Topo Boletim Eletrônico da SBQ
   Notícias | Eventos | Oportunidades | Receba o Boletim | Faça a sua divulgação | Twitter | Home | SBQ

Boletim Eletrônico Nº 1706 - 13/08/2026




SOBERANIA

Deficiência na produção nacional de IFAs expõe falta de competitividade da indústria


País tem conhecimento científico robusto e mercado pujante, mas falta de incentivos força dependência de importados

Um dos grandes símbolos da dependência brasileira da produção química de outros países é o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), parcela responsável pela eficácia de qualquer fármaco. Seis anos depois do início da pandemia de Covid-19 – quando o Brasil teve grandes dificuldades para importar uma série de insumos, incluindo o IFA – pouco mudou em termos da produção nacional. Ou seja, o conhecimento científico que o Brasil detém nessa área, com dezenas de grupos produzindo os mais variados IFAs, está restrito aos laboratórios nas universidades e centros de pesquisa.

Dados do 3º Censo do Setor Farmoquímico do Brasil, publicado em maio pela Fiocruz, indicam que a produção nacional de IFAs, de 1.760 toneladas em 2025, representa apenas 6% da demanda nacional. No passado, até a década de 1980, a produção nacional de IFA era mais significativa, mas com a abertura comercial dos anos 90, a maior parte das fábricas fechou.

Prof. José Angelo Zuanazzi (UFRGS) com colegas e alunos do Centro de Estudos de Produtos Naturais (CEPNAT): Descoberta de molécula no lírio pode facilitar o combate ao Alzheimer no Brasil

"O Brasil precisa investir em um parque produtivo tecnológico para a produção de IFAs. Temos ciência para isso, temos um grande mercado consumidor, e não podemos mais ficar dependentes da produção de países como China e Índia", afirma o farmacêutico Norberto Peporine Lopes, pró-reitor adjunto de Inovação da USP, e ex-presidente da SBQ (2018 a 2020).

Segundo ele, as indústrias farmacêuticas nacionais por muito tempo focaram em produzir medicamentos genéricos. "Agora, as empresas perceberam que para sobreviver e crescer, elas têm que jogar o jogo da inovação." O problema é que as condições estruturais – custo de matéria-prima, custo de energia, logística e tributação – não favorecem a competitividade do setor industrial de bens intermediários instalado aqui, em comparação com outros países, sobretudo asiáticos. "A indústria sempre vai procurar o melhor preço", resume.

Nos últimos anos, algumas iniciativas do governo têm procurado defender a indústria nacional do grande fluxo de importações, muitas vezes a preços predatórios, porém setores industriais alertam para a necessidade de uma política de reindustrialização, que foque em pontos estruturantes. Neste sentido, benefícios concedidos pelo programa Nova Indústria Brasil são celebrados como um começo auspicioso. Na área da Saúde, o programa tem como objetivos reduzir a dependência de importações de produtos estratégicos, ampliar a produção nacional de IFAs, fortalecer a química fina, incentivar medicamentos inovadores e biológicos, e ampliar a produção de insumos para o SUS. O Nova Indústria Brasil estipula uma meta de produção nacional de 70% das necessidades nacionais de medicamentos, vacinas, equipamentos e outros produtos considerados estratégicos para o sistema de saúde, a partir de financiamentos concedidos pelo BNDES e a Finep.

Na seara da pesquisa científica, uma iniciativa recente é a criação do Centro de Competência em IFA a partir da Biodiversidade Brasileira (CC-IFABR), anunciada em julho pelo governo federal. Trata-se de uma parceria entre a Embrapii e o CNPEM, e terá um aporte inicial de R$ 60 milhões do Ministério da Saúde. A proposta é identificar, em plantas, animais e microrganismos brasileiros, moléculas com potencial para virar medicamento, aperfeiçoá-las e realizar os estudos pré-clínicos necessários para comprovar segurança e eficácia.

Muitos grupos já estudam o potencial terapêutico de moléculas da biodiversidade brasileira. É o caso do Centro de Estudos de Produtos Naturais (CEPNAT), da Faculdade de Farmácia da UFRGS, integrado pelo farmacêutico, professor de Farmacognosia, José Angelo S. Zuanazzi. Em suas investigações com plantas da biodiversidade brasileira, ele encontrou uma espécie de lírio (Amaryllidaceae) que produz uma molécula muito importante no tratamento da Doença de Alzheimer. A galantamina já é sintetizada por outra rota, produzida e comercializada, porém é menos rentável do que produzi-la a partir das plantas. Hoje, seu consumo no Brasil é 100% dependente dos importados.

"Aqui, nós objetivamos conseguir o insumo das plantas em grau elevado de pureza, de modo que uma indústria farmacêutica possa realizar as etapas posteriores de purificação até chegar ao IFA propriamente dito", explica o docente, sócio da SBQ desde 2001. "Seria um ganho importante para a soberania do país."


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



Contador de visitas