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Boletim Eletrônico Nº 1702 - 16/07/2026




REPRESENTATIVIDADE

SBQ aprova moções em defesa da pesquisa e do ensino de Química


Textos têm o objetivo de impulsionar mudanças em políticas públicas, e serão entregues para autoridades

Duas moções importantes em defesa do ensino e da pesquisa em Química no Brasil foram aprovadas na última Assembleia Geral de Associados da SBQ, realizada no encerramento da 49a RASBQ, em Campinas. Uma moção alerta sobre a queda no número de bolsas concedidas pela CAPES e pelo CNPq, e outra diz respeito aos impactos negativos do novo ensino médio e da atual Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao ensino de química no ensino médio. As moções serão entregues a diversas autoridades e estarão presentes na comunicação da SBQ, com o objetivo de provocar mudanças na prática.

Integrantes do Workshop das Pós-Graduações em Química: "Redução das bolsas é sentido por todos os programas e afeta desproporcionalmente os programas mais antigos e de excelência"


Integrantes da Assembleia da Divisão de Ensino de Química: Menos aulas de Química e falta de infra-estrutura estão "apagando" a Química do Ensino Médio

"A aprovação de moções de peso como essas evidencia a importância da participação dos sócios da SBQ nos debates que dizem respeito ao fortalecimento da química como um todo. Iniciativas assim é que dão suporte à nossa representatividade", afirma o Prof. Fernando de Carvalho da Silva (UFF), presidente da SBQ. "Os sócios da SBQ são estudantes, professores e pesquisadores que vivem as dificuldades reais do dia a dia nas várias regiões do país e têm também essa responsabilidade de contribuir para melhorar as políticas públicas."

A questão da redução das bolsas já vem sendo tema de debate e preocupação no Workshop das Pós-Graduações há alguns anos, mas, em 2019, houve um corte maior, decorrente de mudanças nas regras da CAPES e do CNPq. "É um achatamento sentido por todos os programas e que afeta desproporcionalmente os programas mais antigos e de excelência", afirma a Professora Sabrina Baptista Ferreira, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Química da UFRJ.

O texto da moção – criado e redigido por participantes do Workshop de Pós-Graduação deste ano – relaciona a queda do número de bolsas à vulnerabilidade produtiva do Brasil e à dependência de mercados externos para produtos estratégicos.

"O complexo químico nacional enfrenta um processo contínuo de precarização. Observa-se a redução da produção doméstica, o aumento da dependência de insumos importados e a perda de competitividade frente aos produtos estrangeiros. Paralelamente, os investimentos em pesquisa vêm diminuindo significativamente, comprometendo o desenvolvimento tecnológico e a formação de profissionais especializados. A soberania nacional depende da capacidade de desenvolvimento científico e inovação tecnológica, sustentada por um sistema robusto de pós-graduação. Entretanto, a química tem sofrido forte redução no número de bolsas, especialmente em programas de excelência que historicamente formam profissionais para a indústria e apoiam a consolidação de novos cursos por meio de ações de solidariedade e colaborações", diz o texto.

Não é coincidência que, na semana passada, a rede CNN noticiou a preocupação da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) com a escassez de ácido fluossilícico no mercado, um produto utilizado na etapa de fluoretação da água. Insumos necessários à sua produção desapareceram devido ao prolongado conflito no Oriente Médio.

"Essa redução das bolsas tem tudo a ver com o que debatemos no simpósio 'Química e Soberania' na 49ª RASBQ. É preciso decidir qual Brasil queremos: um eterno exportador de commodities ou um exportador de tecnologia e inovação", pontua a Professora Claudia Rezende (UFRJ), vice-presidente da SBQ.

O documento pede a implementação de projetos estratégicos voltados para áreas como mineração, insumos farmacêuticos, energia e defensivos agrícolas, que promovam maior integração entre universidades e empresas por meio do financiamento de bolsas de pós-graduação. "Essa estratégia favorece a inserção de pós-graduandos na indústria nacional e direciona a pesquisa para desafios concretos do setor produtivo", afirma a moção. "Defendemos ainda a criação de mecanismos de cooperação entre programas de pós-graduação consolidados e programas em desenvolvimento, ampliando a participação dos pós-graduandos nos desafios nacionais."

O documento será assinado pela diretoria da SBQ e entregue ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e as secretarias responsáveis por ações de Ciência e Tecnologia dos Ministérios da Saúde, Educação, Defesa, Minas e Energia, Desenvolvimento Indústria e Comércio, Meio Ambiente, e outras instâncias de áreas estratégicas em que a Química tem papel crucial.

A segunda moção surgiu nos debates da Assembleia da Divisão de Ensino de Química e traduz uma conjuntura perigosa para a Química e, em geral, para as Ciências da Natureza.

"O que nos chama a atenção neste momento é o apagamento das disciplinas do campo das Ciências da Natureza no Ensino Médio público. A Química, no estado de São Paulo, por exemplo, reduz-se, em geral, a uma ou duas aulas semanais na 1ª e na 2ª séries, não havendo aulas dessa disciplina na 3ª série em grande parte dos itinerários ofertados no Ensino Médio. Isso se repete em outros estados, pois os currículos seguem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Além do reduzido número de aulas, as escolas, em geral, não dispõem de espaços adequados para atividades experimentais, tampouco de infraestrutura necessária para sua realização regular. Via de regra, faltam materiais e equipamentos didáticos especializados, além de apoio técnico para a manutenção desses espaços e para o auxílio durante as atividades" , denuncia o texto.

"Tal cenário tem consequências drásticas para a formação científica de nossos jovens, dificultando que desenvolvam uma leitura crítica do mundo, fundamentada em uma perspectiva científica. Esse cenário de precariedade também não tem contribuído para o engajamento e o encantamento dos estudantes pela ciência, refletindo-se nos baixos índices de interesse pelas carreiras científicas e pela docência na área das Ciências da Natureza.

É urgente e imperativa uma ampla revisão da BNCC e da Reforma do Ensino Médio, bem como da infraestrutura atualmente disponível nas escolas públicas, com vistas à retomada da valorização do conhecimento científico nos currículos e à formação de cidadãos críticos e conscientes dos problemas nacionais. Nenhum país é soberano sem uma educação científica rigorosa de seus cidadãos", conclui o texto.


Na visão do Professor Bruno Leite (UFRPE), ex-diretor da Divisão de Ensino de Química, essa depreciação da Química tem consequências graves na formação do aluno, na procura por cursos de graduação em Química e na carreira do professor de Química. "A Química está sendo escanteada, o cenário é extremamente preocupante", alerta. "Precisamos urgentemente fazer uma revisão da BNCC do chamado 'Novo Ensino Médio', mas precisamos também ter escolas públicas que tenham as mínimas condições - infraestrutura e materiais – para o professor de Química exercer a profissão."


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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