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Entre Fórmulas e Sinais: A Inclusão de Estudantes Surdos e com Deficiência Auditiva no Ensino de Química
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Você alguma vez já ouviu a expressão: "a vida dos surdos deve ser triste e imersa em um profundo silêncio, pois não dá para se comunicar, ouvir músicas, ir ao cinema..." Esta é uma percepção equivocada e capacitista de quem ainda possui conhecimento limitado acerca das pessoas com deficiência, sobretudo das pessoas surdas ou com algum grau de deficiência auditiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a deficiência auditiva e a surdez referem-se a diferentes graus de perda na capacidade de ouvir, impactando a comunicação e a interação social. A OMS foca na funcionalidade auditiva, utilizando decibéis (dB) para classificar a gravidade.
É importante ter em mente que as expressões "surdo-mudo" e "deficiente auditivo" são consideradas inadequadas e ofensivas pela comunidade surda. Além de capacitistas, são conceitualmente erradas, já que os surdos não são necessariamente mudos. Muitos são oralizados e/ou falantes de línguas de sinais. O ideal é utilizar os termos "surdo" ou "pessoa com deficiência auditiva". A diferença entre os dois reside na intensidade da perda e, sobretudo, na identidade cultural.
Pessoas surdas apresentam perda auditiva profunda (pouco ou nenhum resíduo auditivo) e, em sua maioria, se comunicam através da Língua Brasileira de Sinais (Libras), sendo esta a sua primeira língua e o português escrito como segunda língua (para as pessoas que foram alfabetizadas também em língua portuguesa). Vale ressaltar que Libras é uma língua e não uma linguagem. Pode-se dizer que é a "língua" da comunidade surda, sendo a segunda língua oficial do Brasil e reconhecida por Lei específica (Lei nº 10.436/2002) e possuindo estrutura gramatical própria, distinta da língua portuguesa.
Já as pessoas com deficiência auditiva apresentam lesão que varia de leve a severa, muitas vezes compensada pelo uso de aparelhos ou implantes cocleares, e podem, dependendo de fatores diversos, ter a Libras ou o português como primeira língua.
Mas e a identidade cultural? Bom, este termo refere-se à Cultura Surda, vivida por um público que vê o mundo por meio de experiências visuais e utiliza Libras como meio de comunicação. A cultura surda valoriza a identidade surda e possui valores, normas, produções artísticas e tradições bastante específicas, compartilhadas no universo surdo. É importante saber que as pessoas que utilizam Libras lutam pelos direitos linguísticos desta comunidade, preferem ser chamados de surdos independente do grau de perda auditiva.
A inclusão de pessoas surdas e com deficiência auditiva na sala de aula ou no laboratório exige uma comunicação proativa. Boas práticas envolvem ações como chamar a atenção previamente (aceno, toque suave no ombro ou piscar as luzes, por exemplo), manter o rosto bem iluminado e visível, falar de forma clara e não cobrir a boca, favorecendo a leitura labial. Caso não haja compreensão, evite gritar e opte por reformular a mensagem, utilizando linguagem simples ou recursos escritos para tornar a comunicação mais eficaz. Durante as aulas e/ou apresentações, presenciais ou virtuais, quando houver pessoas surdas, é imprescindível a interpretação em Libras. Ao usar vídeos em aula, prefira aqueles com janela em Libras, pois a transcrição das falas nem sempre garante a acessibilidade linguística para pessoas surdas. É importante ter em mente que nem todos os surdos foram alfabetizados em língua portuguesa. A Lei nº 10.436/2002 estabelece a obrigatoriedade do uso de Libras nos serviços públicos, especialmente nas áreas da educação e da saúde.
No último dia 14 de abril de 2026, foi aprovado o novo Plano Nacional de Educação (PNE), que, entre outros pontos, instituiu um conjunto de metas específicas e significativas para a educação bilíngue de surdos, por meio da Lei n.º 15.388/2026. Neste sentido, ações de acessibilidade como a presença de intérpretes de Libras, a tecnologia assistiva, o uso de metodologias pedagógicas adaptadas, a educação bilíngue, e o suporte do Núcleo de Acessibilidade e/ou Inclusão nas instituições são cruciais para garantir a equidade, o aprendizado, assim como visam garantir não apenas o acesso, mas a permanência e o sucesso acadêmico.
A Química, por muitas vezes utilizar conceitos abstratos e modelos teóricos, representa um desafio para estudantes surdos ou com deficiência auditiva. Assim, estratégias pedagógicas que valorizem a visualidade, como o uso de imagens, gráficos, vídeos com janela em Libras e mapas mentais, associadas à adaptação de termos técnicos para a língua de sinais, bem como atividades práticas, são essenciais para a aprendizagem.
Portanto, na prática, o ensino de Química para estudantes surdos ou com deficiência auditiva exige uma mudança de paradigma, passando da abordagem exclusivamente oral e escrita para uma prática altamente visual e bilíngue. A ausência de sinais em Libras para muitos termos químicos e conceitos abstratos — o que obriga professores e intérpretes a criarem sinais —, a dificuldade de traduzir conceitos químicos microscópicos e invisíveis para uma linguagem visual, além da necessidade de intérpretes qualificados e de maior capacitação dos professores de Química em educação inclusiva, constituem ainda grandes desafios a serem vencidos.
Por outro lado, destacam-se ações como o ensino bilíngue com apoio em Libras, a adaptação e divulgação de materiais didáticos visuais e sinalários de Química, o uso de recursos táteis e tridimensionais (tabelas periódicas e modelos moleculares) e a realização de experimentos com resultados visuais imediatos, a fim de tornar os conceitos químicos mais concretos e acessíveis.
De forma geral, as pessoas surdas são muito visuais. Portanto, é imprescindível o uso de recursos pedagógicos inclusivos para garantir o aprendizado deste público-alvo. É importante destacar também que, durante as aulas, deve-se reservar tempo para a Interpretação em Libras. Ao falar com o aluno surdo, olhe diretamente para ele e nunca para o intérprete. Garanta ambientes bem iluminados, pois uma boa iluminação permite a leitura labial e a visualização da língua de sinais. Seja paciente e esteja preparado para dedicar um tempo extra para garantir a compreensão completa.
Alguns institutos federais e universidades já possuem um núcleo específico para este público-alvo, como, por exemplo, os "Núcleos de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas", os quais acompanham, orientam e executam estratégias de inclusão. Sempre que receber um estudante com deficiência em sua sala de aula ou em seu laboratório, procure apoio e orientação dos núcleos especializados de sua instituição.
A partir do texto apresentado, surge a pergunta retórica: "De que forma a SBQ pode atuar como mediadora na inclusão de pessoas surdas ou com deficiência auditiva interessadas em Química, promovendo sua participação efetiva na sociedade? Será que estamos fazendo o suficiente? Será que podemos fazer mais?"
Marcone Oliveira, Jacira Castro e Olívia Sampaio
(Equipe de Workshop e Webinários do NID-SBQ)
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