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Boletim Eletrônico Nº 1707 - 20/08/2026




INTERNACIONALIZAÇÃO

Chamada CNPq ERC está aberta para financiar colaborações internacionais


Parcerias com grupos de fora podem ser extremamente benéficas para pesquisadores e instituições no Brasil

O Professor Fabio G. Delolo mal assumiu seu primeiro posto docente na carreira, em março deste ano, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e já desenvolve com seus quatro alunos de iniciação científica, uma linha de pesquisa inédita no Brasil: a síntese de ligantes multifuncionais que contenham fósforo em sua estrutura para tornar os processos catalíticos mais sustentáveis. A pesquisa é fruto de seu bem-sucedido doutorado sanduíche pela UFMG e pelo Leibniz Institute for Catalysis (LIKAT), na Alemanha, dentro do programa CAPES Print.

Prof. Matthias Beller (LIKAT) e Prof. Fabio G. Delolo (UFJF): trabalho abriu novas possibilidades para a hidroformilação, e ganhou o Prêmio CAPES de Teses

Lá, ele foi orientado pelo químico Matthias Beller, referência mundial em catálise. E a partir de uma descoberta fortuita, abriu novas possibilidades para as reações de hidroformilação, muito importantes na indústria. “Inicialmente o projeto era a síntese de ligantes que continham o átomo fósforo em sua estrutura, porque auxiliavam na performance de catalisadores. E além disso sintetizar esses ligantes e usar metais não nobres para reduzir o custo da reação de hidroformilação. Testamos nossos ligantes com cobalto, e encontramos um que atuava muito bem em condições brandas”, conta Delolo. “Ficamos felizes, começamos a desenvolver o trabalho, até que o ligante acabou e foi preciso sintetizar mais. Acontece que quando realizamos os testes catalíticos novamente, desta vez vimos que a reação parou de funcionar. Depois de um tempo entendemos que era a fosfina oxidada que estava atuando como promotor desse cobalto. Para sistemas de ródio, esses óxidos de fosfina são ruins, e por isso ninguém havia pensado em utilizá-lo para cobalto antes. Foi uma descoberta importante, porque são ligantes simples, que permitem realizar a hidroformilação em condições brandas de temperatura e pressão.”

A hidroformilação transforma olefinas derivadas do petróleo ou de origem vegetal em aldeídos e derivados, que são usados como plastificantes, detergentes, fragrâncias apenas para citar algumas aplicações. É o maior processo industrial que utiliza a catálise homogênea.

O trabalho ganhou o Prêmio CAPES de Teses, entre outros. Agora, a partir do conhecimento gerado na Alemanha, Delolo trabalha na aplicação desses ligantes para diversas outras reações químicas, como a valorização de matéria-prima biorrenovável.

O Prof. Delolo é um exemplo dos benefícios que as colaborações internacionais podem trazer para a carreira de pesquisadores brasileiros, suas instituições de ensino e seus alunos. De fato, a história de Delolo com o Leibniz Institute for Catalysis começa na RASBQ de 2016, realizada em Goiânia, quando seu co-orientador, o Professor Eduardo Nicolau (UFMG) conheceu Beller que veio proferir uma conferência. Nicolau buscava maneiras de melhorar a hidroformilação, realizada nas plantas industriais em todo o mundo, majoritariamente com ródio, e, na época, interagiu bastante com Beller. “Os avanços por nós desenvolvidos, utilizando ativadores para os catalisadores de cobalto já podem ser utilizados na indústria. Na verdade, algumas consultas sobre a situação de patentes relacionadas à publicação sugerem um interesse para a aplicação imediata dos avanços obtidos. É uma colaboração que deu muito certo. Já estamos indo para nosso sexto artigo em conjunto”, assinala.

Prof. Eduardo Nicolau (UFMG, ex-diretor da Divisão de Catálise -SBQ) de camisa branca com a comissão organizadora do 31st International Conference on Organometallic Chemistry, apoiada pela SBQ. Da esquerda para a direita Prof. Dalmo Mandeli (UFABC, ex-diretor da Divisão de Catálise -SBQ), Profa. Camila Ferraz (UFRJ); Profa. Kátia Gusmão (UFRGS, ex-diretora da Divisão de Catálise -SBQ); Profa. Maria Helena Araújo (UFMG, membro do Conselho Fiscal-SBQ); Profa. Liane Rossi (USP, ex-diretora da Divisão de Catálise -SBQ); Prof. Marcelo P. Gil (UFRGS): eventos internacionais são ponto de partida para colaborações

O Prof. Nicolau, sócio da SBQ continuamente desde 1990, é um entusiasta das colaborações internacionais. Sua primeira experiência com um grupo estrangeiro também foi durante o doutorado, quando fez um estágio sanduíche na França, no Laboratoire de Chimie de Coordination/CNRS. Depois, fez um pós-doutorado na Universidade de Ottawa (Canadá), com financiamento do CNPq. Desde então, foi professor visitante na Alemanha (por duas vezes), França, Japão, EUA, Colômbia e Venezuela. Ele também já participou e coordenou grandes projetos como o CAPES Cofecub. Atualmente mantém uma colaboração informal com a Universidade de Varsóvia.

“Esse tipo de colaboração é muito importante na carreira do pesquisador, muitas vezes é um divisor de águas: amplia os horizontes pessoais, aumenta a visibilidade da pesquisa, competências complementares tornam a pesquisa mais rica, e existe um enriquecimento cultural para todos os envolvidos”, observa.

O CNPq, está com chamada aberta em parceria com o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), para financiar até 10 projetos de pesquisa que envolvam a participação de pesquisadores brasileiros em colaborações científicas suportadas pela entidade europeia. O prazo para submissão de propostas vai até 30 de setembro. O limite de financiamento por projeto será de R$ 200 mil, em bolsas na modalidade Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Exterior Sênior (DES) - que têm valor de 2.100 euros. Os projetos poderão ter duração de até 24 meses, e as bolsas no exterior deverão ser implementadas entre janeiro e dezembro de 2027, com duração de 1 a 12 meses.

Profa. Sabrina Baptista Ferreira (UFRJ) com o Prof. Emmanuel Gras (CNRS-Toulouse): "No meu grupo de pesquisa, eu incentivo ao máximo meus alunos. A minha primeira conversa, quando entram para o doutorado é se têm interesse em ter uma experiência internacional"

A professora Sabrina Baptista Ferreira (UFRJ), coordenadora do Laboratório de Síntese Orgânica e Prospecção Biológica (LASOPB), compartilha do entusiasmo por colaborações com grupos de pesquisa do exterior. “Esse tipo de parceria é extremamente importante. No meu grupo de pesquisa, eu incentivo ao máximo meus alunos. A minha primeira conversa, quando entram para o doutorado é se têm interesse em ter uma experiência internacional”, conta.

Sócia da SBQ desde 2001, a Professora Sabrina está se organizando para submeter uma proposta para a chamada ERC. Embora o valor esteja longe do ideal, as possibilidades que o edital abre são boas. “A maioria dos editais têm saído com valor baixo, o que acaba sendo um desafio a mais. Além da bolsa com valores desatualizados. Eu tenho um doutorando que teve uma bolsa CAPES PDSE, para um grupo de pesquisa em  Nebraska (EUA), e nos deparamos com custo alto para estadia. O pesquisador que vai recebê-lo conseguiu sensibilizar um de seus alunos, que vai hospedar o meu aluno. Só assim, ele poderá se manter lá pelo período do estágio”, conta. “Outro caso parecido aconteceu com outro aluno que foi para a Escócia. O pessoal da Universidade de Dundee ficou chocado com o valor, e conseguiram uma verba complementar institucional para poder receber meu aluno.”  O grupo possui forte interação com o grupo do Prof. Emmanuel Gras (CNRS Toulouse - França) que já recebeu dois doutorandos para período sanduíche pelo CAPES-PRINT, e agora está em andamento a possibilidade de mais uma doutoranda ir para seu laboratório na França em 2027 em um acordo de cotutela.

Mesmo com esse tipo de dificuldade, é importante que pesquisadores busquem oportunidades de colaborar com grupos estrangeiros. A SBQ deseja sorte aos que vão submeter propostas ao edital ERC.

Leia o edital: SEI/CNPq - 2717210 - Chamada Pública


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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