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A prática que pode fazer toda a diferença em sua carreira científica Como a mentoria, em harmonia com a orientação formal, impacta o desenvolvimento da carreira de cientistas
Por
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Carlismari Grundmann Pós-doutoranda na University of California, Santa Cruz
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Camila M. Crnkovic Professora na Universidade de São Paulo |
Mentoria é pra mim?
Se você está em início de carreira, a mentoria pode ser essencial para organizar as ideias, afinar expectativas e apontar caminhos. Se você já tem uma carreira “independente", você pode fazer a diferença sendo mentora ou mentor de cientistas em formação. Aliás, a prática de “ser mentor(a)” surpreende até mesmo os cientistas mais experientes. Então a mentoria é pra você? Sim, a mentoria é para todos nós cientistas.
A ciência brasileira segue crescendo, tanto em número de artigos como em número de autores. Enquanto em 2004 havia 205 autores por milhão de habitantes, hoje somos 932 autores por milhão de habitantes no Brasil (1). E a formação desses cientistas-autores passa por muitos desafios. Desafios estes que não são os mesmos para todos.
Pessoas de grupos sub-representados em determinadas áreas de pesquisa podem se deparar com questões relacionadas à visibilidade, pertencimento e permanência que talvez não sejam compreendidas pelos orientadores e colegas. Programas de mentoria surgem como um recurso estruturado para preencher essa lacuna na formação dos cientistas.
O Programa de Mentoria para Mulheres das Sociedades Brasileiras de Matemática (SBM), Física (SBF) e Química (SBQ) vem cumprindo um papel fundamental na carreira de mulheres cientistas nas exatas desde 2023 (2). Nós, autoras desse texto, somos uma dupla de mentora e mentoranda que se formou nesse programa. Escrevemos sob a perspectiva da nossa experiência de mentoria, que tem sido uma jornada de trocas, motivação, aprendizado e apoio mútuo.
Orientação e mentoria: qual a diferença?
A orientação é elemento fundamental de toda formação científica. Ela é institucional, estruturada e técnica. É também inerentemente hierárquica. É a orientação que garante a qualidade do trabalho científico, com atenção a prazos, produção e critérios avaliativos. A orientação visa o sucesso do(a) pesquisador(a) em seu projeto acadêmico e de pesquisa.
A mentoria é voltada mais à pessoa do que ao projeto. Ela é relacional e transversal ao considerar a multiplicidade de fatores que envolve o desenvolvimento da(o) profissional cientista. Ela é um espaço de escuta e trocas entre cientistas cujas carreiras se tangenciam, mas que seguem seus percursos. Importante: a mentoria é não-hierárquica.
Como mencionado, a relação orientador(a)–orientando(a) é, por natureza, hierárquica. E isso a torna funcional. A hierarquia estabelece responsabilidades e assegura critérios. Porém, essa assimetria pode criar barreiras para certos diálogos sobre inseguranças, dúvidas de carreira, dilemas pessoais, conflitos ou reorientações de trajetória. Os limites ao tratar desses assuntos podem não ser claros e variam significativamente da flexibilidade de cada orientador(a) e orientando(a). A mentoria surge como um espaço de escuta e reflexão, sem a avaliação formal.
Aqui é válido ressaltar que a mentoria não substitui orientação. A mentoria COMPLEMENTA a orientação.
O orientador(a) atua como regente da orquestra, coordenando tempos, entradas e a coerência do conjunto. Já o mentor(a) é aquele(a) que afina os instrumentos, trabalhando individualmente para que cada musicista possa oferecer o seu melhor som. Uma grande orquestra precisa de ambas para alcançar a harmonia.
Impactos reais da mentoria na carreira
Da nossa experiência, listamos aqui alguns efeitos práticos da mentoria:
- Maior clareza e segurança na tomada de decisões;
- Fortalecimento da autoconfiança;
- Ampliação de redes de contato;
- Reconhecimento de diferentes trajetórias possíveis na ciência e expansão das possibilidades de carreira;
- Permanência e progressão de mulheres e grupos sub-representados em carreiras científicas.
Assim como na orientação há reuniões de grupo para tratar de temas de interesse comuns e reuniões individuais para a discussão de dados e resultados, na mentoria pode haver encontros coletivos, além das reuniões entre mentor(a) e mentorando(a), sendo estas focadas em temas relacionados a desenvolvimento de carreira.
Para isso, é necessário comprometimento e dedicação. Manter certa frequência nesses encontros é essencial para que a mentoria seja efetiva. Prepare-se para encontrar o(a) seu(sua) mentor(a) ou mentorando(a), liste os assuntos que gostaria de discutir, abra-se para falar e ouvir com alteridade.
Haverá assuntos delicados, outros intensos e também momentos de celebrar conquistas! É nesse carrossel de trocas, transbordando as formalidades, que entendemos que a mentoria é uma ferramenta de transformação. É no encontro de vivências que o conhecimento deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser experiência. É quando se aprende o que ninguém ensina na carreira da(o) cientista.
Mentoria como política de cuidado
Extremamente valiosos, os programas de mentoria cientifica institucionais, ainda são esparsos. O Programa de Mentoria para Mulheres das SBM, SBF e SBQ apresenta-se como um dos poucos exemplos. É ferramenta de inclusão e permanência, é investimento em pessoas, é política de cuidado. É empenho institucional de baixíssimo custo e alto impacto na formação das pessoas.
Quando orientação e mentoria caminham juntas, a ciência não forma apenas pesquisadoras(es) competentes, mas pessoas confiantes, críticas e preparadas para sustentar o futuro da ciência em sua pluralidade. Afinal, as trajetórias científicas são diversas, assim como as pessoas que as constroem. Se a orientação organiza os caminhos formais da formação científica, a mentoria ajuda a reconhecer que a ciência pode ser feita de diversas maneiras e que cada trajetória carrega valor, legitimidade e potência.
Reconhecer essa pluralidade não é apenas um gesto simbólico, mas uma condição para que a ciência se torne mais justa, socialmente relevante e - por que não - inovadora. Fortalecer programas de mentoria na ciência significa, portanto, fortalecer a ciência do futuro. Significa orquestrar redes de apoio numa construção coletiva que amplia possibilidades e garante que mais pessoas possam ingressar, permanecer e florescer nos espaços científicos. Porque no fim, a ciência também se constrói nas relações. E é nelas que se define não apenas o que fazemos, mas quem nos tornamos ao fazê-la.
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