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Muito além do que se vê
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A série "See" (2019-2022), disponível na Apple TV+, é ambientada em um futuro pós-apocalíptico em que um vírus dizimou a humanidade e deixou os sobreviventes cegos. Com esse breve plano de fundo, vamos fazer uma rápida reflexão. A sociedade em que vivemos estaria preparada para um futuro assim? O que aconteceria se, subitamente, você, leitor, ficasse sem a visão? Ou, em algo menos distópico, o vestido era azul e preto ou branco e dourado? A identificação de cores também pode acarretar muitas complicações e dificuldades.
No Brasil, o Decreto Nacional nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, define que a pessoa portadora de deficiência é aquela que apresenta perda ou anormalidade permanente de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade cotidiana. De maneira mais específica, a deficiência visual, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode ser classificada em cinco níveis, de acordo com o grau de acuidade no melhor olho do indivíduo. Essas categorias variam da deficiência visual de perto à cegueira.
No quadro abaixo, uma acuidade visual sem deficiências é indicada como 6/6. A acuidade de 6/18 significa que, a 6 metros do gráfico de visão, uma pessoa com deficiência consegue ler uma letra que alguém sem deficiência seria capaz a 18 metros. Segundo a Portaria nº 3.128, de 24 de dezembro de 2008, do Ministério da Saúde, é considerada portadora de deficiência visual quando apresenta acuidade visual corrigida no melhor olho menor que 0,3 (20/60 ou 6/18) e maior ou igual a 0,05 (20/400 ou 3/60).
Classificação da gravidade da deficiência visual com base na acuidade visual no olho melhor
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Fonte: OMS, 2021.
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Quanto à acuidade para identificar cores, estamos falando do daltonismo (discromatopsia ou discromopsia). Segundo a OMS, o daltonismo é uma deficiência da acuidade visual que afeta a percepção das cores. Essa condição afeta os cones presentes na retina e é relacionada ao cromossomo X; assim, é genética e hereditária. As mais comuns são a deuteranopia, dificuldade em enxergar a cor verde (enxergando tons marrons); a protanopia, com a cor vermelha (tons de vermelho e verde se tornam semelhantes); dentre outras.
Segundo levantamento da OMS, há aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas no mundo com algum grau de deficiência visual; entre 36 e 39 milhões são cegas e 300 milhões são daltônicos (OMS, 2021). Para essas pessoas, existem leis que garantem sua inclusão na sociedade e estabelecem acessibilidade obrigatória, como, por exemplo, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015).
Há três ferramentas básicas de acessibilidade comunicacional e de relações pessoais que fazem parte da inclusão das pessoas com deficiência visual: o Braille (oficializado mundialmente em 1843), a autodescrição (cor de pele, gênero, cabelos, o que está vestindo…) e a audiodescrição (descreve cenários, fotos/imagens, figurinos, expressões faciais e corporais, movimentos, e tudo mais que estiver enquadrado em cena).
No entanto, no contexto da química, precisamos pensar em ações mais específicas, pois toda a estrutura da área foi concebida para pessoas sem deficiência ou condição genética. Novamente, vamos fazer um exercício de reflexão: Uma aula introdutória usual nos cursos de química envolve a realização de titulação ácido-base com uso de indicadores que mudam de cor ao alcançar o ponto de viragem. Como um estudante com baixa acuidade visual ou daltonismo poderia ter êxito nessa aula se o contexto, por si só, impossibilita a realização plena da aula, sem auxílio de colegas?
O suporte por equipamentos pode ser uma alternativa (espectrofotômetros, potenciostatos etc.). Contudo, não basta adaptarmos; temos que pensar desde o projeto pedagógico do curso, bem como o planejamento dessas práticas para que sejam inclusivas.
Pequenos gestos cotidianos
No nosso cotidiano, podemos inserir diversos pequenos gestos que promovem a inclusão ativa de pessoas deficientes visuais (pdv) em seus vários níveis. Alguns deles são:
- Quando for se aproximar e dirigir a palavra a uma pessoa cega, fale seu nome;
- Se estiver em um grupo com outras pessoas, identifique-se algumas vezes, pois a pessoa não consegue associar sua voz de imediato;
- Quando for se autodescrever, faça em uma ou duas frases; fale os pontos essenciais sobre sua aparência;
- Se estiver numa apresentação formal, além do seu nome, diga brevemente o cargo que ocupa e uma breve autodescrição;
- Se for ajudar a pessoa a se locomover, não a puxe pelo braço. Pergunte se ela prefere segurar no braço seu braço ou no seu ombro;
- Não se ofenda caso sua ajuda seja negada. Se a pessoa cega percebe que pode realizar a ação sozinha, deixe-a e não insista (cuidado com o capacitismo);
- Quando estiver conversando e for sair, avise;
- Em textos, evite uso de caracteres no meio de palavras que não são lidos corretamente por leitores de tela (como o uso de TOD@S, por exemplo);
- Para um público com níveis mais brandos de deficiência visual, em apresentações e textos, use tamanho de letra apropriado, evite fontes manuscritas altamente elaboradas e com arabescos, e use alto contraste de cores.
Estas são algumas práticas cotidianas de empatia que contribuem para a inclusão de pessoas com deficiência visual, em seus vários níveis, em ambientes, fortalecendo a comunicação e as relações interpessoais. A SBQ, através do NID, incentiva e contribui com a construção e desenvolvimento de uma Sociedade consciente, inclusiva, abrangente e acolhedora.
Fontes:
Glaucia Ribeiro Gonzaga e Caio Henrique Pinke Rodrigues
Equipe de Mídias & Design
NID-SBQ
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