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Boletim Eletrônico Nº 1663 - 28/08/2025




DESTAQUE

Conflito de interesses e política interrompem negociações contra poluição plástica


As negociações internacionais entre os países para construir um acordo global contra a poluição plástica chegaram a um beco sem saída, na mais recente reunião do Comitê de Negociação Intergovernamental, o INC 5.2, realizada de 5 a 14 de agosto em Genebra, Suíça. No centro da discórdia, duas visões antagônicas sobre como deve ser a abordagem dos países para combater a poluição plástica.

De um lado, países produtores de petróleo advogam por um acordo que não coloque um teto para a produção de plástico e concentre esforços na gestão de resíduos. De outro lado, países ricos formam o bloco chamado "High Ambition Coalition" e defendem medidas mais ambiciosas e enfáticas, que incluem o banimento do plástico para algumas funções de uso único e uma análise mais profunda da toxicidade das substâncias usadas como aditivos em plásticos.

Walter Ruggeri Waldman (UFSCar): "Claro que os plásticos descartáveis são imprescindíveis no setor de saúde, nos hospitais e tal, mas será que precisamos continuar fabricando garfos plásticos para festas infantis, quando existem alternativas?"

Sem acordo, as negociações foram suspensas e devem ser retomadas em data e local a serem definidos.

"Isso é muito desgastante para todos que se preocupam com essa questão e participam dos encontros", afirma o químico Walter Ruggeri Waldman, docente da UFSCar, especialista em microplásticos e integrante da delegação brasileira na reunião intersessional de especialistas entre os INC 4 e INC 5.1. Em sua visão, essa discussão contrapõe partes com interesses conflitantes, e acaba sendo mais política do que puramente científica. "A ciência é considerada nas discussões até certo ponto, mas aí a política passa a dominar… Há casos em que é mais conveniente dizer que esse determinado aspecto que não é interessante para alguns dos segmentos, não faz parte do escopo do tratado, ou que deveria ser mais bem estudado, porque ainda apresenta pontos de divergência, e tal… E com essas argumentações você tira um determinado aspecto científico da mesa de negociações."

Waldman tem uma preocupação com o atraso dos países em relação à análise de toxicidade dos produtos colocados no mercado - insumos e aditivos variados. São mais de 16 mil substâncias encontradas nos plásticos comercializados. Sabemos que mais de 3,6 mil são tóxicos e não temos análise de toxicidade para mais de 10 mil produtos. "Sabemos que esses plásticos são seguros durante o uso, porém quando são descartados, permanecem na natureza degradando, e portanto liberando essas substâncias na atmosfera, no solo ou em corpos d'água", explica o docente.

Ele acredita que essa análise de toxicidade é parte crucial no combate à poluição plástica, e é de responsabilidade das empresas e dos governos. "Esses produtos tiveram sua produção e comercialização autorizadas com base apenas em determinação de risco, ou seja indicações de que as substâncias de toxicidade desconhecida permanecerão estáveis e isoladas dentro do plástico, de modo que não tenham impacto à saúde humana durante seu tempo de vida útil. O problema é que quando esses plásticos escapam do nosso controle, como vem acontecendo desde os anos 1950, liberando todos esses insumos no meio-ambiente."

Talvez o maior ponto de divergência entre os países seja a questão da quantidade produzida: afinal, devemos ou não estipular um teto de produção de plásticos? Em torno de metade do plástico produzido em todo o mundo é utilizado para a fabricação de produtos de uso único, descartáveis ou de vida curta. "Claro que os plásticos descartáveis são imprescindíveis no setor de saúde, nos hospitais e tal, mas será que precisamos continuar fabricando garfos plásticos para festas infantis, quando existe a alternativa do garfo de madeira?", indaga o Professor Waldman.

Hoje estima-se que o planeta recicle 9% do plástico produzido anualmente. E há iniciativas sugerindo que o índice de reciclagem deveria chegar a 30%, 40% ou 50%. Waldman argumenta que para incentivar a reciclagem e a circularidade, e criar mercado para os plásticos reciclados, é preciso diminuir a produção de plásticos novos (e baratos). "Já não demos conta da gestão de resíduos com a produção global em níveis mais baixos. Se continuarmos com o mesmo ritmo crescente de produção de plástico, somado às metas ambiciosas (e corretas) de aumento da reciclagem, será impossível fazer uma gestão adequada."

Em que pese as interferências políticas que prejudicam o encaminhamento do combate à poluição plástica, do ponto de vista dos químicos há muito o que fazer. Nesse sentido, Waldman recorre às lições de John Warner, o pai da Química Verde, que palestrou na última RASBQ. "Acredito que este seja um momento histórico ótimo para graduandos e pós-graduandos em química. Precisamos avançar no desenvolvimento de materiais menos impactantes à saúde e ao meio-ambiente, estabelecer um novo paradigma no sentido de sopesar o custo ambiental no projeto de desenvolvimento dos produtos, e também caminhar no sentido da economia circular. O sucesso dessas iniciativas vai depender da química."

Saiba mais:
Artigo do Prof. Waldman sobre a questão da toxicidade:
https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.0c07781

Artigo do Prof. Waldman sobre as partículas secundárias:
https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.0c02194

Artigo de grupo brasileiro sobre a presença de microplásticos no cérebro humano:
https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2823787


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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