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Boletim Eletrônico Nº 1711 - 17/09/2026




DESTAQUE

Academia do cansaço: a banalização da sobrecarga e a necessidade de uma mudança estrutural


No livro “Sociedade do Cansaço”, o filósofo coreano Byung-Chul Han afirma que, a partir do século XXI, a humanidade passou a viver em uma “sociedade do desempenho que produz depressivos e fracassados” como consequência da pressão por desempenho e produção.

Os dados de fato indicam um momento crítico: o Relatório Mundial de Saúde Mental, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022, aponta que apenas durante o ano de 2020 – primeiro ano da pandemia de COVID-19 – houve um aumento de mais de 25% no número de pessoas com transtornos de depressão e ansiedade ao redor do mundo, chegando a cerca de 246 milhões de pessoas vivendo com depressão e 374 milhões vivendo com ansiedade.
Em uma atualização de setembro de 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) relata um aumento expressivo desse quantitativo global, indicando que mais de 1 bilhão de pessoas sofrem com transtornos de saúde mental. Ainda segundo a OMS, o Brasil é o país com a maior prevalência de depressão na América Latina, sendo os jovens adultos uma das populações mais suscetíveis a transtornos psicológicos.

Ainda há poucos dados sobre a qualidade da saúde mental dentro das universidades. Ainda assim, com a disseminação do debate, acadêmicos passaram a refletir mais sobre o tema, a observar o ambiente em que estão inseridos e buscar compreender as causas e consequências desse fenômeno.

O historiador Heribaldo Maia, mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro “Neoliberalismo e sofrimento psíquico: o mal-estar nas universidades”, aponta o individualismo, a competitividade e a mentalidade extremamente produtivista como algumas das particularidades que, somadas, acabam afetando profundamente o psicológico das pessoas que optam por construir uma carreira científica.

Dessa forma, a partir do isolamento – ainda mais acentuado no pós-pandemia – e do acúmulo de tarefas e cobranças, cientistas têm se tornado o “sujeito de desempenho e produção” descrito na obra de Byung-Chul Han, extremamente vulnerável ao “cansaço de fazer e de poder” que, de acordo com o autor, caracteriza a depressão.

Praticamente todas as pessoas dentro do ambiente acadêmico – sem distinção entre alunos, pós-doutorandos e professores – se dizem sobrecarregadas. É comum que pesquisadores trabalhem muito além das oito horas diárias previstas, tanto em dias úteis quanto aos finais de semana ou feriados. Momentos de lazer, quando existem, são carregados de culpa.

É comum, também, que essa sobrecarga seja normalizada e perpetuada entre as gerações, como se fosse o fator primordial de qualquer atividade acadêmica. Uma reflexão dentro deste cenário advém da normalização e romantização de que o esgotamento físico e mental é sinônimo de produtividade e profissionalismo - é a banalização do “trabalhe enquanto eles dormem”.

Vale ressaltar a sobrecarga emocional gerada por desigualdades raciais e de gênero. No caso das mulheres - especialmente negras - o desequilíbrio pode comprometer significativamente a saúde mental de pesquisadoras e estudantes, dentro e fora do meio acadêmico, principalmente devido a questões como sobrecarga mental e de trabalho doméstico - que recai desproporcionalmente sobre elas, fatores fisiológicos, assédio e violência de gênero.

Uma pesquisa publicada em 2021 por membros do projeto Parent in Science, ressalta a necessidade de parâmetros de avaliação distintos para populações específicas. O estudo indicou que, em 2020, apenas 47,4% das pesquisadoras que são mães, e que responderam a um questionário, conseguiram submeter manuscritos para publicação em periódicos. Já entre os pesquisadores homens com filhos, a proporção foi de 65,3%.

Em muitos casos, a alta demanda por produtividade e as dificuldades enfrentadas pelas pesquisadoras para ascender na carreira (o chamado “teto de vidro” - barreiras invisíveis que impedem que mulheres cheguem a cargos mais altos) também estão associadas a episódios de depressão.

A sensação é de que é preciso “entrar no jogo” e seguir as regras que estão postas, mesmo não concordando com muitas delas. No entanto,  não é fácil nem justo tentar combater um problema sistêmico de forma individualizada.

É preciso ocupar os espaços, dividir as insatisfações e somar esforços na construção de um ambiente acadêmico menos competitivo e mais acolhedor. Esse esforço precisa ser coletivo. Toda mudança de perspectiva, independentemente do tamanho, requer mobilização de grupos.

Por fim, ficam algumas reflexões: o que vemos no nosso cotidiano, e dentro de nós mesmos, que afeta de alguma forma a saúde mental dos que nos rodeiam, e a nossa própria, e de que forma contribuímos (para o bem ou para o mal) com esse cenário?

Enquanto sociedade, o que temos feito para não ampliar o crescente aumento de casos de transtornos mentais relacionados a ansiedade e depressão?

Como temos cuidado da nossa própria saúde mental?

* Caso esteja passando por sofrimento psíquico, busque ajuda!

SUS: procure Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou, para casos de emergência, Unidades de Pronto Atendimento (UPA).

Centro de Valorização da Vida (CVV): ligue 188 ou acesse https://cvv.org.br/

Para ler mais:


Texto por:
Duda Moreira & Glaucia Gonzaga
Equipe NID-SBQ



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