D e outros", relata a docente.

Na segunda fase do projeto, a professora Montagner e sua equipe implementaram um programa de treinamento que agora conta com oito bolsistas Panarás que atuam como protagonistas da pesquisa. As observações oriundas da vivência diária no rio, aliadas aos saberes originários, têm sido fundamentais para direcionar os rumos do monitoramento e avaliação da segurança hídrica na bacia do rio Iriri, que conta com análises químicas sofisticadas no Instituto de Química da Unicamp. "Eles também aprenderam a medir alguns parâmetros básicos da água como o pH, a condutividade e o oxigênio dissolvido. Com o apoio da Conservação Internacional, desenvolvemos um app em que eles podem relatar em tempo real dados sobre a água e a pesca. Ferramentas de geolocalização nos ajudam a caracterizar trechos importantes do rio e mudanças de curto prazo, que dificilmente poderiam ser identificadas com tamanho nível de detalhe com apenas algumas campanhas amostrais ao longo do ano. Estamos falando de uma região remota onde a logística de coleta é bastante complexa. A contribuição dos Panará a essa pesquisa é imensurável", descreve.

Em duas das cinco expedições realizadas até agora, a professora Montagner e sua equipe estiveram acompanhadas pela equipe da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp, que juntos estão produzindo um documentário sobre a importância da preservação do Rio Iriri para a vida e a história dos Panarás. Um webdoc contando os bastidores dessas duas expedições está disponível na página do Jornal da Unicamp (link abaixo).

No mês passado, a professora Montagner voltou de mais uma campanha amostral, onde relata com entusiasmo o avanço da pesquisa, o fortalecimento da relação intercultural com os Panarás e as perspectivas de uma pesquisa que tem tudo para durar muitos anos. Nessa viagem, além das amostras de água de rio, poços, e sedimentos, foram também instalados 3 captadores de água de chuva que ajudarão no entendimento das fontes difusas de contaminação, por via aérea, muito inspirado em uma publicação recente do grupo de pesquisa sobre a presença de agrotóxicos na água da chuva (Dias et al., 2025).

A equipe vem crescendo a cada ano. Hoje conta também com outros três alunos de pós-graduação em química, biólogo, ecotoxicologista, engenheiro florestal, antropólogos, além dos jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos e dos bolsistas, pescadores e professores Panarás. "Estamos varrendo a região para entender onde está o problema e seu verdadeiro tamanho. Tenho esperança que este projeto se fortaleça e receba ainda mais recursos nos próximos anos. Ele é importante não apenas para os Panarás, mas pode servir de modelo a ser replicado para outras terras indígenas e nos ajudar a elucidar com mais detalhes a importância da resiliência das nossas florestas para a vida dessas pessoas e do planeta como um todo."

Saiba mais:
https://jornal.unicamp.br/noticias/2025/06/05/pesquisa-e-memoria-em-terras-indigenas-no-centro-oeste-brasileiro/

"Pesticides in rainwater: A two-year occurrence study in an unexplored environmental compartment in regions with different land use in the State of São Paulo – Brazil" Chemosphere 2025, Mariana A. Dias, Vinicius S. Santos, Cassiana C. Montagner.
https://doi.org/10.1016/j.chemosphere.2025.144093

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Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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