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Saúde Mental e Pertencimento: Por que se sentir parte faz diferença?
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O que é pertencimento? Segundo o dicionário, pertencimento está relacionado ao sentimento de fazer parte, de estar conectado a algo ou alguém. Mas será que é possível definir completamente um sentimento? Sempre buscamos racionalizar e encontrar respostas precisas, ainda mais nós, como pertencentes a uma ciência exata. No entanto, quando falamos de sentimentos, especialmente os relacionados à nossa mente e às nossas relações, nem sempre há respostas simples. Afinal, como explicar algo tão subjetivo quanto sentir-se parte de um lugar, de um grupo ou de uma comunidade?
Em geral, ainda há confusão entre os conceitos de saúde mental e de transtorno mental. Isso ocorre porque, historicamente, a saúde mental foi associada principalmente à presença ou ausência de doenças psiquiátricas. Durante muitos anos, o debate público, a mídia e até os serviços de saúde concentraram-se no diagnóstico e no tratamento dos transtornos mentais, deixando em segundo plano a importância da promoção do bem-estar, da prevenção e da construção de ambientes saudáveis.
Atualmente, a psicologia, a psiquiatria e a Organização Mundial da Saúde (OMS) adotam uma visão mais ampla. De acordo com a OMS, a saúde mental pode ser definida como um estado de bem-estar mental que permite às pessoas lidar com os estresses da vida, desenvolver suas habilidades, aprender, trabalhar e contribuir com a comunidade.
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) não apresenta um conceito amplo ou ideal de “saúde mental”, mas estabelece critérios para a compreensão dos transtornos mentais. No manual, um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por alterações clinicamente significativas na cognição, na regulação emocional ou no comportamento, associadas a sofrimento ou a prejuízo no funcionamento do indivíduo.
Essa compreensão amplia a compreensão da saúde mental para além da ausência de transtornos psiquiátricos. Ela reconhece que o bem-estar psicológico também depende das relações que construímos, das oportunidades de participação social e das condições que permitem a cada pessoa desenvolver seu potencial.
Nesse contexto, o pertencimento pode ser compreendido como um dos elementos fundamentais para a promoção da saúde mental. É justamente nesse encontro entre o indivíduo e o ambiente que surge uma pergunta essencial: Podemos ser, podemos estar, podemos participar… mas será que realmente pertencemos?
Pertencer não significa apenas ocupar um espaço, mas sentir que esse espaço também é seu. É ser acolhido em sua singularidade, aceito, respeitado e valorizado. É construir vínculos, obter reconhecimento, participar e perceber que suas ideias, emoções e dúvidas podem ser expressas sem medo de humilhação, punição ou rejeição. Esse sentimento está diretamente relacionado à segurança psicológica.
Nem todos os ambientes são acolhedores e inclusivos. Famílias, escolas, universidades e locais de trabalho podem, em diferentes momentos, criar barreiras que dificultam o sentimento de pertencimento. Quando o respeito, a equidade, a escuta ativa e a colaboração não são valorizados, favorecem-se experiências de exclusão.
Fatores como preconceito, discriminação, desvalorização das diferenças e barreiras relacionadas à deficiência, à neurodivergência, à identidade de gênero, à orientação sexual, à raça ou à origem socioeconômica podem levar muitas pessoas a não se sentirem parte de determinados espaços.
Sob a perspectiva da psicologia e da psiquiatria, o pertencimento atua como um importante fator de proteção para a saúde mental. Quando uma pessoa se sente acolhida e reconhecida, tende a desenvolver maior autoestima, autoconfiança, resiliência e capacidade de enfrentar situações adversas. Em contrapartida, a ausência de pertencimento está associada ao aumento da solidão, do estresse, da ansiedade, da depressão e do isolamento social, podendo contribuir para situações de sofrimento psicológico intenso.
No Brasil, a Política Nacional de Saúde Mental compreende a saúde mental como resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, promovendo o cuidado em liberdade, a inclusão social e o respeito aos direitos humanos. Mas a promoção da saúde mental não depende apenas dos serviços de saúde. Ela também depende da construção de relações e de ambientes mais acolhedores. Nós, como sociedade, precisamos compreender que o pertencimento não é uma característica individual, mas uma experiência construída nas relações sociais. Ninguém desenvolve esse sentimento sozinho; ele nasce da forma como somos recebidos, reconhecidos e valorizados nos espaços que ocupamos.
Criar ambientes onde as pessoas possam ser reconhecidas, respeitadas e valorizadas por quem são, não beneficia apenas indivíduos ou grupos específicos. Essa atitude fortalece as comunidades, melhora as relações sociais e contribui para uma sociedade mais saudável. Assim, a psiquiatria e a psicologia contemporâneas reconhecem que a saúde mental é influenciada não apenas por fatores biológicos, mas também pelas relações sociais e pelos contextos em que as pessoas estão inseridas.
Em síntese, pertencer não é apenas estar presente em um determinado espaço. É sentir que há lugar para você nele. É saber que sua história, sua identidade e sua forma de existir são reconhecidas e respeitadas. O sentimento de pertencimento é construído diariamente nas relações que estabelecemos e na qualidade dos ambientes em que vivemos, estudamos e trabalhamos.
Olívia Moreira Sampaio
Equipe de Workshops & Webinários do NID-SBQ
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