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Boletim Eletrônico Nº 1685 - 05/03/2026




49ª RASBQ

Workshop para estudantes e docentes marca a estreia do Núcleo de Inclusão e Diversidade na programação da RASBQ


Em seu primeiro ano de docência na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), no campus de Cruz das Almas, a professora Jacira Teixeira Castro teve um aluno paraplégico em uma disciplina prática. Como o laboratório ficava no primeiro andar – e o elevador vivia quebrado – a dificuldade começava antes mesmo de a aula começar. Os amigos precisavam ajudar a carregar o colega na cadeira de rodas antes e depois da aula. Mas esse não era o único problema: as bancadas eram projetadas para que os estudantes trabalhassem nelas em pé, ou sentados em bancos altos, tarefas impossíveis para o aluno usuário de cadeira de rodas.

A professora Jacira então improvisou: pegou a mesa do professor que havia no laboratório – mais baixa que as bancadas – e adaptou para que o aluno pudesse realizar os experimentos ali. "Essa minha primeira experiência com um aluno com deficiência foi determinante para que eu voltasse meu olhar para essas pessoas", recorda. Hoje, credenciada no Programa de Pós-Graduação em Educação Científica, Inclusão e Diversidade da UFRB, ela coordena uma linha de pesquisa que tem o objetivo de realizar uma análise dos recursos de Tecnologia Assistiva (TA) para os laboratórios de Química que foram desenvolvidos nas universidades e institutos federais nos últimos 10 anos. Ela também leciona na graduação do curso de Engenharia de Tecnologia Assistiva e Acessibilidade, que é pioneiro no Brasil, sendo o primeiro curso de graduação na área.

Profa. Jacira Teixeira Castro (UFRB): Projeto visa mapear e disseminar recursos de tecnologia assistiva

"A inclusão de pessoas com deficiência é um assunto que me toca muito. Ao longo da minha trajetória tive alunos – na graduação e na pós – com deficiência visual, autistas, e alunos com deficiência auditiva (usuários de libras)", conta a docente. "Minha motivação para pesquisar vem daí: como garantir que este aluno tenha acesso ao aprendizado."

O projeto de pesquisa que apresentará no Workshop "Química da Inclusão: Diversidade e Acolhimento como Estratégias para o Presente e Futuro da SBQ", na 49a RASBQ, visa fazer um mapeamento dos recursos de tecnologia assistiva que foram produzidos no Brasil nos últimos anos. São recursos como tabelas periódicas em braile ou com sonorização, balanças adaptadas para comando de voz e dezenas de outras ideias transformadas em realidade em alguma sala de aula no país.

"A inclusão beneficia todas as pessoas, independentemente de terem deficiência ou não. No Workshop vou dar ênfase à atitude dos professores, à importância de estarem atentos às questões de acessibilidade. Isso está muito ligado à questão da empatia e da forma como vamos nos comunicar com as pessoas com deficiência. As pessoas são diferentes. O que é bom para uma, pode não ser bom para outra", afirma.

O Workshop marca a estréia do Núcleo de Inclusão e Diversidade na programação da RASBQ. O grupo foi criado no ano passado, com o objetivo de promover a inclusão de pessoas vítimas de discriminações variadas: racial, de gênero, de condição física, e todos os tipos de preconceitos que gravitam em torno de populações desassistidas.

No período da manhã serão realizadas palestras abordando questões de gênero e sexualidade, raça, e acessibilidade. O período da tarde se inicia com a apresentação de iniciativas e projetos de inclusão e diversidade, seguidas de uma roda de conversa para ouvir as pessoas participantes sobre suas experiências relacionadas aos temas debatidos nas palestras.

Profa. Daniela Santos Assunção (UFAL): "O debate sobre inclusão e diversidade perpassa todas as esferas da SBQ. É um tema transversal. Não podemos seguir em uma academia tão fria que não se sensibilize com essa questão"

"O debate sobre inclusão e diversidade perpassa todas as esferas da SBQ. É um tema transversal", afirma a professora Daniela Santos Anunciação (UFAL), química analítica e uma das coordenadoras do NID-SBQ. Ela explica que o Núcleo decidiu estruturar o workshop em dois momentos distintos. "O Workshop terá uma abordagem humanizada. Haverá o letramento, e o acolhimento. O letramento é para todas as pessoas – não podemos seguir em uma academia tão fria que não se sensibilize com essa questão".

Além da Professora Jacira, participarão o professor Marcone Augusto Leal de Oliveira (UFJF), químico analítico com um vasto trabalho na questão do letramento racial, e a bióloga Alice Pagan (UFMT), mulher trans, especializada na questão de gênero. Para mediar o workshop, o NID-SBQ convidou a psiquiatra Tania Maron Freire de Mello (Unicamp), integrante da Comisão Assessora para Políticas de Combate à Discriminação Baseada em Gênero e/ou Orientação Sexual e Prevenção ao Assédio e Violência Sexual na UNICAMP.

Profa. Clascidia Furtado (CDTN), com sua filha Maria Júlia, usuária de libras: "A gente costuma só perceber essas questões quando estão próximas. Por isso o letramento é tão importante. Precisamos aprender a lidar com pessoas e situações"

"Estamos muito animadas com essa primeira ação do NID na RASBQ", pontua a professora Clascidia Furtado, do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN/CNEN), também coordenadora do NID. Mãe de Maria Júlia, uma menina com deficiência auditiva e usuária de libras, a professora Clascidia destaca a importância do letramento para todas as pessoas. "A gente costuma só perceber essas questões quando estão próximas. Por isso o letramento é tão importante. Precisamos aprender a lidar com pessoas e situações."

Prof. Edson dos Anjos (à direita), com sua família: o marido César Augusto, a filha Alice e o filho Benício: "A partir da visibilidade de temas como esse, a gente começa a ter uma mudança cultural"

O professor Edson dos Anjos (UFMS), outro coordenador do NID, reforça a importância de uma mudança de cultura a partir do letramento das questões de discriminação. "Nosso objetivo é que as pessoas tenham conhecimento para conversar com alguém com liberdade, dignidade e respeito, sem o risco de ofender. A partir da visibilidade de temas como esse, a gente começa a ter uma mudança cultural", avalia.

Anjos é casado há 22 anos com o produtor rural César Augusto Castello Branco Junior, e pai de Alice e Benício. "Eu vi e vivi muitas situações de preconceito e violência. Quando estava em ambiente hostil, eu preferia ficar quieto, ou pisando em ovos. Mas a partir do NID-SBQ, entendi a importância de me posicionar."


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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