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Boletim Eletrônico Nº 1689 - 02/04/2026




DESTAQUE

Letramento racial na Química: diagnóstico, ações reparadoras e inspirações para uma ciência mais inclusiva




Fonte: Imagem gerada por inteligência artificial (Gemini e Copilot)

Em um país marcado por desigualdades estruturais historicamente construídas, fortalecer o letramento racial torna-se essencial para transformar instituições acadêmicas e científicas. Esse letramento envolve reconhecer o racismo como um elemento estrutural nocivo, compreender seus impactos sobre oportunidades e trajetórias e, sobretudo, atuar de forma crítica e comprometida na construção de práticas institucionais antirracistas.

Na Química, onde a excelência técnica é frequentemente apresentada como neutralidade, é fundamental lembrar que a ciência também é um espaço social, atravessado por relações de poder, hierarquias, desigualdades e omissões. A ausência de diversidade em laboratórios, programas de pós-graduação, comissões científicas e espaços de liderança não ocorre por acaso: ela reflete um sistema de exclusões persistentes que precisa ser nomeado, analisado e combatido.

Um passo indispensável para o letramento racial institucional é o diagnóstico realista das desigualdades. Autoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez destacaram em suas obras que o racismo no Brasil opera de forma sofisticada, frequentemente disfarçado por narrativas de cordialidade e democracia racial. No campo acadêmico, esse racismo pode se expressar na dificuldade de acesso de estudantes negros(as) a redes de pesquisa, oportunidades de intercâmbio, bolsas e orientações, bem como em ambientes hostis marcados por silenciamentos, microagressões e isolamento.

O intelectual Kabengele Munanga, referência no debate racial brasileiro, enfatiza que compreender o racismo exige ir além da dimensão individual e reconhecer sua estrutura histórica e institucional. Isso implica admitir que a ciência, embora guiada por métodos rigorosos, não está imune às desigualdades sociais. Entretanto, a desconstrução de uma estrutura racista consolidada e enraizada ao longo de séculos, requer uma reorganização social que depende de envolvimento, engajamento e posicionamento coletivo.

Nesse contexto de reorganização, convidamos a nossa comunidade da SBQ a voltar a atenção a perguntas como: Quem tem acesso à formação especializada? Quem está produzindo ciência? Quem é reconhecido(a)? Quem ocupa cargos de liderança? Quem permanece à margem? A resposta a essas perguntas revela que a desigualdade racial é, também, um desafio para a própria qualidade e pluralidade do conhecimento científico.

O NM-SBQ realizou um censo das mulheres da SBQ em que a questão racial foi abordada e os dados revelaram que 53% das mulheres brancas tinham doutorado, enquanto dentre as mulheres negras esse número era de 17%. Quando o assunto é assédio, as mulheres negras são as mais impactadas em relação às brancas (Boletim Eletrônico da SBQ Nº 1609). Após o diagnóstico, o desafio é transformar entendimento em ação. Políticas de inclusão e diversidade só se tornam efetivas quando se traduzem em iniciativas contínuas, reparadoras e passíveis de avaliação.

Muitas pessoas acabam por não compreender as cotas porque enxergam o acesso às oportunidades como algo puramente individual, ignorando desigualdades históricas que moldam o ponto de partida de cada grupo. A ideia de meritocracia absoluta cria a impressão de que todos competem em condições iguais, o que não corresponde à realidade brasileira. Também pesa a falta de informação sobre o impacto positivo das políticas afirmativas e o receio de perda de privilégios por parte de grupos sociais dominantes. O que se sabe é que essas ações afirmativas são indispensáveis para uma reparação histórica, já que não é possível alterar o passado, mas sim, transformar o presente e construir um futuro diferente.

A filósofa brasileira Djamila Ribeiro, ao discutir o conceito de "lugar de fala", contribui para refletirmos sobre representatividade e legitimidade nos espaços de decisão. No âmbito científico, isso significa garantir que pessoas negras participem não apenas como beneficiárias de políticas, mas como formuladoras de agendas, líderes de grupos de pesquisa, avaliadoras e protagonistas de decisões acadêmicas. Lugar de fala é o direito de existir e denunciar. Como cunhou a escritora brasileira Conceição Evaristo, a ideia de "escrevivência" mostra que falar é um ato político de sobrevivência. Portanto, quando alguém escolhe a omissão diante do racismo, essa omissão se torna mais um modo de sustentar a estrutura que tenta calar essas vozes.

No contra fluxo do racismo está o reconhecimento de referências intelectuais e culturais que ampliam nossa compreensão. No Brasil, além de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Munanga, Cida Bento, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Nilma Lino Gomes, é essencial destacar autores como Abdias Nascimento, cuja reflexão político e cultural negra permanece atual, e Achille Mbembe, filósofo camaronês que analisa criticamente o colonialismo e suas formas contemporâneas de desumanização. Frantz Fanon, pensador africano segue fundamental para entender os efeitos psicológicos e sociais da racialização, enquanto Chimamanda Ngozi Adichie alerta para o "perigo da história única", metáfora potente para a produção acadêmica: quando apenas um grupo social produz e válida narrativas, perde-se diversidade, complexidade e justiça. Cheikh Anta Diop, por sua vez, valorizou as civilizações africanas e confrontou o eurocentrismo que ainda orienta a ciência. Essas referências africanas rompem com epistemologias hegemônicas e ampliam horizontes de pensamento e inovação.

A construção de uma ciência inclusiva exige reconhecer que diversidade não é apenas uma meta social: é também um fator que fortalece a criatividade, a inovação e a qualidade da produção científica. Uma comunidade científica mais plural produz perguntas mais abrangentes, interpretações mais críticas e soluções mais conectadas às realidades sociais.

No contexto da Química, o letramento racial pode ser compreendido como uma competência essencial para formar profissionais capazes de atuar em um mundo marcado por desigualdades e desafios complexos. Não se trata de substituir critérios de excelência, mas de assegurar que a excelência não seja definida por um sistema historicamente excludente. Nesse sentido, promover o letramento racial na SBQ e nas instituições científicas brasileiras constitui um passo necessário para consolidar uma ciência verdadeiramente democrática, ética e socialmente comprometida, baseada em um compromisso contínuo, mensurável e institucionalizado com inclusão e diversidade, capaz de transformar o ambiente acadêmico em um espaço de pertencimento, respeito e protagonismo para todas as pessoas.

"A diversidade não é exceção; ela é a regra da vida."

Para saber mais:
Primeiro censo feminino da SBQ norteará ações de equidade de gênero - Boletim Eletrônico Nº 1609 - 27/06/2024: https://boletim.sbq.org.br/noticias/2024/n3889.php


Daniela S. Anunciação
Edson dos A. dos Santos
(Coordenadores do NID-SBQ)



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