Topo Boletim Eletrônico da SBQ
   Notícias | Eventos | Oportunidades | Receba o Boletim | Faça a sua divulgação | Twitter | Home | SBQ

Boletim Eletrônico Nº 1681 - 29/01/2026




DESTAQUE

Ano novo, nomenclatura atualizada: por que abandonar o carbinol


O início de um novo ano costuma ser associado à renovação e à atualização. Na química, esse espírito também deve se refletir na linguagem usada para descrever conceitos, estruturas e funções. Um exemplo persistente é o termo “carbinol”, historicamente relevante no desenvolvimento da química orgânica, mas conceitualmente ultrapassado e incompatível com a nomenclatura atualmente recomendada. Revisitar esse termo à luz da nomenclatura moderna permite discutir sobre como a precisão da linguagem influencia o ensino e a prática da química.

Recentemente, durante uma apresentação pública, ao explicar dados de RMN de hidrogênio, o palestrante utilizou o termo “hidrogênio carbinólico” para designar o hidrogênio ligado ao carbono portador de um grupo OH. Ao comparar esse espectro com o do produto obtido após a acilação da hidroxila, passou a denominar o mesmo hidrogênio simplesmente como H-3. Ou seja, o hidrogênio deixou de ser “carbinólico”.

Após a apresentação, questionei o significado atribuído a “hidrogênio carbinólico”, e ele explicou tratar-se do hidrogênio ligado ao carbono que possui a hidroxila. Ficou claro, contudo, que o termo era empregado sem conhecimento de sua origem ou de seu contexto histórico.

Ao longo dos anos, tenho observado que o termo carbinol ainda aparece com certa frequência, sobretudo em contextos didáticos. Nessas ocasiões, procuro esclarecer que se trata de um termo hoje considerado obsoleto e que, de acordo com as recomendações atuais, a identificação de átomos de carbono ou hidrogênio deve ser feita pela numeração da estrutura. Assim, expressões como “hidrogênio carbinólico” podem ser substituídas de modo mais claro e inequívoco por designações como “hidrogênio ligado ao C-3”.

Por que, então, o termo “carbinol” persiste? Embora a IUPAC recomende seu abandono pelo menos desde 1965, esse uso reflete, em grande parte, a permanência de textos didáticos desatualizados, nos quais a terminologia sobrevive apenas por seu valor histórico.

A nomenclatura carbinol surgiu no final do século XIX da convergência entre a teoria dos radicais e a teoria estrutural proposta por Aleksandr Butlerov em 1861. A partir dessa base conceitual, químicos russos — em especial Aleksandr Zaitsev — passaram a tratar o grupo CH₂OH como um radical denominado carbinol, descrevendo os álcoois como seus derivados substituídos, como metilcarbinol, etilcarbinol e trimetilcarbinol. Vladimir Markovnikov difundiu essa terminologia, que foi incorporada à química orgânica alemã e consolidada em livros didáticos por autores como Wilhelm Rudolph Fittig e Adolf von Baeyer nas décadas de 1880 e 1890.

Apesar de sua utilidade inicial para a classificação de álcoois simples, esse sistema mostrou-se inadequado diante da crescente diversidade estrutural revelada pelo avanço da química orgânica no século XIX. A criação da IUPAC, em 1919, e o desenvolvimento de sistemas de nomenclatura progressivamente mais abrangentes tornaram o uso do carbinol desnecessário fora de seu contexto histórico.

Conhecer a história da química e acompanhar a evolução da nomenclatura é essencial para promover uma comunicação científica clara e precisa. Como químicos e professores, temos a responsabilidade de utilizar e incentivar uma linguagem atualizada, contribuindo para o avanço do conhecimento científico.


Fonte: Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, Professor Titular de Química – UFMG



Contador de visitas