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Um professor de Química à antiga
Tive o privilégio de conhecer um grande professor de Química da Universidade Federal do Ceará, Miguel Cunha. Quando eu convivi com ele, já estava bastante idoso, mas guardava um frescor juvenil que atraía a todos, sobretudo a seus alunos, e também àqueles outros que com ele conviveram. O bom humor de Miguel era contagiante, e uma roda de conversa com ele deixava grande saudade quando terminava. Ele morava numa chácara nas redondezas de Fortaleza, e tive o prazer de ir lá por duas vezes, em meio à bela natureza que cercava o lugar. Uma vez estivemos juntos num congresso de Química em Ouro Preto, e ele passou um bom tempo depois do jantar, numa noite de lua, a nos brindar com suas histórias. Vou relatar aqui aquela de que mais gostei. Contava Miguel que se formou em Engenharia Civil em Salvador em 1938, mas depois se dedicou ao magistério da Química. Em seu tempo de graduação, ocorreu um acirrado debate na capital da Bahia, em que toda a população tomou parte. A questão era se a pronúncia correta da palavra senhora deve ser senhóra, como se diz comumente no Brasil, ou senhôra, como pronunciam os portugueses. Miguel dizia que os jornais de Salvador se engalfinhavam na disputa, e traziam longos editoriais em defesa de uma ou outra das pronúncias. Pois bem, nessa época, Miguel tinha um colega de turma, o Lira, que, segundo ele, era um poço profundo de ignorância em qualquer coisa. Ao final do ano, lá foi o Lira para o exame oral de Química. Como esperado, não conseguiu acertar nenhuma pergunta que lhe foi feita. O professor então lhe disse: “Senhor Lira, o senhor já está inapelavelmente reprovado. Contudo eu quero dar-lhe a oportunidade de sair daqui reprovado, mas com honra, isto é, com uma nota baixa, mas diferente de zero. Para isto, basta que o senhor me responda uma única pergunta: qual é o outro nome da substância também conhecida como azoto?” E o Lira, influenciado pelo debate que tomava conta da cidade, respondeu imperturbável: “azóto, professor.”
Fonte Carlos Alberto L. Filgueiras, Professor Emérito da UFMG
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