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Boletim Eletrônico Nº 1317

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10/05/2018



41ª RASBQ: O pioneirismo de Jaime Rabi é reconhecido no Prêmio SBQ de Inovação


Professor da UFRJ que liderou a Microbiológica para empreender no setor de fármacos é um dos cinco premiados na Sessão de Homenagens

No início dos anos 90, depois do confisco e da mal-planejada abertura industrial do governo Collor, o Brasil vivia uma grande crise econômica. A atividade industrial estava em declínio, o dinheiro era escasso e o humor dos brasileiros andava terrível. Nesse clima, foi realizada uma reunião do Grupo Técnico que fazia o planejamento e acompanhamento do sub-programa de Química e Engenharia Química do PADCT. O grupo era formado por representantes de empresas, universidades e governo. Pelo planejamento inicial do programa, havia uma dotação correspondente a alguns milhões de dólares, para projetos de P&D de empresas. Os representantes de empresas no Grupo Técnico eram Kurt Politzer (GETEQ, IQT), Pedro Wongtschowsky (Oxiteno) e Jaime Rabi, que poucos anos antes transformara sua carreira de pesquisador ao se integrar a empresa Microbiológica, para produzir fármacos. Em dado momento da reunião, os três saíram da sala mas logo voltaram, propondo ao GT que realocasse esses recursos, atribuindo-os a projetos formativos, nas universidades. Justificaram sua proposta, explicando que a situação econômica era tão incerta, que nem se sabia quais empresas estariam abertas no ano seguinte. Por outro lado, aquele dinheiro permitiria manter algumas atividades nas universidades, fazendo uma conexão com um futuro melhor.

A história foi contada ao Boletim Eletrônico pelo professor Fernando Galembeck (Unicamp, presidente da SBQ entre junho de 1981 e 1984) para ilustrar quem é Jaime Rabi, vencedor do Prêmio SBQ de Inovação – Fernando Galembeck, que será concedido juntamente com outros quatro prêmios na 41ª Reunião Anual da SBQ, de 21 a 24 de maio, em Foz do Iguaçu. "Eu nunca me esqueci dessa história. Dentro de uma grande crise eles fizeram política de alto nível, abrindo mão do dinheiro, em benefício de um objetivo de longo prazo. E o Jaime, por ser de uma empresa pequena era quem mais tinha a perder", lembra o professor.

Os homenageados da 41ª RASBQ: Jaime Rabi, Fábio Minoru Yamaji, Francisco Krug e Richard Weiss

O prêmio foi criado há vários anos para reconhecer contribuições feitas por pesquisadores na área da química que tenham resultado em inovação, isto é conhecimento novo que produziu resultado econômico, estratégico, ou social. "Jaime Rabi tem uma trajetória notável. Foi pesquisador e professor universitário (UFRJ) por 20 anos, teve participação ativa nos primeiros anos da SBQ e criou, desenvolveu e produziu alguns fármacos importantes que estão no mercado", conta Galembeck. "Ele é um exemplo de inovação que se faz no Brasil há muitos anos, e que muitos insistem em ignorar."

Jaime Rabi foi professor no Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais da UFRJ (hoje Instituto) por 20 anos. Em 1985, ainda na academia, foi convidado a ingressar a Microbiológica como sócio responsável pela criação e desenvolvimento de uma vertente química dentro da empresa. Ele relembra assim: "Fui professor do NPPN da UFRJ (hoje IPPN) durante 20 anos. Nesse período fui procurado por diversas empresas para tentar encontrar solução a problemas de natureza tecnológica. Esta atividade, à margem das minhas obrigações como professor e orientador de alunos de pós-graduação e pesquisador 1-A do CNPq, me fez ver que nas indústrias locais não havia centros de P&D nem pessoas preparadas para interagir com a universidade. Esta realidade me convenceu que a minha responsabilidade como portador de conhecimento e capacidade de gerar e usar informação relevante extrapolavam os muros universitários. Eventualmente as demandas e estímulos no setor de fármacos transformaram a Microbiológica em uma empresa de química sintética industrial com a sua competência essencial focada na área dos ácidos nucleicos. Com o passar do tempo, as minhas responsabilidades na empresa tornaram impossível a minha permanência na universidade o que me levou a pedir demissão da UFRJ. Assim, o prêmio da SBQ, que muito me honra, simboliza o reconhecimento da academia brasileira na área da química que a prosperidade do Brasil depende da geração de ciência de boa qualidade, da formação de recursos humanos de alto nível e da incorporação dos benefícios da ciência pela sociedade."

Ao longo dos anos, a Microbiológica foi se integrando como um coletivo coeso de competências individuais para formar um tecido institucional capaz de enfrentar e resolver desafios complexos na área da química medicinal. "Há muitos anos a MB vem exportando seus produtos para clientes exigentes que nos auditam periodicamente. Nossos produtos são produzidos sob boas práticas de manufatura (BPF ou GMP, em inglês) e mantemos sistematicamente a certificação pela Anvisa para cada um de nossos produtos. Algumas de nossas documentações de manufatura (DMFs) estão depositadas na agencia reguladora de medicamentos europeia (EMEA) e em outras regiões do mundo o que nos permite manter as nossas exportações e nos estimula/obriga a frequentes atualizações. Por outro lado, e pela sua competência essencial no campo dos ácidos nucleicos adquirida pela formação dos seus líderes e pela sua expressão industrial no Brasil, a MB foi convidada a participar no desenvolvimento de duas companhias de biotecnologia emergentes nos Estados Unidos. Participamos ativamente na incorporação e desenvolvimento da Pharmasset em Atlanta (1998), e como aliados estratégicos da Idenix Pharmaceuticals em Boston. Nestes dois casos tivemos participação relevante na evolução de substâncias de ação direta contra os vírus da hepatite B e da hepatite C", escreveu Rabi ao Boletim SBQ.

O professor Jaime Rabi escreveu a seguinte pensata sobre os desafios do empreendedor científico no Brasil:

"Acredito que os principais desafios de um empreendedor científico no Brasil estão relacionados com o fato da ciência não ter sido inserida sistematicamente na cultura do País. Por razões históricas, a atitude no Brasil tem sido a do imediatismo e aversão ao risco. Sempre privilegiando as urgências do presente. Uma síndrome que chamaria de curto prazismo.

Temos falhado, como nação, em criar uma visão de futuro para o país. Há demasiada ênfase no relatório burocrático dos projetos como se o importante fosse "a prestação de contas" e não a relevância ou não do projeto proposto e dos resultados obtidos.

No Brasil, na nossa área de atuação, as oportunidades de mercado continuam muito concentradas na engenharia reversa e na imitação tecnológica. Ou seja, o foco da política industrial é no passado. Sabemos, entretanto, que em um ambiente de ciclos tecnológicos ultracurtos, este foco nos condena inexoravelmente à obsolescência prematura.

O esforço inovador está relacionado diretamente com a modernização permanente da sociedade. O empreendedor desafia o status quo; o que é contrário ao conforto e estabilidade das funções que regulam os nossos cotidianos. Ademais, assumir o risco do desconhecido (o percurso da inovação) é muito raro entre nos habituados que estamos com a ideia da estabilidade como valor a ser privilegiado. O conceito de sustentabilidade tem sido tergiversado com foco na preservação. Entretanto, a natureza nos ensina sobre a necessidade da evolução permanente como forma de sobrevivência.

O sucesso de um empreendimento científico depende, em grande parte, do objetivo a ser alcançado para mudar um paradigma vigente. Se a mudança é positiva, a inovação será absorvida pela sociedade. Mas não é só. Eficácia e eficiência em velocidade são essenciais. As instancias burocráticas, se acomodadas pela estabilidade e o conservadorismo, acabam impedindo o estabelecimento das inovações.

Por tudo isso, e como consequência destes fatores, as barreiras ao empreendimento científico são muito altas o que nos coloca em situação de baixa competitividade. Devemos enfrentar a nossa baixa produtividade e apreender a fazer mais com menos assumindo os riscos do novo em velocidade.

É possível que o país esteja discutindo abertamente seus problemas e que tenhamos também oportunidades de assumir com coragem a necessidade de agregar conhecimento aos nossos produtos valorizando assim os nossos recursos humanos. À dimensão do mercado, deveremos necessariamente acrescentar também a inclusão social como valor fundamental. Somente assim conseguiremos incorporar a ciência na cultura do pais e usufruir plenamente dos seus benefícios.

Além do Prêmio SBQ de Inovação, serão outorgadas outras quatro homenagens durante a 41ª RASBQ. O professor Fabio Minoru Yamaji (UFSCAR) receberá o Prêmio Revista Virtual de Química. Ele lidera o Grupo de Pesquisa Biomassa e Bioenergia, que trabalha com diversas fontes de biomassa como resíduos agrícolas e materiais da indústria de base florestal. O grupo busca contribuir com pesquisas para melhor aproveitamento e produção de combustíveis sólidos como carvão, briquetes e pellets. As pesquisas são realizadas em parceria com indústrias, principalmente, do setor agroflorestal. Além das pesquisas o grupo tem organizado eventos para discutir e divulgar as pesquisas, como o ConER - Congresso de Energias Renováveis e o bbcbrazil - Biomass and Bioenergy Conference.

"Fiquei extremamente honrado com o prêmio RVq. Foi uma grata surpresa!", declara Yamaji. "Na verdade, esse prêmio é para os alunos do Grupo de Pesquisa Biomassa e Bioenergia (UFSCar/Sorocaba) que são os autores dos artigos. Com certeza, um prêmio de uma entidade tão reconhecida como a SBQ é um incentivo para todo pesquisador."

O professor Fernando Carvalho (UFF), editor coordenador da RVQ afirma que o professor Yamaji mereceu o prêmio "pela sua relevante contribuição à revista onde o publicou mais de 10 trabalhos entre 2016 e 2017". Segundo Carvalho, os critérios para a premiação incluem "a contribuição efetiva à Revista Virtual de Química, como a organização de números especiais temáticos, a produção de artigos de alta qualidade que tenham grande repercussão na comunidade química, e a atuação como assessor ad-hoc, pois atualmente é sabido que a principal razão de sucesso dos periódicos científicos é o trabalho anônimo desses avaliadores."

O JBCS Medal of Honor será entregue ao professor Richard Weiss (Georgetown University), um dos conferencistas convidados (leia mais aqui). E a Medalha Simão Mathias será entregue ao palestrante de abertura (leia mais aqui), professor Francisco Krug (CENA-USP).

Completa a Sessão de Homenagens da 41ª RASQB a entrega do Prêmio Ângelo da Cunha Pinto à Scielo, Scientific Electronic Library Online, biblioteca eletrônica e modelo cooperativo de publicação digital de periódicos científicos brasileiros de acesso aberto, pela sua forte contribuição na preparação, armazenamento, disseminação e avaliação da produção científica.


Texto: Mario Henrique Viana (Assessoria de Imprensa da SBQ)








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