22º ENQA
Química analítica a serviço da sociedade
Uma área transversal e estratégica, essencial para o avanço do conhecimento e para o desenvolvimento da sociedade, fornecendo informações confiáveis que fundamentam a tomada de decisão, impulsionam a inovação e asseguram a qualidade de vida, a segurança e a sustentabilidade
Encontro reunirá mais de mil pesquisadores, docentes e estudantes em Maceió
De que vale todo o conhecimento científico de uma nação se parte de sua população ainda não tem acesso à água potável e é obrigada a beber água que pode estar contaminada? É imbuída do espírito de levar os benefícios da Química para a sociedade, que a professora Tereza Cristina Souza de Oliveira (UFAM) e seus alunos da Central Analítica no Laboratório de Análises de Água e Qualidade Ambiental (Laqua) têm feito expedições à cabeceira do Rio Negro, a alguns de seus tributários, como o Rio Marauiá, e ao arquipélago fluvial de Anavilhanas, para monitorar a presença de mercúrio nos sedimentos depositados no leito do rio.
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Profa. Tereza Cristina Souza de Oliveira (UFAM): Preocupação com níveis de mercúrio na bacia do Rio Negro, e capacitação de comunidades ribeirinhas para produzir equipamentos que filtrem água para consumo
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São áreas onde populações originárias e povos ribeirinhos vivem isolados, cercados pela floresta e pressionados pelo garimpo ilegal. "Embora algumas comunidades utilizem água de chuva e tenham poços rasos, o consumo de água diretamente retirada do rio faz parte da vida deles, dependendo da fase hidrológica", afirma a docente.
O mercúrio – que pode ser decorrente do garimpo e de outras fontes antropogênicas ou ocorrer naturalmente em ambientes aquáticos – se acumula nos sedimentos, depositando-se no fundo, e parte é transportada rio abaixo, em material particulado que fica em suspensão na água, e nos peixes, que são a principal fonte de alimentação das populações da região estudada.
"Detectamos a presença de mercúrio em praticamente todas as regiões estudadas. Embora ainda sejam níveis baixos, é preciso um monitoramento constante, pois as populações podem estar sendo envenenadas lentamente", alerta.
Um dos principais desafios da Professora Tereza (e de outros estimados 300 grupos de pesquisa em química analítica no Brasil) é realizar medidas in situ com eficácia. "A miniaturização dos dispositivos, mantendo a sensibilidade e a qualidade da análise, é motivo de muita pesquisa hoje no Brasil e no mundo. Nesse sentido, temos no Brasil o trabalho pioneiro do professor Emanuel Carrilho (IQSC-USP) e do professor Wendell Coltro (UFG), que foi seu aluno", conta a professora Daniela Santos Anunciação (UFAL), co-organizadora do ENQA. "Atualmente, muitos laboratórios já trabalham com dispositivos de papel, microchips, microfluídica, impressão 3D e internet das coisas."
A Professora Tereza estará presente no 22º ENQA (Encontro Nacional de Química Analítica), que será realizado de 15 a 18 de setembro, em Maceió, com o tema central "Química Analítica Além das Fronteiras: integrando ciência, tecnologia e sociedade". Dado o caráter transversal da química analítica, o ENQA reunirá químicos de diversas áreas: ambiental, eletroquímica, espectrometria molecular e atômica, quimiometria, forense, entre outras. "Não temos mais como considerar a separação tradicional entre as áreas. Mesmo nas linhas de pesquisa da pós-graduação, a química analítica está disseminada em várias interfaces e aplicações que envolvem qualquer tipo de medição ou diagnóstico", assinala o Professor Josué Carinhanha Caldas Santos (UFAL), co-organizador do evento.
Nesse sentido, ele faz uma crítica à legislação brasileira por estar desatualizada e não contemplar a especiação química. No caso do mercúrio, por exemplo, o CONAMA considera apenas o mercúrio total e ignora os compostos orgânicos. "A legislação nacional é pautada em parâmetros isolados, não prevendo aspectos toxicológicos dos elementos (ou das espécies) em conjunto, nem a exposição ao longo do tempo", adverte.
A questão da soberania e da apropriação do conhecimento científico pela sociedade como um todo estará presente no ENQA. "Entendemos a química analítica como uma ciência estratégica para a soberania nacional por estar diretamente relacionada à saúde, qualidade de vida, segurança alimentar, monitoramento ambiental e à promoção da equidade especialmente para populações desassistidas ou em situação de vulnerabilidade", pontua a professora Daniela.
Em outro trabalho realizado com os alunos do Laqua, de impacto direto na vida dos povos ribeirinhos, a Professora Tereza concebeu e produziu filtros de carvão ativado feitos com caroço de açaí, para filtrar a água utilizada para consumo. São dispositivos de baixo custo que utilizam biomassa abundante na região e estão sendo implementados em algumas comunidades do médio Rio Negro. "Estamos capacitando as comunidades para montar e operar esses filtros, de forma que tenham independência para consumir água limpa. Eles foram muito receptivos porque sabem que doenças de veiculação hídrica estão entre as principais ameaças à saúde", explica.
A conferência de abertura será proferida pelo Professor Miguel de la Guardia, da Universidade de Valência (Espanha), que falará sobre "Química Analítica Verde e Democrática". A conferência de encerramento será proferida pela Profa. Ana Rita de Araújo Nogueira (EMBRAPA), que abordará o tema "Além do Laboratório: Química Analítica para a Ciência e a Sociedade". Outras atrações do ENQA incluem um espaço de diálogo com autoridades, com o objetivo de compreender as demandas do setor público e demonstrar o potencial científico da academia.
Além disso, concomitantemente ao 22º ENQA, será realizado o 10º Congresso Ibero-Americano de Química Analítica (10º CIAQA), evento que reúne pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais de diversos países ibero-americanos para discutir os mais recentes avanços da Química Analítica, fomentar colaborações internacionais e fortalecer as redes de pesquisa e inovação na área.
O ENQA & CIAQA conta ainda com um estande dedicado à inovação, resultado da iniciativa INQA Inova. Nesse espaço, os participantes poderão apresentar ideias, tecnologias e soluções inovadoras, levando seus projetos a um novo nível de maturidade tecnológica. Para as escolas do ensino médio, haverá um concurso de redação e um espaço semelhante ao SBQ na Escola, no qual os estudantes terão contato com experimentos da química analítica. Para discutir questões relacionadas a publicações científicas, será realizado um almoço com editores do JBCS, do BrJAC, da Química Nova e da Royal Society of Chemistry.
O evento, que já conta com cerca de 1.060 inscritos com mais de um mês de antecedência, terá facilidades para o público nos moldes do que é feito na RASBQ: estande do NID, sala quieta, tradutor de Libras e sorteio de vagas para mães cientistas.
Saiba mais: ENQA 2026 - Brazilian Meeting Of Analytical Chemistry
Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)
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