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Boletim Eletrônico Nº 1707 - 20/08/2026




ENTRE MOLÉCULAS E IDEIAS

A química do esquecimento em A Odisseia


Em artigo anterior, discuti alguns aspectos de A Odisseia, filme de Christopher Nolan, relacionados às referências à Idade do Ferro. Outro aspecto interessante da adaptação cinematográfica diz respeito ao episódio da ninfa Calipso. No filme, após permanecer durante sete anos na ilha de Ogígia, Odisseu apresenta sinais de perda de memória. Em uma das cenas, quando começa a recuperar suas lembranças, Calipso lhe oferece uma flor de lótus, dizendo que ela o ajudará a dormir tranquilamente. Trata-se de uma licença poética do diretor, pois esse episódio não existe na obra original.

Na Odisseia, a flor de lótus aparece muito antes, no Canto IX (versos 82–104), quando Odisseu chega à terra dos Lotófagos, literalmente "comedores de lótus". Alguns de seus companheiros experimentam o fruto oferecido pelos habitantes da ilha e passam a desejar permanecer naquela terra. Homero não descreve uma perda de memória propriamente dita, mas um estado de profundo esquecimento emocional, no qual desaparece a vontade de voltar para casa. Tão intenso é esse efeito que Odisseu precisa arrastá-los de volta aos navios e ordenar a partida imediata.

Mas qual seria essa misteriosa planta? A resposta permanece como um dos mais fascinantes enigmas da botânica clássica. Homero limita-se a mencionar uma planta cujos frutos eram consumidos pelos habitantes da ilha, sem fornecer características botânicas suficientes para sua identificação. A partir dos relatos posteriores de Heródoto e, especialmente, dos estudos botânicos de Teofrasto, muitos historiadores, filólogos e botânicos passaram a considerar Ziziphus lotus, um arbusto espinhoso nativo do norte da África, como a candidata mais provável. Seus frutos são pequenos, doces e comestíveis, coincidindo com as descrições da Antiguidade. Entretanto, essa identificação permanece controversa. Outros autores propõem espécies do gênero Nymphaea (os chamados nenúfares) ou mesmo outras plantas mediterrâneas. Assim, não existe consenso científico sobre a identidade botânica do "lótus" de Homero.

A planta atualmente conhecida como lótus-sagrado pertence, na verdade, a outra espécie, Nelumbo nucifera, originária da Ásia e cultivada há mais de dois mil anos na China e na Índia. Estudos recentes reuniram informações sobre dezenas de metabólitos bioativos já identificados nessa planta, incluindo flavonoides, alcaloides, terpenos e diversos compostos fenólicos. Entre seus constituintes de maior interesse farmacológico destacam-se os alcaloides neferina e nuciferina. Estudos experimentais indicam que, especialmente a neferina, contribui para os efeitos sedativos e promotores do sono observados em extratos da planta, enquanto outros alcaloides apresentam atividades farmacológicas de interesse, incluindo efeitos ansiolíticos e neuroprotetores.

Sob essa perspectiva, a adaptação de Nolan ganha uma interpretação química: embora Homero jamais associe a flor de lótus à ilha de Calipso, a cena em que a ninfa oferece a flor para que Odisseu coma e durma tranquilamente encontra uma possível explicação na farmacologia. O que permanece no campo da ficção é o efeito sobre a memória. Até o momento, não existem evidências de que Nelumbo nucifera provoque amnésia ou faça esquecer fatos passados. Ao contrário, estudos recentes investigam justamente o potencial desses alcaloides para proteger neurônios e preservar a função cognitiva.

Muitos séculos depois de Homero ter escrito sua obra, o conhecimento sobre plantas medicinais continuou sendo acumulado e sistematizado. Um dos exemplos mais importantes é Avicena (980–1037), cujo Cânone da Medicina reuniu e sistematizou conhecimentos sobre numerosas substâncias medicinais de origem vegetal, influenciando a medicina por vários séculos. Entre Homero e a farmacologia atual existe, portanto, uma longa história de observação empírica das propriedades químicas da natureza.

Embora, no tempo de Homero, a Química ainda não existisse como ciência organizada, sua obra revela que as sociedades antigas já reconheciam que determinadas plantas podiam produzir efeitos sobre o organismo humano. Certamente, Homero não poderia imaginar que, quase três milênios depois, o desenvolvimento científico nos permitiria identificar as estruturas moleculares responsáveis por parte desses efeitos e investigar seus mecanismos de ação. A Odisseia, porém, reserva ainda outro episódio em que plantas, substâncias misteriosas e seus efeitos sobre o organismo ocupam lugar central: o encontro de Odisseu com a feiticeira Circe. Mas esse será o tema de um próximo artigo.

Saiba mais: ZHAO, X. et al. Food Chemistry, v. 412, p. 135581, 2023. DOI: 10.1016/j.foodchem.2023.135581.

Luiz Claudio de Almeida Barbosa




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