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Boletim Eletrônico Nº 1708 - 27/08/2026




XXII BMIC

MOFs na agricultura: regeneração do solo, estabilização de carbono e aumento da produtividade agrícola


XXII BMIC reunirá mais de 600 pesquisadores em Búzios. Além de MOFs, terras raras e química inorgânica biológica ocupam espaço na programação

Uma pesquisa do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo (RCGI-USP), coordenada pela Professora Liane Rossi, do Instituto de Química da USP, investiga o uso de estruturas metal-orgânicas (MOFs, do inglês metal-organic frameworks) para regenerar solos degradados. O desenvolvimento dessa nova classe de materiais rendeu o Prêmio Nobel de Química de 2025 a Omar Yaghi, Susumu Kitagawa e Richard Robson. O estudo coordenado pela Professora Rossi teve como objetivo a entrega controlada de nutrientes para recuperação de solos degradados, porém resultou em uma melhora nas funções ecossistêmicas do solo levando a um aumento da produtividade agrícola, estabilização de carbono no solo e redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) associadas à atividade no campo. A pesquisa, financiada pela Shell Brasil, envolveu pesquisadores da USP, da UNESP e duas startups: MOF TECH P&D e Quanticum.

As conclusões parciais indicam um aumento expressivo da atividade microbiológica no solo, o aumento de fósforo biodisponível (41%), o aumento do estoque de carbono no solo, a redução de até 25% nas emissões de CO2 e respostas fisiológicas das plantas, como o aumento de clorofila nas folhas, o aumento de glicose na cana e o aumento de biomassa total em até 60%.

“Os dados levantados em casa de vegetação e em campo levam à conclusão de que as plantas respondem positivamente à adição desse material ao solo”, afirma a pesquisadora. O trabalho gerou uma patente sobre o processo mecanoquímico de obtenção de estruturas metal-orgânicas e seu uso na agricultura.

Sócia da SBQ desde 1996, a Professora Liane é diretora do Programa de Captura e Utilização de Carbono, do RCGI . Ela conta que a ideia de usar MOFs para essa aplicação surgiu a partir de conversas com o Prof. José Marques Júnior, da área de ciências do solo, da Unesp de Jaboticabal, e seu ex-aluno Diego Siqueira, fundador da startup Quanticum. “Eu aprendi que a porção mineral do solo é essencial para a estabilização da matéria orgânica, a proteção do carbono no solo e a resposta das plantas às práticas agrícolas, porém ela se forma a partir de processos lentos de intemperismo das rochas. Assim, remineralizadores naturais e pós de rocha têm sido estudados como alternativas para restaurar mais rapidamente parte dos minerais do solo. Será que as MOFs – nas quais é possível controlar a composição, a porosidade e os processos de adsorção e liberação de componentes orgânicos e metálicos – poderiam fazer esse papel com ainda mais eficiência? Já tínhamos realizado estudos com óxidos de ferro em solo e tínhamos alguma familiaridade com a síntese de MOFs para outras aplicações. Um pós-doutorando do grupo, Dagoberto de Oliveira Silva, já se dedicava a esses materiais e nutria o interesse de fundar uma startup voltada à produção e aplicação de MOFs. Foi assim que iniciamos essa colaboração, que resultou em um financiamento e possibilitou a criação da startup MOF TECH P&D”, conta.

Uma parte importante do projeto foi escalonar a síntese de MOFs, passando de gramas para quilogramas por dia. “Partimos da síntese hidrotermal em escala de gramas para a síntese em modo contínuo, usando uma extrusora de dupla rosca, em um processo mecanoquímico de preparação das MOFs. A startup MOF TECH P&D poderá comercializar essas MOFs, fazendo com que nossa tecnologia chegue ao mercado.”

A Professora Liane Rossi contará em detalhes sobre essa pesquisa em sua conferência plenária no XXII BMIC, (Brazilian Meeting on Organic Chemistry), que será realizado de 13 a 16 de setembro em Búzios, no Rio. As MOFs também serão tema da conferência do pesquisador francês Christian Serre (Université Paris Sciences et Lettres, France).

Profa. Liane Rossi (RCGI-USP): regulador com MOF propiciou aumento expressivo da atividade microbiológica no solo, aumento de fósforo biodisponível, aumento do estoque de carbono no solo, a redução de até 25% nas emissões de CO2 e respostas fisiológicas das plantas, como o aumento de clorofila nas folhas, o aumento de glicose na cana e o aumento de biomassa total em até 60%

“Esse boom de aplicações com MOFs continuará nos próximos anos. É uma síntese relativamente simples e barata, e temos vários grupos trabalhando nisso no Brasil”, pontua a Professora Célia Machado Ronconi (UFF), chair do BMIC. A área de MOFs cresceu tanto nos últimos anos, que no ano passado, foi realizado o primeiro Encontro Brasileiro de MOFs. O caderno de trabalhos dá uma ideia da diversidade das pesquisas nessa área.

Sócia da SBQ desde 1993, ela conta que no BMIC, terras raras também serão um assunto de peso, ligados à síntese de MOFs ou não. “Em termos de MOFs, alguns elementos das terras raras já são utilizados, por suas propriedades luminescentes, para sensores dos mais diversos. No BMIC, teremos muitas palestras sobre a ciência das terras raras, suas propriedades, e também uma mesa-redonda sobre a questão estratégica das terras raras para o Brasil, com representantes do governo, do setor produtivo e do setor de pesquisa”, conta. (No final do texto, há um link para a programação completa).

Esta edição do BMIC terá também eventos paralelos. O Encontro Latino Americano de Bioquímica Inorgânica (LABIC) volta a ser realizado junto com o BMIC depois de 15 anos. Além dele, o XI Encontro Brasileiro em Terras Raras e o IV Workshop em Química Bioinorgânica Teórica. “São eventos que se complementam. Será muito bom para toda a comunidade de Inorgânica receber os colegas da América Latina, que ficaram muitos anos sem se juntar ao BMIC. Tem coisas que eles fazem que nos interessam, e vice-versa. Essa troca é sempre construtiva”, observa a Profa. Célia.

A organização do BMIC teve uma preocupação com a questão de equidade de gênero, tanto na seleção de conferencistas quanto no conteúdo. Uma mesa-redonda reunirá pesquisadoras brasileiras e estrangeiras para debater a questão da equidade.

Até agora são mais de 600 participantes e 545 trabalhos inscritos. As apresentações terão entre 10 e 45 minutos. O evento conta com apoio financeiro da FAPERJ, do CFQ, do CNPq, da RSC e de empresas que tradicionalmente apoiam eventos da SBQ, como Horiba, Bruker, Shimadzu e SCQ.

Saiba mais: PRELIMINARY PROGRAM | BMIC 2026


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)



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