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Boletim Eletrônico Nº 1688 - 26/03/2026




DESTAQUE

Educação, poder e desigualdade: quatro séculos após Richelieu


A educação pública brasileira avança, mas segue marcada por desigualdades. O acesso ao ensino de qualidade ainda é restrito, e valorizar professores e investir nas escolas é urgente.

A relação entre educação, desigualdade e poder não é nova. No século XVII, o cardeal Richelieu já afirmava: "Assim como um corpo que tivesse olhos em todas as suas partes seria monstruoso, da mesma forma um Estado o seria se todos os seus súditos fossem sábios." Essa metáfora expõe uma dura realidade histórica: o conhecimento foi, e muitas vezes ainda é, visto como ameaça ao controle político, por tornar as pessoas menos obedientes e mais críticas. O debate sobre educação pública e desigualdade social, tão presente na mídia brasileira nas últimas décadas, insere-se nessa longa tradição de tensões entre o acesso ao conhecimento e a distribuição do poder na sociedade.

Essa tensão persiste no Brasil atual. Apesar da universalização do ensino há décadas, muitos brasileiros de baixa renda ainda sentem que a educação de qualidade não é para eles. Falo disso a partir de experiência pessoal: estudei em escolas públicas desde a década de 1960. Em 1974, ao optar pelo então chamado ensino científico, enfrentei resistência familiar. Para minha mãe, assim como para muitas famílias trabalhadoras, esse caminho era privilégio dos filhos de famílias ricas — um atalho para a universidade. Ela acreditava que, por sermos pobres, deveríamos seguir carreiras mais "práticas" e rápidas, como contabilidade ou o curso normal (no caso das meninas). Essa percepção refletia um sentimento coletivo ainda presente em muitos setores da sociedade, que limita as expectativas educacionais de famílias humildes e dificulta a inserção plena de seus filhos na universidade pública de qualidade.

Quase quatro séculos depois de Richelieu, o Brasil formalmente adotou o princípio oposto: o acesso à educação é direito de todos, e o ensino médio tornou-se etapa obrigatória da formação escolar. No entanto, os dados revelam que essa promessa ainda está longe de ser plenamente realizada. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2024, cerca de 72,6% dos universitários brasileiros cursaram todo o ensino médio em escolas públicas — avanço importante que demonstra a presença crescente da rede pública no ensino superior. Entretanto, aproximadamente 74% desses estudantes frequentam instituições superiores privadas, enquanto apenas cerca de 26% estão em universidades públicas federais, estaduais ou municipais.

Nas universidades públicas, a Lei de Cotas, em vigor desde 2012, reservou metade das vagas a estudantes oriundos da escola pública, ampliando de forma significativa sua participação. A Unicamp, por exemplo, já registra cerca de 46% de ingressantes com esse perfil, enquanto, na UFMG, esse percentual chega a aproximadamente 59%. Esses números evidenciam avanços importantes no acesso, mas não eliminam as desigualdades estruturais do sistema educacional. Cursos de maior prestígio social, como Medicina, Engenharia e Direito, continuam sendo ocupados majoritariamente por estudantes provenientes das elites, reflexo de trajetórias escolares desiguais que começam muito antes do vestibular e se prolongam nos desafios de permanência e sucesso acadêmico. Esse quadro também remete à situação vigente no século XIX, quando o país ainda não possuía universidades plenas, mas apenas escolas superiores isoladas, e essas três áreas constituíam praticamente as únicas aspirações acadêmicas dos filhos da elite.

Essa desigualdade é reforçada pelas condições dos professores, atores centrais em qualquer processo de transformação educacional. O piso salarial nacional para professores da educação básica pública situa-se hoje em torno de cinco mil reais mensais para uma jornada de 40 horas semanais — valor que, embora represente uma conquista importante, ainda está distante da valorização profissional necessária para atrair e manter talentos na carreira docente.

O resultado é a formação de um ciclo que tende a reproduzir desigualdades sociais. A escola pública de qualidade insuficiente prepara apenas uma parcela reduzida de estudantes para disputar vagas nos cursos mais prestigiados, que, por sua vez, formam os futuros líderes políticos, profissionais de maior prestígio social e quadros dirigentes da sociedade. Grande parte dos estudantes da rede pública acaba direcionada a cursos menos concorridos e a profissões menos valorizadas economicamente, perpetuando desigualdades históricas. As políticas afirmativas, apesar de seus avanços, também enfrentam desafios importantes, como a necessidade de apoio acadêmico, assistência estudantil e políticas de permanência, demonstrando que a inclusão não se realiza apenas no momento da matrícula, mas também ao longo da trajetória universitária.

O Brasil vive, assim, uma versão contemporânea da lógica evocada por Richelieu: o conhecimento mais transformador — e o poder social que dele decorre — permanece concentrado em uma parcela relativamente privilegiada da população, não mais por imposição legal explícita, mas por desigualdades estruturais que atravessam todo o sistema educacional.

Para que a educação deixe de funcionar como instrumento de reprodução das desigualdades e se torne efetivamente um motor de mobilidade social, é indispensável valorizar os professores, investir de forma consistente na qualidade da escola pública e fortalecer políticas de inclusão e permanência em todos os níveis de ensino. Somente assim o "corpo" do Brasil deixará de ser "monstruoso" por carecer de olhos atentos em todas as suas partes, tornando-se um organismo mais pleno, crítico e capaz de construir um futuro coletivo mais justo. Muitos estudantes oriundos da escola pública já demonstraram, ao longo das últimas décadas, que a educação pode ser instrumento poderoso de superação mesmo em contextos adversos. O desafio que se coloca para o país é fazer com que essas trajetórias deixem de ser exceção e passem a constituir uma realidade cada vez mais comum na sociedade brasileira.


Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
é professor titular de Química da
Universidade Federal de Minas Gerais



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