Topo Boletim Eletrônico da SBQ
   Notícias | Eventos | Oportunidades | Receba o Boletim | Faça a sua divulgação | Twitter | Home | SBQ

Boletim Eletrônico Nº 1713 - 01/10/2026




DESTAQUE

Sociedade das plataformas, saúde mental e autopercepção


Imagine acordar na próxima semana e perceber que seu celular não liga, que o GPS do carro não estabelece uma rota e que nenhum periódico digital está disponível. Para alguns, pode ser um pesadelo; para outros, a retomada do mundo anterior à Terceira Revolução Industrial, que impulsionou a tecnologia mundial. Apesar de parte da nossa sociedade estar familiarizada com o mundo analógico, nós desenvolvemos uma dependência muito rápida e confortável das tecnologias. A este novo modelo social contemporâneo, no qual as infraestruturas digitais, controladas por poucas gigantes tecnológicas, medeiam e moldam as relações econômicas, culturais e políticas, transformando dados em base para a vida em sociedade, os pesquisadores Van Dijck, Poell e De Wall denominam Sociedade das Plataformas.

Discutindo esse cenário em que o alastramento de informações, que era predominantemente oral e impresso, adquire grande velocidade, o professor e pesquisador Dr. Dale Whelehan, do Trinity College Dublin, escreveu sobre o desconforto intencional, causado pelo uso massivo das tecnologias cotidianas, para a revista TIME (disponível em https://time.com/7222106/intentional-discomfort-benefits-essay/).

Em seu texto, o Dr. Whelehan menciona que o uso de tecnologias, principalmente das plataformas digitais, alterou nossa percepção do mundo e da urgência. Em poucos minutos recebemos notificações de três grupos diferentes em aplicativos de mensagens instantâneas; do e-mail institucional, solicitando (com urgência) providências sobre alguma demanda; ou ainda, podemos abrir alguma rede social para iniciar uma rolagem infinita, na expectativa do aumento de serotonina (que regula humor e sensação de bem estar e satisfação) e de dopamina (que está associada ao vício digital e a busca constante por curtidas e validação), para continuar o dia. Essa interação contínua com plataformas digitais, mediada por funções algorítmicas, tem remodelado profundamente as dinâmicas de construção de identidade e de bem-estar psicológico na sociedade, além de gerar e intensificar pressões subjetivas decorrentes da comparação social.

Os eventos mencionados resultam em estresse crônico, diminuição da atenção e da percepção do mundo, além de dependência cognitiva e emocional, afetando a análise crítica e endossando comportamentos de evitação, ou seja, a necessidade de fuga ou afastamento de situações ou sentimentos que causem medo ou ansiedade, o que, a longo prazo, acaba por limitar a funcionalidade do indivíduo frente às intercorrências do cotidiano. Os danos emocionais associados à autoimagem, estresse, ansiedade, depressão e diversas questões relacionadas à saúde mental já permeiam nossa sociedade, com relatos de pessoas sofrendo pelo medo de ficar desconectadas ou incomunicáveis, pelo excesso de exposição nas redes. Existe um termo para este medo: nomofobia, derivado da expressão em inglês "no mobile phone phobia".

Com o uso excessivo, superficial e irracional das tecnologias, mídias digitais e redes sociais como suporte indissociável para resolver problemas, terceirizamos o esforço de pensar e perdemos a capacidade de sermos resilientes aos desafios, como indica pesquisa desenvolvida por Souza LC e colaboradores.

Quando levamos essa discussão ao universo acadêmico, a principal percepção dessa vitrine tecnológica é de estarmos constantemente atrasados, pois “todos estão publicando dez artigos por ano”, “todos estão conseguindo financiamento para suas pesquisas”, “o Prof. Fulano conseguiu mais 3 milhões em recursos para seu laboratório”...  Cabe aqui uma reflexão: o quão bem sucedidas as pessoas parecem ser nas redes sociais e nas conversas de corredor? A nossa “nomofobia acadêmica” é o medo de ficarmos para trás, de nos tornarmos obsoletos em nossas áreas de pesquisa e irrelevantes. Precisamos ponderar dois fatores: que sociedade estamos construindo? E que sociedade estamos entregando às futuras gerações?

Há dez anos atrás, bibliotecas estavam lotadas de alunos fazendo filas para conseguir o livro que o professor recomendou para estudar. Há quinze, fazíamos a comutação bibliográfica (ou apenas comute) para ter acesso aos artigos científicos mais recentes. O tempo passa em uma velocidade diferente para cada um, mas não queremos perder os benefícios que a revolução tecnológica trouxe, incluindo o acesso a celulares e GPS, como abordado no início do texto.

Mas precisamos pensar: que tempo é esse que achamos que estamos perdendo?

Ouvimos de nossos orientadores, de colegas de trabalho e de pesquisadores de ponta que a ciência não se faz da noite para o dia e que precisamos de tempo para consolidar a fundamentação teórica e amadurecer  boas ideias.

Mas, com que tempo?

A sua saúde física e mental não é o preço que se precisa pagar para fazer parte da sociedade científica, digital e tecnológica.

* Caso esteja passando por sofrimento psíquico, busque ajuda!

SUS: procure Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou, para casos de emergência, Unidades de Pronto Atendimento (UPA).

Centro de Valorização da Vida (CVV): ligue 188 ou acesse https://cvv.org.br/


Para saber mais:

WHELEHAN, Dale. Why Intentional Discomfort Is Actually Good For You. TIME, 14 fev. 2025. Disponível em: https://time.com/7222106/intentional-discomfort-benefits-essay/. Acesso em: 26 set. 2026.

Souza LC, Araujo LO, Santos PSMHC dos, Tedeschi MA. IMPACTOS COGNITIVOS DO USO EXCESSIVO DAS REDES SOCIAIS: ATENÇÃO, MEMÓRIA E EMOÇÃO. Encontros Bibli [Internet]. 2026; 31:e18315. Available from: https://doi.org/10.5007/1518-2924.2026.e18315

BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Comunicação Social. Conhecendo os riscos. In: BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Comunicação Social. Uso de telas por crianças e adolescentes: guia. Brasília, DF: Secom, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/uso-de-telas-por-criancas-e-adolescentes/guia/capitulos/conhecendo-os-riscos. Acesso em: 26 set. 2026.

RAFIQ, Amna; LINDEN, Brooke. Social media and self-concept among postsecondary students: A scoping review. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, v. 27, n. 3, p. 194-201, 2024. https://doi.org/10.1089/cyber.2023.0451


Texto por:
Caio Henrique Pinke Rodrigues
Glaucia Gonzaga
Pedro Netto Batalha
Equipe NID-SBQ



Contador de visitas