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Boletim Eletrônico Nº 1694 - 07/05/2026




49ª RASBQ

A cruzada de Imee Martinez contra o ressurgimento das armas químicas


Em 1915, substâncias químicas começaram a ser empregadas como armas de grande escala, quando as tropas da Alemanha posicionaram cilindros de cloro ao longo da linha de batalha, e liberaram 150 toneladas do gás quando o vento soprou em direção às tropas francesas e canadenses. Por mais de um século, centenas de países desenvolveram armas químicas diversas e acumularam estoques que, oficialmente, foram neutralizados em 2023, depois de um intenso trabalho da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

"As armas químicas são usadas há gerações e estão profundamente enraizadas na mentalidade das pessoas. A acessibilidade a esses produtos químicos, presentes no cotidiano, torna-os ainda mais suscetíveis ao uso indevido. A natureza dual das substâncias químicas permite que sejam facilmente transformadas de aliadas em inimigas. A bússola ética dos profissionais da área química é, portanto, essencial para garantir que a dualidade da química seja respeitada e que o uso pacífico dos produtos químicos seja preservado", afirma Imee Su Martinez, professora e pesquisadora do Instituto de Química da Universidade das Filipinas, e ex-integrante do Comitê Consultivo Científico da OPAQ (e ex-coordenadora do conselho).

Profa. Imee Su Martinez (Universidade das Filipinas e OPAQ): "A natureza dual das substâncias químicas permite que sejam facilmente transformadas de aliadas em inimigas. A bússola ética dos profissionais da área química é, portanto, essencial para garantir que a dualidade da química seja respeitada e que o uso pacífico dos produtos químicos seja preservado"

Ela é uma das conferencistas convidadas da 49a Reunião Anual da SBQ. "Vou falar sobre a natureza dual da química sob a perspectiva da guerra química na história da humanidade, e sobre o caminho para prevenir o ressurgimento das armas químicas, por meio da vigilância cuidadosa da ciência e da tecnologia relacionadas e, principalmente, por meio da conscientização e da educação, incutindo uma consciência química em cada químico", adianta.

"Imee é uma referência em segurança química e tem atuado ativamente nesse tópico tanto no seu país quanto no cenário internacional, contribuindo muito com a OPAQ", afirma a Professora Elisa Orth (UFPR), secretária-geral da SBQ, e também participante do Comitê Científico da OPAQ (atualmente vice-coordenadora), onde conheceu Imee. "Ela é uma pessoa querida, muito acessível, jovem e fortemente engajada em promover mulheres na ciência. Será uma grande honra contar com sua presença na RASBQ e sei que ela inspirará muitas pessoas."

Como decorrência da Convenção sobre Armas Químicas, a OPAQ foi criada em 1997, e ratificada pelo Brasil em 1999. Por mais de duas décadas inspecionou e supervisionou a neutralização dos estoques dos países afiliados – Coréia do Norte e Egito são alguns países que não assinaram. Israel assinou, mas não ratificou. O objetivo atual da OPAQ é prevenir o ressurgimento dessas armas e garantir a universalidade do tratado.

Nesse sentido, a vigilância da ciência é crucial. "Produtos químicos de dupla utilização, que são produtos químicos de uso comum e, ao mesmo tempo, precursores de armas químicas ou precursores de precursores de armas químicas, devem ser monitorados. As tecnologias sob vigilância são aquelas que podem aumentar o risco de ressurgimento. Estas podem ter contribuição direta para a síntese e produção de armas químicas, disseminação e armazenamento, entre outros", declara a Profa. Imee.

Embora as armas químicas tenham sido oficialmente neutralizadas, não é raro que surjam denúncias sobre seu uso em conflitos mundo afora. "Não tenho informações de que substâncias químicas listadas no anexo da convenção tenham sido usadas em áreas de conflito atualmente. No entanto, relatórios do TAV da OPCW, de fevereiro de 2025, relataram o uso de CS, um agente de controle de distúrbios (ACD), na região de Dnipropetrovsk, que é uma das linhas de confronto na Guerra da Ucrânia. Isso contraria a convenção, que proíbe o uso de qualquer substância química, incluindo ACDs, em guerras entre países", observa a pesquisadora.

Seu trabalho na OPAQ teve caráter voluntário. Na universidade, sua pesquisa gira em torno da química de superfícies, caracterizando moléculas em em interfaces usando técnicas específicas de superfície. "A rigor, sou uma acadêmica. No entanto, acredito firmemente na importância da Convenção sobre Armas Químicas para garantir a segurança da próxima geração. A guerra química está profundamente enraizada em nossa história, e os produtos químicos são bastante acessíveis, tornando a ameaça de ressurgimento uma constante. Isso é particularmente provável em incidentes não entre países, mas em pequenos estados como o meu, onde há constantes conflitos internos, e a legislação que ampara a Convenção sobre Armas Químicas ainda é muito recente."

Seu trabalho na OPAQ começou em 2015. "O motivo pelo qual fui selecionada para participar do programa provavelmente foi meu trabalho anterior na pós-graduação sobre a detecção de agentes nervosos, e meu trabalho passado e presente sobre fosfatos, líquidos iônicos, aerossóis, compostos regulamentados e outros materiais pertinentes à convenção", explica. Sou eternamente grata à OPAQ por ampliar meus horizontes sobre minha amada química."

Será a primeira visita de Imee ao Brasil. "Espero encontrar químicos com ideias semelhantes e inspirar jovens, especialmente mulheres, a abraçarem esta cruzada pelo uso pacífico da química. Cada contribuição, por menor que seja, é importante para libertar a humanidade das armas químicas."

*As declarações aqui apresentadas são opiniões pessoais da Profa. Imee, e não representam a visão da OPAQ.


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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