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Boletim Eletrônico Nº 1680 - 22/01/2026




DESTAQUE - 49ª RA

Simpósio sobre ciência e soberania terá a presença do filósofo Renato Janine Ribeiro


Docente da USP foi ministro da Educação e presidente da SBPC

2026 começou sob a sombra da ação armada dos Estados Unidos, que feriu a soberania da Venezuela e colocou uma ameaça velada sobre toda a região. Longe de ser a primeira intervenção dos Estados Unidos na soberania de outro país, o ato que sequestrou Nícolas Maduro, foi a primeira intervenção dessa espécie na América do Sul, e tem sido questionado por muitos países, porém apoiado por outros.

Renato Janine Ribeiro: "A chave tem que ser as pessoas conhecerem as coisas que elas vão usar constantemente. Ou seja, falar de ciência de forma que seja útil para elas. E ao mesmo tempo, elas têm que aprender a lidar com as coisas do cotidiano com bases científicas"

"Os Estados Unidos – assim como a França e outros -- têm um histórico de intervenções em outros países, muitas vezes com alegadas boas intenções. Mas os resultados sempre foram péssimos", afirma o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política da USP, ex-presidente da SBPC e ex-ministro da Educação.

Ele participará do simpósio "Ciência para a Soberania Nacional", na 49a Reunião Anual da SBQ (de 15 a 18 de junho em Campinas). Estão confirmadas também as presenças do empresário Luiz Donaduzzi, fundador e presidente do Parque Tecnológico Biopark, em Toledo (PR), e da bióloga Lucia Helena da Silva Maciel Xavier, pesquisadora do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/MCTI).

As "alegadas boas intenções" em que países como os Estados Unidos se escoram para invadir outras nações muitas vezes dizem respeito à deposição de governos autoritários ou ditaduras. Nem por isso, a invasão se torna justificável. O professor Janine faz uma distinção entre os conceitos de soberania nacional e soberania popular. "Soberania nacional significa que um país não quer que outro interfira em suas decisões. Isso é correto, e sempre foi uma convicção forte da diplomacia brasileira. Porém a soberania nacional, a meu ver, só é legítima quando emana da soberania popular, ou seja, quando você tem um estado em que o povo realmente toma decisões. Então quando você tem uma ditadura, você pode até respeitar e não interferir nos assuntos internos, mas como você não sabe se o povo quer aquele governo ou não, essa soberania fica insuficiente. Mas não estou dizendo que seja correto invadir um país que não tenha governo eleito, isso sempre dá problemas", afirmou ao Boletim Eletrônico SBQ.

"Na virada do século XX para o XXI, houve algumas intervenções ditas humanitárias, como na Somália, no Kosovo, depois seguidas em alguns países islâmicos. Todas, sem exceção, deram errado. Porque democracia não se exporta, nem importa. Foram episódios de neocolonialismo, mesmo às vezes com boas intenções – às vezes, apenas. E isso se repete com o sequestro de Nicolás Maduro pelos estadunidenses. Não sei se ela era o presidente legítimo da Venezuela, porque não divulgou as atas de votação. Mas mesmo assim o que motivou seu sequestro não foi a democracia, foi a ganância", observa o professor.

Então quando pensamos em "Ciência para a soberania" – tema do simpósio – a ciência só tem legitimidade dentro de um contexto democrático. E nesse sentido, é desejável que a população tenha conhecimentos básicos de todos os campos do conhecimento científico. Janine destaca a iniciativa AAAS 2061, promovida pela American Association for Advancement of Science (equivalente norte-americana à SBPC), que prevê que em 2061 todos os cidadãos americanos tenham letramento básico em ciência. "É algo muito vago de se saber: o que de química, física, biologia, filosofia, história, geografia… todo o cidadão tem que conhecer?", pondera o Professor Janine. O mais óbvio, segundo ele, é pensar que este seria o conteúdo da escola, mas como o ensino nem sempre é muito bom, talvez esse próprio conteúdo tenha que ser muito modificado nos próximos anos. "Na maior parte dos países existe uma educação obrigatória, até o ensino médio, então seria de se esperar que esse conhecimento já existisse. Por exemplo, na minha área – filosofia política: quando você vota, você deveria recorrer ao seu conhecimento de ciência política, sociologia, história, etc. Mas isso é muito raro, e esse é um problema a ser encarado", declara.

E como evoluir nesse caminho? "A chave tem que ser as pessoas conhecerem as coisas que elas vão usar constantemente. Ou seja, falar de ciência de forma que seja útil para elas. E ao mesmo tempo, elas têm que aprender a lidar com as coisas do cotidiano com bases científicas. É um movimento duplo: mudar ensino de ciência e fazer com que se acostumem a usar ciência na vida delas. E aqui no Brasil a gente vê que isso é muito precário", reflete o Professor Janine.

Em sua visão, vivemos em uma sociedade que dá muito pouco valor ao conhecimento. "Você conversa com as pessoas e vê o tamanho da desinformação. Estamos falando que os cidadãos deveriam ter um conhecimento básico das ciências, mas ainda não têm o conhecimento sequer do elementar. O português é muito precário, a compreensão é muito precária, e isso aumenta o desafio do professor – que por sua vez é extremamente desvalorizado no Brasil."

No campo da ciência profissional, ou da pesquisa científica, a situação é melhor, na avaliação do Professor Janine. "O Brasil tem um bom nível de produção científica em valores absolutos. E temos gente suficiente para realizarmos pesquisas em todas as áreas do conhecimento, só que isso tem um custo", assinala. "Para ir mais longe tem que ter recursos, e a gente vive uma falta crônica de recursos."

Aí entra um problema que tem dominado as discussões sobre políticas econômicas e desenvolvimento: Quem paga a conta do investimento em ciência e tecnologia?

O professor de ética e filosofia política é cético quanto à participação do setor privado no financiamento ao desenvolvimento científico. "O Brasil está disposto a ser soberano ou não? Para ser soberano, precisamos fazer crescer a ciência, a educação, a saúde, a proteção ao meio-ambiente… Para isso, vamos precisar de recursos… E você vê a batalha que está sendo a pouca disposição da classe dominante em pagar impostos", salienta. "A ciência tem muito a oferecer, mas não me parece que os empresários tenham interesse."

Conheça mais sobre o professor Renato Janine Ribeiro eum sua página no Youtube: https://www.youtube.com/@renatojanineribeiro489/featured


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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