Terras Raras
Falta de especialistas no Brasil é oportunidade para químicos
Estudo do CGEE (MCTI) aponta para a necessidade de formação de 500 especialistas na separação de terras-raras até 2040
A progressão do Brasil para novas etapas da cadeia das terras raras, como processamento, beneficiamento e transformação, é um dos principais objetivos da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Atualmente, o papel brasileiro na cadeia internacional de minerais críticos se restringe à extração e exportação, mas o avanço esbarra na falta de profissionais especializados, avalia a ANM (Agência Nacional de Mineração). Segundo a reguladora, o país tem hoje menos de 50 especialistas com formação específica na separação de elementos de terras-raras, um dos maiores desafios da exploração desses materiais.
De acordo com um estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do MCTI, o Brasil precisa formar pelo menos 500 especialistas na separação de terras-raras até 2040. “A escassez de especialistas é severa: estimativas do próprio CETEM indicam que menos de 50 pesquisadores no Brasil têm formação específica em separação de ETRPs, insuficientes para operar uma refinaria industrial que tipicamente requer entre 80 e 120 técnicos e engenheiros especializados”, afirma o CGEE, na publicação “Terras Raras no Brasil - Estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040”
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Prof. Anderson Gomes (CGEE-MCTI): "Cadeia de produção de terras raras no Brasil vai exigir competências em todos os níveis, e o trabalho tem que começar agora, para começar a render frutos em dez anos"
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Na visão do Prof. Anderson Gomes, professor da UFPE e diretor-presidente do CGEE, chegamos a essa situação “porque no momento certo, as pessoas não estudaram essa área. Não houve visão estratégica, nem indução para essa formação específica.”
O “momento certo” das terras raras no Brasil remonta aos anos 1940, quando o químico polonês Pawel Krumholz chegou ao Brasil e fundou a Orquima. Em 1949, iniciou o processamento de monazita para a obtenção de minerais terras-raras. Em 1960, a empresa foi estatizada em função dos subprodutos de tório e urânio, de interesse nacional e, em 1976, tornou-se a Nuclemon.
“Só o Krumholz dominava a separação de terras raras no Brasil. A partir de seu falecimento, em 1972, passamos a perder esse conhecimento”, afirma o Prof. Henrique Toma (USP), um dos especialistas no Brasil nessa área. Ele explica que o processo de separação é um processo drástico, que começa com a dissolução do minério. Depois vem centenas ou milhares de extrações (de impurezas) para chegar a um nível razoável de pureza. “Por fim, você ataca com ácido, libera as terras raras e joga para uma coluna de resinas, de onde você vai retirá-las depois. É um processo de grande porte.”
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Prof. Henrique Toma (USP): Desenvolveu processo 100% circular para separação de terras raras com nanopartículas magnéticas
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Em 1985, o Prof. Toma foi procurado pela multinacional belga Solvay, que tinha a intenção de começar a separar terras-raras no Brasil. Dois de seus alunos passaram sete anos na empresa, e conseguiram fazer a separação em escala industrial. “O problema é que nessa época a China já estava produzindo terras-raras a um custo muito menor, a Solvay não conseguiu competir, fechou essa unidade, e voltamos à estaca zero”, conta.
A partir dos anos 2000, o Prof. Toma passou a adotar a nanotecnologia na separação de metais. Em 2011, começou a desenvolver uma técnica que utiliza nanopartículas magnéticas preparadas para se ligar especificamente a determinado elemento presente em uma solução — funcionam como “capturadores”. Depois que o elemento se prende às partículas, um ímã é usado para retirá-las da mistura. Em seguida, as nanopartículas são colocadas em um meio com acidez controlada, que libera a terra-rara separada. O processo é inédito e foi patenteado. “A vantagem é que essa técnica não é drástica, e é 100% circular.”
Na visão da Professora Ana Claudia Queiroz Ladeira, a dificuldade de produção dos elementos terras-raras (ETRs) é mais evidente na etapa de separação individual destes que visa à obtenção de óxidos com pureza elevada. Isso se deve ao fato de esses elementos apresentarem praticamente o mesmo comportamento químico – diferentemente dos demais metais, que são bem distintos quimicamente. “Hoje, retomar a formação de recursos humanos é complexo porque é um longo processo, já que a separação individual destes elementos exige uma combinação de conhecimentos muito específicos de química e de técnicas hidrometalúrgicas”, observa.
Para fortalecer a formação de recursos humanos, ela defende a criação de um programa de formação de especialistas em produção de terras-raras, com ênfase em “Química da Separação de ETR" envolvendo níveis técnico e superior. “O programa deverá contar com apoio de centros de pesquisa, assim como da indústria nacional e de parceiros internacionais. Já temos visto iniciativas nacionais importantes, como os projetos REGINA II, MagBras e INCT-MATERIA. Ressalto a importância da presença do setor privado, pois a experiência em ‘chão de fábrica’, com o próprio minério, é fundamental para o entendimento do processo e, consequentemente, para a formação de especialistas”, avalia.
Para o Prof. Gomes, a cadeia de produção de terras-raras no Brasil vai exigir competências em todos os níveis, e o trabalho tem que começar agora, para começar a render frutos em dez anos. “É importante que os cursos tenham uma disciplina ou alguma interação com a indústria. Isso vale para os cursos técnicos, as graduações – que deveriam induzir TCCs sobre o tema, e a pós-graduação. Já temos alguns INCTs que atuam nessa área... Seria importante criarmos um programa de pós-graduação em rede nessa área”, pontua o presidente do CGEE. “O importante é que o estudante tenha segurança de que, se entrar nessa área, terá emprego quando se formar. A oportunidade está colocada.”
Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)
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