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Boletim Eletrônico Nº 1688 - 26/03/2026




49ª RASBQ

Razão, paixão e prazer no trabalho: a fórmula do Prof. PC Vieira


O professor Paulo Cézar Vieira (FCFRP-USP) tem ainda frescas na memória as tardes que passava na Biblioteca do Instituto de Química da USP, na segunda metade dos anos 70, devorando os calhamaços impressos de Chemical Abstract, na época o grande banco de dados da Química. Ele fazia mestrado em Química dos Produtos Naturais, sob a orientação do Prof. Otto Gottlieb. Os volumes chegavam semanalmente, com três meses de atraso em relação à publicação original nos EUA ou na Europa, e eram a única maneira de um pesquisador manter-se atualizado sobre os avanços da ciência.

"Se hoje existem dificuldades para estudantes e pesquisadores, naquela época havia muito mais. Ainda assim, fazer ciência era divertido e eu me sentia estimulado pelos obstáculos. Hoje, com a internet, manter-se atualizado e pesquisar informações publicadas ficou muito mais fácil. Mas será que isso serviu para que os jovens se sintam mais estimulados em seus estudos?", reflete.

Prof. PC Vieira (de camiseta azul, próximo à mesa) com alunos e colegas do NPPNS: ambiente para transformar revezes em desafios

Na 49ª RASBQ (15 a 18 de junho, em Campinas), o Prof. Vieira fará uma conferência sobre as múltiplas competências e desafios envolvidos na investigação científica, com base em exemplos de sua longa e bem-sucedida carreira e com foco nos aspectos da razão, da paixão e do prazer no trabalho.

A paixão pela Química é algo tão forte no Prof. Vieira, que depois de aposentar-se com 36 anos de dedicação à UFSCar, ele voltou a pesquisar a lecionar, primeiro como professor visitante, depois como professor titular concursado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto. Agora, no Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais e Sintéticos (NPPNS), ele mantém orientações a alunos de IC, mestrado e doutorado.

Em seu trabalho, ele usa técnicas analíticas para estudar moléculas orgânicas. "Atualmente tenho me interessado por estudos de frutos comestíveis que produzem altos teores de proteases, como mamão, abacaxi, caqui e figo", conta. Experimentos mostram que proteases servem de proteção para a planta, contra herbivoria e infecções. "Nosso princípio é que se um fungo consegue infectar um fruto que tem alto teor de protease, ele pode ter mecanismo de se proteger da ação dessas proteases. Então coletamos as plantas, deixamos apodrecer, isolamos os fungos e estudamos a parte química desses fungos, sempre buscando encontrar e isolar substâncias inibidoras de proteases."

O Prof. Vieira explica que existe uma classe de protease, as catepsinas, que tem vários papéis fisiológicos para os seres humanos. Quando elas estão desbalanceadas, causam problemas de saúde. Uma das mais conhecidas, a catepsina K, se relaciona com doenças ósseas, como osteoporose e artrite. "Se você controla a enzima, pode controlar também os processos de doenças."

Na época de sua pós-graduação, o estudo dos produtos naturais era basicamente a busca da compreensão da função de metabólitos secundários – compostos presentes nos organismos vivos, não diretamente ligados à sobrevivência do organismo. "Na escola do Prof. Otto, nossa primeira ideia era conhecer a química de plantas. Ele conseguiu correlacionar essas substâncias com aspectos evolutivos de plantas, estudou os tipos de estrutura, e desenvolveu a quimiotaxonomia", recorda o Prof. Vieira.

Outro aspecto que o Prof. Vieira – o PC como é conhecido pelos amigos – é o prazer e o bom humor no ambiente de trabalho. "Uma das coisas muito importantes na vida da gente como formador é como nos relacionamos com colegas e alunos. Eu sempre procurei criar ambientes aconchegantes, que tornem os fracassos, desafios. Muitas vezes precisamos parar para encontrar uma outra solução, um outro caminho, e isso não pode contaminar o grupo. Ao contrário, temos que ter prazer em buscar soluções às vezes mais complicadas", observa.

Na 49ª RASBQ o Prof. Vieira também será agraciado com a Medalha JBCS - Journal of the Brazilian Chemical Society –, publicação da qual ele foi editor associado e coordenador. "Foi um desafio tremendo. O JBCS tem uma visibilidade muito grande, e compete com grandes revistas internacionais da área de química. Sobrevivemos graças ao trabalho altruísta de muita gente e dos autores que acreditaram no JBCS", assinala.

Ele faz questão de destacar sua trajetória na SBQ. Associado há décadas, ele foi presidente por dois mandatos (2002 a 2006) e cumpriu muitas outras funções na Sociedade. "A SBQ faz parte da minha trajetória científica. Devo muito a ela, e estou gostando muito de ver a chegada da nova geração à SBQ. Todo esse movimento é muito bom."


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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