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Coletividade e democracia fazem a diferença
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Para o filósofo Jean-Paul Sartre, o indivíduo não nasce com uma essência fixa que determina quem ele será; ao contrário, constrói-se continuamente por meio de sua liberdade e de suas escolhas. Nesse sentido, cada pessoa pode ser compreendida como um universo em permanente transformação e expansão, no qual experiências, escolhas e características físicas e psíquicas se entrelaçam para formar uma existência singular. Na perspectiva sartreana, essa liberdade também implica responsabilidade, pois cabe ao indivíduo responder pelas escolhas que constituem sua própria trajetória.
Apesar dessa individualidade e singularidade, somos capazes de pensar, agir e nos mover de forma coletiva. No entanto, como explicar essa capacidade de produzir algo em comum se não estamos conectados uns aos outros através de sinapses?
Talvez aquilo que nos conecte não pertença ao campo biológico, mas aos campos simbólico e filosófico. Crenças, desejos, ideias e intenções compartilhadas criam vínculos entre indivíduos, fazendo com que experiências particulares encontrem expressão em algo maior. Quando esses elementos se traduzem em falas, gestos, movimentos e ações, o individual passa a encontrar sentido no coletivo. Sob algumas perspectivas filosóficas, a coletividade surge justamente deste encontro entre indivíduos que compartilham uma realidade social, cultural, jurídica e política. Sob o ponto de vista de uma das maiores filósofas, antropólogas e ativistas negras do Brasil, Lélia Gonzalez, a realidade de sociedades forjadas pelo colonialismo e pela escravização, esse "indivíduo universal" tem cor, gênero e classe: ele é o homem branco e burguês. Assim, a liberdade individual só existe, de fato, se as estruturas coletivas de dominação forem desmanteladas. Ao nosso ver, essa conexão poderia ser entendida e experienciada como uma espécie de força coletiva: algo que não existe isoladamente em nenhum indivíduo, mas que emerge justamente da relação entre nós. De maneira complementar, Lélia afirma em seus textos que “exatamente porque portamos a marca da exploração econômica e da subordinação racial e sexual, portamos a marca da libertação de todo mundo.”
Essa força, por si só, não possui um caráter necessariamente positivo ou negativo, podendo conduzir tanto à construção quanto à destruição, tanto ao cuidado quanto ao conflito. O que parece distinguir esses caminhos é o sentido que damos às nossas ações, gestos e falas. Quando aquilo que fazemos coletivamente considera o bem-estar do outro e da comunidade, embasado na empatia de compreender que mesmo não passando por uma situação existem pessoas que passam, a individualidade não desaparece, mas passa a participar da construção de algo maior, de uma sociedade. Uma vez que, ainda nos ideais de Lélia, o coletivo só será verdadeiramente livre se cessamos a opressão sobre os indivíduos mais vulneráveis.
Pela soma desses argumentos e de várias outras pautas postas em discussão nestes últimos quinze dias, de debates e manifestações eleitorais, que o Núcleo de Inclusão e Diversidade parabeniza à todas as pessoas que, de forma coletiva, contribuíram através do voto, para o fortalecimento da democracia, da ciência e da educação. Compreendemos que as pessoas votantes tinham um ideal de nação que acreditavam, mas os 64.256.232 votos acreditaram em um país democrático e soberano para os brasileiros.
O NID segue com o compromisso de contribuir para o fortalecimento da comunidade química brasileira, discutindo ideias, difundindo os letramentos e combatendo qualquer ação que envolva algum tipo de preconceito, discriminação, desigualdade e ataque à dignidade humana. Seguimos ainda mais fortes e resistentes na busca pelo bem-estar coletivo e o desenvolvimento de um Brasil ainda mais digno para todas as pessoas. É nesses momentos que percebemos que a coletividade não representa a negação do individual, mas emerge quando diferentes individualidades encontram um significado comum.
E, para encerrar, ecoamos as palavras de Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui: “Nós vamos sorrir. Sorriam!” Que possamos seguir sorrindo e celebrando a democracia brasileira.
Texto por:
Edson Anjos
Marcos Palmeira
Caio Pinke
Equipe NID-SBQ
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