ENTRE MOLÉCULAS E IDEIAS
A força do mito na construção da história da química
Podemos dizer que existem tantas histórias quantas pessoas existirem para contá-las. No caso da química, estudantes e professores têm contato com histórias que são repetidas em um livro-texto atrás do outro e, diante da quantidade de conteúdo a estudar, raramente questionamos sua origem e veracidade. Um caso clássico é o da síntese da ureia por Friedrich Wöhler, em 1828. A narrativa tradicional apresenta esse experimento como o marco fundador da química orgânica e como um golpe decisivo na teoria da força vital (Lebenskraft), segundo a qual a formação das substâncias orgânicas dependeria de uma força própria dos seres vivos. É uma boa história. Mas você já se perguntou até que ponto ela corresponde ao que os próprios químicos pensavam e faziam em 1828?
O estudo historiográfico de Peter J. Ramberg (2000) demonstra que essa versão consagrada nos manuais é uma reconstrução posterior. Wöhler não pretendia, em 1828, refutar o vitalismo nem fundar uma nova subdisciplina. Seu trabalho revelou que o cianato de amônio e a ureia apresentavam a mesma composição elementar, mas propriedades diferentes, fornecendo um exemplo importante do fenômeno que posteriormente seria denominado isomeria. Embora tenha escrito entusiasmadamente a Berzelius, seu antigo professor, que conseguira “fazer ureia sem a necessidade de um rim”, Wöhler foi muito mais cauteloso em seu artigo publicado nos Annalen, no qual descreveu a transformação de um sal em uma substância não salina. Também é significativo que, no trabalho publicado, ele não tenha apresentado a experiência como uma refutação da força vital.
A reação dos químicos da época reforça essa interpretação. Berzelius interessou-se particularmente pelo fenômeno da isomeria, enquanto Justus Liebig, em discurso de 1837, destacou a produção de ureia “sem o auxílio das funções vitais” e viu nela o início de uma nova era para a ciência. Seu entusiasmo estava voltado sobretudo para as possibilidades da síntese artificial, e não para uma declaração de morte do vitalismo. No mesmo período, Berzelius continuava defendendo a existência da força vital em seu Lehrbuch (manual de Química), sem sequer mencionar a síntese da ureia. Para Ramberg, esse fato é particularmente revelador: se a experiência tivesse sido entendida como a refutação definitiva do vitalismo, seria difícil explicar sua permanência na obra de um de seus principais defensores.
A narrativa que transformou o experimento de Wöhler em um momento decisivo surgiu posteriormente. Ramberg identifica sua primeira formulação publicada na Geschichte der Chemie (História da Química) de Hermann Kopp, em 1843, quinze anos depois da experiência, e mostra como a história foi desenvolvida por Hermann Kolbe em textos posteriores. No final do século XIX, obituários e celebrações contribuíram para consolidá-la, até que a história de Wöhler como herói que teria derrotado o vitalismo se incorporou aos manuais de química. O episódio tornou-se, assim, aquilo que Ramberg denomina um mito historiográfico: uma narrativa simplificada que passou a organizar a memória da própria disciplina.
A verdadeira força desse mito está justamente em sua eficácia. Ele oferece à química orgânica um herói fundador, um momento de nascimento e uma narrativa de ruptura, elementos particularmente convenientes para o ensino. Mas a história da ciência raramente se desenvolve dessa maneira. O vitalismo não era uma doutrina única, e sua superação não poderia ser produzida por um único experimento. Como observa Ramberg, a síntese da ureia teve importância histórica, mas não porque tenha simplesmente “matado” o vitalismo. Ela adquiriu posteriormente um significado muito mais amplo, especialmente à medida que a síntese de substâncias orgânicas se tornou uma prática central da nova disciplina.
Talvez seja justamente aí que a História da Química possa nos ensinar algo importante sobre a própria ciência. Desconstruir uma narrativa mítica não significa diminuir a importância de Wöhler ou de sua descoberta. Significa compreender que o conhecimento científico é construído ao longo do tempo, por resultados experimentais, debates, interpretações e mudanças de perspectiva. A ciência é suficientemente fascinante para não precisar de heróis solitários nem de experimentos milagrosos.
Saiba mais: RAMBERG, Peter J. Ambix, v. 47, n. 3, p. 170-195, 2000. DOI: 10.1179/amb.2000.47.3.170.
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
|