49ª RASBQ
Comitê JP-SBQ discute a falta de políticas públicas para jovens pesquisadores
Sessão temática terá representantes do CNPq e da CAPES, e um doutor recém repatriado
Diferentemente de alguns países desenvolvidos, o Brasil ainda engatinha em políticas públicas para jovens pesquisadores. É comum que doutores recém-titulados não encontrem vagas de trabalho nas universidades ou em institutos de pesquisa. Os concursos para docência são poucos, e os estágios de pós-doc não oferecem segurança nem uma perspectiva firme de ascensão na carreira. Nesse cenário, alguns migram para o exterior, alguns migram para as regiões sul e sudeste do Brasil – onde as fundações estaduais de amparo à pesquisa oferecem oportunidades melhores – e muitos simplesmente desistem da carreira científica. Na Química, um reflexo preocupante é a queda na procura pela pós-graduação. De 2020 a 2024, houve uma redução de 15% no número de matriculados nos PPGQs.
Para discutir essa situação, o Comitê Jovens Pesquisadores SBQ realizará, na 49a RASBQ, a Sessão Temática "Repatriação e fixação de cientistas no Brasil", com a presença do Assistente da Diretoria Científica do CNPq, Prof. Marlon José de Lima, o jovem doutor Alex da Silva Lima (UFRJ), e a professora Clésia Cristina Nascentes (UFMG), coordenadora adjunta para programas acadêmicos da área de Química da CAPES.
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Prof. Francisco Luan Fonsêca da Silva (UECE) com alunos do Grupo de Micronutrientes e Doenças Crônicas: "O jovem pesquisador hoje no Brasil vive uma situação precária. Quando consegue passar em concurso, chega na universidade, mas não tem recursos para montar seu laboratório"
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"O jovem pesquisador hoje no Brasil vive uma situação precária. Quando consegue passar em concurso, chega na universidade, mas não tem recursos para montar seu laboratório. Muitas vezes, ele é o único docente em determinada área da Química dentro da universidade, e sua pesquisa acaba interrompida. Outras vezes acaba atuando como um pós-doc de luxo dentro de algum grupo existente, em outra área. Precisamos ter políticas públicas para financiar o início da carreira do pesquisador", avalia o professor Francisco Luan Fonsêca da Silva (UECE), coordenador do Comitê JP-SBQ.
Como consequência dessa falta de investimento, Fonsêca descreve duas diásporas de jovens pesquisadores: os que deixam o Brasil para oportunidades no exterior, e os que deixam as regiões mais remotas para oportunidades no Sul/Sudeste, onde Fapesp, Faperj, Fapemig e Fapergs têm editais específicos para jovens pesquisadores. Ele critica o programa Programa de Repatriação de Talentos Conhecimento Brasil, do CNPq , que oferece mil bolsas de 13 mil reais, por quatro anos, para que pesquisadores que estão fora do país, retornem.
"É um investimento grande que não garante que estes pesquisadores permanecerão no Brasil depois dos quatro anos. Além disso, ignora a questão da fixação dos jovens doutores que estão nas regiões mais carentes do Brasil", argumenta.
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Profa. Clésia Cristina Nascentes (UFMG) com professoras e alunos do Laboratório de Química Analítica e Ciências Forenses: "Formamos poucos doutores e não conseguimos absorvê-los com remuneração e valorização adequada"
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Uma mudança na legislação muito aguardada pelos jovens pesquisadores no Brasil é a proteção previdenciária a bolsistas de pós-graduação e pós-doc. Existe um projeto de lei submetido ao Congresso em 2013 (PL 6894/2013) nesse sentido, mais recentemente fortalecido pela inclusão do PL 974/2024, que propõe essa proteção para mestrandos, doutorandos e pós-docs, o que permitiria que jovens pesquisadores pudessem usufruir de direitos previdenciários como salário maternidade, auxílio doença, as licenças maternidade e paternidade, além de contar para o tempo de aposentadoria.
"Essa é uma discussão que fazemos na CAPES, e tenho esperança de que esses projetos avancem, porque precisamos valorizar a atividade de pesquisa no Brasil", afirma a professora Clésia Nascentes. Na sessão temática do Comitê JP-SBQ, ela apresentará dados sobre a titulação, empregabilidade e a remuneração de mestres e doutores. "Em linhas gerais, posso dizer que nos últimos anos apenas 60 a 70% dos mestres e doutores estão em empregos formais. Dos que estão em empregos formais, cerca de 75% estão em instituições de ensino e pesquisa (considerando a área de ciências exatas).
"Em comparação a outros países, formamos poucos doutores – em torno de 10 por 100 mil habitantes, aproximadamente um terço da média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). E não estamos conseguindo absorvê-los com remuneração e valorização adequadas", avalia a docente.
Ela entende que as novas diretrizes de avaliação dos programas des pós-graduação, pelas quais cada curso deve definir sua missão considerando a realidade local, e se aproximar da sociedade, pode ajudar na empregabilidade dos doutores no setor privado, no médio prazo. "Nossa formação ainda é muito voltada para o meio acadêmico, mas acredito que essas mudanças vão surtir efeito daqui a alguns anos, e provavelmente teremos mais doutores aptos à trabalhar para o setor produtivo privado."
A sessão temática "Repatriação e fixação de cientistas no Brasil" será coordenada pela Professora Juliana Christina Thomaz (UFRGS) e o Professor Rodolfo Goetze Fiorot (UFF), além do Prof. Fonsêca.
Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)
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