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Boletim Eletrônico Nº 1707 - 20/08/2026




DESTAQUE

Nossas vivências como uma comunidade científica


A coluna comuNIDade SBQ é um espaço integrativo, que traz conhecimentos, reflexões e acolhimento sobre diversos temas transversais ao nosso cotidiano, não se limitando ao ressoar da nossa sociedade. Como parte desse atravessamento, nós, NID, formado por 12 pessoas sensíveis e corajosas, ficamos tocada s e emocionada s com nosso último boletim intitulado “Saúde Mental e Pertencimento: Por que se sentir parte faz diferença?”. Nesse sentido, decidimos aprofundar tecnicamente no tema e trazer um pouco das vivências acadêmico científicas que geralmente acontecem.

Em uma comunidade científica, onde as mudanças podem ser constantes, estamos sujeitos a inúmeras adaptações, por exemplo: troca de cidades para realizar uma graduação, depois novamente para uma pós-graduação e, ainda, possivelmente um terceiro local para nos fixar após aprovação em seleção/concurso. Em cada uma dessas passagens precisamos estabelecer vínculos para nos sentirmos pertencentes, sendo necessárias novas casas, conversas, amigos e tantas outras mudanças. E é sempre importante contar com a resiliência e o acolhimento de quem já esteve por esses lugares.

E se pensarmos que a globalização nos permite viver e termos relações com laboratórios de diferentes locais do mundo, isso ganha uma proporção ainda maior. Amigos que tiveram a oportunidade de vivências internacionais relatam sentimentos simples, mas ao mesmo tempo profundos como a saudade de falar em português, de comer um “arroz com feijão” ou de apenas se expressar sem ter que ficar pensando qual o melhor termo para transmitir um sentimento. São experiências distintas, com valores individuais, mas que sempre buscam receber laços sociais afetuosos para que a empatia seja predominante nos locais de acesso e convivência.

E se pensarmos, como tantas vivências diferentes podem refletir diretamente nos conceitos de pertencimento e saúde mental? Para aprofundarmos esse tema, convidamos a Drª Tânia Maron Vichi Freire de Mello, médica psiquiatra e coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante (SAPPE) da Unicamp, para responder a duas perguntas:

NID: “O que a ciência já sabe sobre como o pertencimento protege a saúde mental e como podemos criar espaços onde mais pessoas se sintam incluídas?

Drª Tânia: “Os humanos puderam evoluir enquanto espécie vivendo em grupos. A cooperação foi crucial para a sobrevivência da humanidade, já que, como indivíduos, os humanos amadurecem mais lentamente que as demais espécies, além de serem menores e mais fracos do que os demais animais com os quais coabitavam a terra. Laços sociais se formam e se fortalecem apenas quando existe o sentimento de pertencimento a um grupo, clã, comunidade. Estabelecer ambientes que promovam segurança psicológica em que exista empatia, comunicação não violenta, enfrentamento e manejo adequado de conflitos, combate a qualquer tipo de discriminação é essencial para que os integrantes de uma comunidade se sintam pertencentes.

NID: “Por que algumas pessoas podem estar cercadas de outras e, ainda assim, sentirem que não pertencem?

Drª Tânia: “O sentimento de pertencimento tem relação com a qualidade da conexão do indivíduo tanto com os demais indivíduos, quanto consigo mesmo. Pessoas que estão sofrendo por conflitos internos, que experimentaram situações traumáticas prévias, podem estar desconectadas de seus sentimentos ou necessidades e ter dificuldades em se conectar com os demais.
Outro aspecto crucial para o pertencimento é o indivíduo sentir que tem a liberdade de se expressar legitimamente, de acordo com sua identidade, seja ela de gênero, de orientação sexual, nacionalidade, etnia, classe social etc. Se essa liberdade não existe, é difícil que o indivíduo se sinta psicologicamente seguro e estabeleça vínculos com os demais.”

Viver em um ambiente onde não há segurança ou nenhuma rede de apoio pode ser um desafio significativo para lidar e suportar. Vale lembrar que, muitas vezes, passamos mais tempo dentro dos laboratórios e na universidade do que em casa ou com nossos familiares e amigos. A atmosfera que convivemos precisa ser profissional, isso é claro, mas, de maneira indubitável, também acaba atravessando questões pessoais pela convivência.

Assim, entendemos que um passo importante para conseguir acolher e melhorar a saúde mental é respeitar as diferentes formas de existir, garantindo que todas as pessoas tenham sua liberdade individual e possam se expressar legitimamente perante a sociedade. O acolhimento das diferenças acaba sendo mais importante do que compartilhar similaridades. Estabelecer essas relações e um ambiente acolhedor é fundamental, e é nosso papel como comunidade científica fazer tudo ao nosso alcance para tornar isso possível. O NID sempre estará aqui, com uma escuta ativa e sensível.

O cantor brasileiro Emicida, em sua música “Velhos Amigos” traduz com sensibilidade um pouco desse sentimento. Ainda assim, mesmo dedicando dois boletins ao tema, seremos incapazes de expressar plenamente o que realmente significa o “SENTIMENTO DE SE SENTIR PERTENCENTE”.

A vida é simples
Como um refrão de samba de mesa livre
Feito com sentimento, rico em pureza
As foto vão amarela, desfaze e sumi
Mas as lembrança dos nossos rolê tão aqui
No peito, eu penso no que nós perdeu também
Mas penso e dou valor a tudo que nós ainda tem

Olívia Moreira Sampaio
Caio Henrique Pinke Rodrigues
Membros do NID-SBQ



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