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Boletim Eletrônico Nº 1711 - 17/09/2026




ENTRE MOLÉCULAS E IDEIAS

Derrubando mitos: o que não nos contaram sobre a história do processo Haber-Bosch


A síntese da amônia a partir de nitrogênio e hidrogênio é conhecida, em praticamente todos os livros-textos de Química, como processo Haber-Bosch. A denominação parece encerrar uma história simples: Haber desenvolveu o processo e Bosch o transformou em uma tecnologia industrial. Mas será que foi realmente assim? Quem, de fato, desenvolveu o processo experimental que permitiu criar uma nova forma de fixação do nitrogênio? Você já considerou a possibilidade de que Fritz Haber, embora tenha sido o grande articulador científico do projeto, não tenha sido o homem que construiu as soluções de Engenharia que tornaram tudo aquilo possível? Pois é. A história da ciência também está sujeita a simplificações e esquecimentos. Foi justamente a partir de documentos originais que o historiador Deri Sheppard revisitou a história da síntese da amônia e trouxe para o primeiro plano um personagem praticamente desconhecido fora dos círculos especializados: o químico inglês Robert Le Rossignol (1884-1976).

O envolvimento de Haber com a síntese da amônia começou, provavelmente em 1903, quando ele foi procurado pelos irmãos Otto e Robbert Margulies, ligados à Österreichische Chemische Werke, de Viena. Eles queriam saber se seria possível utilizar um catalisador para converter uma mistura de nitrogênio e hidrogênio em amônia. Com o apoio financeiro da empresa, Haber colocou seu estudante Gabriel van Oordt para realizar experimentos no verão de 1904. Utilizando ferro como catalisador, hidrogênio e nitrogênio à pressão atmosférica e temperaturas próximas de 1.020 °C, foram obtidos rendimentos de apenas 0,005 a 0,012% de amônia. Haber publicou o maior valor, 0,012%, mas Walther Nernst questionou a validade desses resultados. Foi nesse momento que a história tomou um rumo inesperado. Le Rossignol havia chegado a Karlsruhe em 1906 para trabalhar como assistente de Haber. Formado em Química pela University College London, estudara também disciplinas de Engenharia, cultivara grande interesse por Mecânica e desenvolvera extraordinária habilidade para construir equipamentos.

Haber pediu a Le Rossignol que repetisse os experimentos. O jovem químico não se limitou a reproduzir a montagem existente. Construiu novos equipamentos capazes de trabalhar com nitrogênio e hidrogênio sob temperaturas elevadas e pressões que chegavam a cerca de 200 atmosferas, além de desenvolver uma válvula para controlar a pressão dos gases. Seus experimentos produziram resultados mais precisos e confiáveis. É nesse ponto que o trabalho de Sheppard se torna particularmente importante. Ao examinar documentos originais e entrevistas realizadas com Le Rossignol décadas depois, o historiador encontrou evidências que ajudam a modificar a narrativa tradicional. O próprio Le Rossignol descreveu a divisão de trabalho de maneira direta: Haber cuidava essencialmente da parte teórica, enquanto ele se ocupava da Engenharia e do trabalho prático. Sheppard mostra também que Haber tinha pouco conhecimento de Engenharia e dependia da capacidade de Le Rossignol para transformar suas ideias em soluções experimentais. Isso não diminui a contribuição de Haber. Ele reconheceu o problema, desenvolveu sua abordagem científica, compreendeu seu potencial e foi fundamental para estabelecer a ligação com a indústria. Mas uma coisa é conceber e conduzir um programa científico; outra é construir o equipamento que permite fazê-lo funcionar.

Os resultados de Le Rossignol convenceram Haber do potencial industrial do processo. Em 1908, a BASF passou a financiar o projeto e Haber firmou com ele um acordo pelo qual receberia 40% dos futuros royalties da patente. Haber cumpriu o compromisso, e Le Rossignol tornou-se um homem rico. Um ano depois, em julho de 1909, os dois demonstraram à BASF a produção contínua de amônia sob alta pressão. A demonstração abriu o caminho para a industrialização: Carl Bosch e a BASF enfrentaram os desafios de engenharia em escala industrial, enquanto Alwin Mittasch realizou milhares de experimentos até encontrar catalisadores adequados. O processo que a história costuma atribuir a dois nomes foi, na realidade, construído por muitos.

Por que, então, Robert Le Rossignol desapareceu dos livros de Química? O processo recebeu o nome de Haber-Bosch, e é difícil contestar a importância de ambos. Mas a história também foi feita por aquele jovem químico inglês que construiu os equipamentos, resolveu problemas experimentais decisivos e ajudou a transformar uma ideia científica em realidade industrial. Seu nome quase desapareceu. Sua contribuição, não deveria. Talvez a melhor maneira de corrigir esse esquecimento seja começar por nossas próprias aulas, devolvendo a Robert Le Rossignol o lugar que lhe cabe na história da Química.

Saiba mais: BARBOSA, L. C. A.; CANTARUTTI, R.B. Nitrogênio: o sétimo elemento. Belo Horizonte: Editora Letramento, 2019. [Link]


Luiz C. A Barbosa



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